“Pensaram que me encurralaram para vender o apartamento mas acabaram eles afundados em dívidas”

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Katya estava no meio da sua cozinha e sentia como se uma esfera fria e pesada estivesse subindo lentamente do seu estômago até a garganta.

Nos últimos dias, os enjoos da gravidez tinham se tornado quase insuportáveis, mas agora não eram os hormônios nem a náusea que causavam aquilo.

As palavras suspensas no ar, as intenções escondidas por trás delas, aquela tensão estranha e sufocante — era isso que fazia seu estômago se contrair.

— Katyusha, você é uma garota sensata — disse Galina Petrovna, passando a unha bem cuidada pelo velho piso de carvalho, como se estivesse testando sua qualidade. — Encare a realidade. Isso não é um apartamento, é uma cripta.

A sogra estava sentada à mesa como se estivesse fazendo um favor à cadeira, à cozinha e a toda a casa apenas por estar ali. Diante dela, o chá fumegava em uma fina xícara de porcelana — a única coisa naquele lugar que ela aprovava.

— A mamãe está certa, Katya — disse Viktor, em pé junto à janela, batucando nervosamente os dedos no parapeito. — Tetos altos são elegantes, claro. Mas você já viu as contas de aquecimento?

E a fiação elétrica? Esse prédio tem quase cem anos. Não é um ativo, é um peso.

Katya colocou instintivamente a mão na barriga. Ainda estava plana, quase imperceptível, mas para ela já era a coisa mais importante do mundo. Ela tinha herdado aquele apartamento da avó.

Ali sempre havia cheiro de livros antigos e tranquilidade. No verão passado, ela mesma lixou o piso, centímetro por centímetro, respirando o pó fino que cobria seus cabelos e sua pele, sonhando com crianças correndo ali um dia.

— O parque fica logo do outro lado da rua — disse ela em voz baixa. — Perto tem a clínica, a escola…

— Um parque cheio de bêbados! — explodiu Viktor, virando-se bruscamente. Havia um brilho estranho e fanático em seus olhos que sempre assustava Katya. — Katya, pare de se apegar ao passado!

Eu estou pensando na família! No nosso futuro! No nosso filho! A mamãe vai nos dar o terreno dela em Sosny. Você tem ideia de quanto vale um metro quadrado lá? Uma fortuna! E ela está nos dando de graça!

— É um patrimônio da família — assentiu Galina Petrovna com dignidade.

— Quero que meu neto cresça ao ar livre, não nessa caixa de concreto com todo tipo de vizinhos. Vamos construir uma casa de verdade lá. Um palácio. Mas precisamos de capital inicial.

O plano era simples, quase simples demais. Katya venderia seu apartamento — por cerca de doze milhões. Esse dinheiro iria para a construção. Viktor cuidaria de tudo: escolheria a equipe, organizaria o trabalho, e até o inverno a nova casa estaria pronta.

— Nós somos uma família, querida — disse Viktor, envolvendo-a com os braços. Suas mãos estavam quentes, mas um arrepio frio percorreu o corpo de Katya. — Você entra com o dinheiro, eu faço o trabalho pesado. Isso é justo.

“Justo.”

A palavra ecoava na cabeça de Katya. Ela queria tanto acreditar nisso. Afinal, família significa que tudo é compartilhado, não é? Não se pode ser egoísta quando se trata do futuro do filho.

— Está bem — disse ela finalmente, em voz baixa. — Vou colocar o apartamento à venda.

Galina Petrovna sorriu.

Um sorriso largo, gentil — mas os olhos permaneceram frios.

As semanas seguintes passaram em um ritmo frenético. Viktor vivia mergulhado em projetos, orçamentos e catálogos. Ele falava apenas de concreto, aço e janelas enormes. Katya, por sua vez, economizava. Em tudo.

No sábado, durante as compras, ela ficou muito tempo diante da prateleira de laticínios. O médico recomendou cálcio e vitaminas. As vitaminas eram caras. O queijo cottage estava em promoção.

Na cesta havia carnes caras para Viktor e um chá especial para a sogra. Para si mesma, ela pegou apenas o queijo cottage.

No caixa, o terminal apitou: “Fundos insuficientes.”

O rosto de Katya ficou vermelho. A fila atrás dela murmurou impaciente.

Ela ligou para Viktor.

— Você pode transferir um pouco? Fiquei sem dinheiro.

A resposta veio imediatamente, em um tom animado e entusiasmado.

“Coloquei todo o dinheiro no adiantamento do concreto! Estamos construindo! Aguenta firme!”

Katya silenciosamente devolveu o queijo cottage. A carne também. O chá também.

Naquela noite, ela cozinhou. Viktor comeu com apetite, brindou com vinho, falou sobre planos. Katya ficou em silêncio.

— Aliás, o que vamos fazer com a papelada? — perguntou com cautela.

O rosto de Viktor se contraiu por um instante.

— Depois. Isso não é importante agora.

Naquela noite, Katya não dormiu.

No dia seguinte, almoço na casa da sogra. Galina mostrava orgulhosa os projetos para uma amiga.

— Aqui será o jardim de inverno. E aqui, o meu ateliê.

Katya congelou.

— Mas… nós planejamos o quarto do bebê ali…

O sorriso de Galina congelou.

— Meu terreno — disse ela em voz baixa. — Minhas regras.

Essa foi a primeira rachadura.

Naquela noite, Katya solicitou o registro de propriedade.

O documento era claro: o terreno pertencia exclusivamente a Galina.

Nenhuma doação. Nenhuma copropriedade.

Katya entendeu: se uma casa fosse construída ali, não seria dela.

Seria da sogra.

No silêncio da noite, o telefone do marido acendeu.

Uma mensagem.

“Não pressione muito. Se ela vender o apartamento, depois não vai poder voltar atrás. Está grávida. Não terá para onde ir.”

Katya ficou olhando para a tela por muito tempo.

Algo dentro dela finalmente se quebrou.

Nos dias seguintes, ela fingiu.

Foi gentil. Obediente. Concordava com tudo.

Até que, numa manhã, sugeriu:

— Faça um empréstimo. Enquanto isso, podemos começar a construção.

Viktor hesitou. Depois concordou.

Ele pegou três milhões e meio.

A construção começou. O concreto era despejado no chão.

Katya observava.

E esperava.

No dia do contrato, ela não foi.

Ficou em casa. Assou uma torta.

Quando Viktor ligou, ela respondeu calmamente:

— Não vou vender o apartamento.

Houve silêncio do outro lado da linha.

— E o empréstimo?! — gritou Viktor finalmente.

— Não sei — respondeu Katya. — Peça para sua mãe.

A conversa foi curta.

O casamento acabou.

Katya foi até a janela. A luz do sol transformava o velho parquet em dourado.

A casa permanecia.

Forte.

Como ela.

E pela primeira vez em semanas, ela não se sentia mal.

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