Júlia estava fatiando pepino para a salada quando a sogra entrou na cozinha e parou diante da geladeira, cruzando os braços sobre o peito. Mihály estava servindo compota, e os gêmeos discutiam sobre um jogo de computador.
— Precisamos falar sobre o apartamento em Shushará.
Ela levantou a cabeça e encontrou o olhar de Daria Vasilevna.
— Você precisa entregar as chaves para Anna. Ela está com dificuldades com os credores, não tem onde morar, e você de qualquer forma teria alugado o apartamento para estranhos.
Mihály colocou o jarro na mesa. Pavlik e Koszta ficaram em silêncio — os meninos de nove anos já haviam aprendido a reconhecer quando os adultos estavam prontos para discutir.
— Daria Vasilevna, o apartamento foi deixado para mim pelo meu avô. Quero alugá-lo e guardar o dinheiro para a educação dos meus filhos.
Daqui a alguns anos, eles terão que prestar exames; professores particulares são caros e nossas economias quase inexistentes.
— A educação não vai desaparecer. Anna é irmã de sangue do seu marido.
Sangue. Entende a diferença?
— Pavlik e Koszta também herdaram o sangue de Mihály. Eu gerencio a herança para o bem dos meus filhos, como considero correto.
A sogra se aproximou, e Júlia sentiu o cheiro do perfume — doce, pesado, exagerado para um almoço em família na cozinha.
— Não pedi nada. Só estou dizendo o que vai acontecer.
— Não.
Daria Vasilevna sorriu, e Júlia se perguntou como nunca havia percebido como os lábios dela podiam ser firmes.
— Pense novamente. Pense bem antes de responder.
— Já respondi.
— Então ouça, na presença das crianças — para que saibam que tipo de mãe têm. Se você mostrar ganância, seus filhos jamais colocarão os pés na minha casa.
Farei de tudo para que Mihály entre com o divórcio e leve os meninos ao tribunal. Tenho conhecidos no serviço de tutela, pessoas que me devem favores.
Você me conhece — não jogo palavras ao vento.
Pavlik olhava para a avó de boca aberta. Koszta se segurava na beira da toalha.
Júlia olhou para o marido. Mihály estava parado na mesa, segurando o jarro com as duas mãos, em silêncio.
Ele não protestou contra a mãe, não falou com ela, não se colocou entre elas — apenas olhava silenciosamente para a janela.
E Júlia percebeu que lembraria desse momento pelo resto da vida.
Quatro meses antes, em novembro, o avô Vassilij morreu enquanto dormia. Júlia soube pela manhã, quando a diretora do lar de idosos em Gatchina ligou e informou que ele havia parado de coração durante a noite.
Ela o visitava a cada duas semanas durante seis anos — pegava o ônibus, depois o trem, e novamente o ônibus, até chegar à instituição estadual na periferia da cidade, onde o avô passava seus últimos dias.
Levava maçãs para ele, lia o jornal em voz alta, porque seus olhos, com mais de oitenta anos, já não suportavam, e ouvia suas histórias sobre o trabalho na fábrica de Kirov, onde trabalhou por quarenta anos como fresador.
Outros parentes apareciam raramente — no aniversário em abril e no Ano Novo, apenas por educação. Mas dois anos antes da morte, o avô fez um testamento e nomeou Júlia como única herdeira.
— Alugue o apartamento — disse em uma das últimas visitas, enquanto a chuva de outubro caía fora da janela. — Junte dinheiro pelos meninos. A educação hoje é cara, você é inteligente, vai lidar bem.
O apartamento ficava na rua Pushkinskaya em Shushará — um quarto, trinta e um metros quadrados, com vista para o estacionamento e o parquinho.
Júlia cuidou dos papéis em janeiro, em fevereiro encontrou uma imobiliária e discutiu os termos do aluguel.
Em março, quando a neve nas calçadas se transformou em lama e era possível sentir a primavera se aproximando no ar, ela queria assinar o contrato com os primeiros inquilinos.
Então a sogra descobriu sobre a herança.
Quem contou a ela — Mihály durante o almoço, quando visitaram os pais no fim de semana passado, ou algum parente distante que adorava fofocar pelo telefone — Júlia nunca soube.
Mas naquele domingo, Daria Vasilevna apareceu sem aviso prévio, com um bolo “Praga” na embalagem de marca, totalmente convencida de que tinha o direito de decidir sobre a propriedade dos outros.
Depois que a sogra foi embora, Júlia silenciosamente recolheu os pratos da mesa. Os meninos foram para o quarto e aumentaram o volume da TV mais do que o habitual.
Mihály ficou na cozinha.
— Ela exagerou. Minha mãe às vezes fala demais, sabe. Depois se acalma e esquece.
— Ela prometeu que levaria meus filhos, Mihály. Você viu o rosto deles?
— Vou falar com ela. Vou explicar que não se pode fazer assim.
— Você ficou ali parado e em silêncio. Ela ameaçou, e você apenas olhou para a janela com o jarro de compota na mão.
Mihály esfregou o dorso do nariz — um gesto habitual que aparece quando ele não sabe o que dizer.
— Eu não entendi o que estava acontecendo. Tudo aconteceu rápido demais.
— Rápido? Ela falou por minutos, talvez dois.
Você não conseguiu compreender em dois minutos?
— Júlia, eu não quero brigar. Minha mãe está errada, eu admito.
Mas Anna realmente está em uma situação difícil — os cobradores ligam todos os dias, ameaçam ir ao trabalho dela, escrevem para os vizinhos. Ela não dorme há três semanas.
— E por isso eu deveria entregar o apartamento herdado do meu avô para a educação dos nossos filhos?
— Talvez por pelo menos seis meses? Até Anna tentar resolver suas dívidas?
Júlia olhou para o marido de uma forma rara — diretamente, sem a suavidade habitual nos olhos.
— Sua mãe disse que levaria meus filhos. Disse que usaria seus contatos no serviço de tutela para forçá-lo a se divorciar. E você sugere que eu me coloque no lugar da Anna?
Ele ficou em silêncio. Tirou o olhar, e Júlia viu seu músculo facial se contrair.
— Não sei o que dizer.
— Foi exatamente isso que percebi.
Mihály foi para a varanda fumar, embora tivesse parado há três anos. Júlia lavou os pratos, limpou a mesa, conferiu o dever de casa com os meninos e foi para a cama, deitada de lado.
Pela primeira vez em onze anos de casamento, ela não tinha certeza se conhecia o homem que dormia ao seu lado.







