Minha sogra afirmou que o anel dela tinha desaparecido e apontou para mim. Só que ela não sabia que eu já a observava havia uma semana.
Liudmila virou a almôndega que chiava. O óleo espirrou em seu dedo, deixando uma pequena marca vermelha de queimadura, mas o rosto dela nem se contraiu. Enfermeiras se acostumam à dor.
Atrás dela, na cozinha, arrastando as pantufas, materializou-se Nina Semiónovna.
A sogra estava no papel de “rainha exilada e ofendida”. Apertou o roupão até o queixo, os lábios comprimidos.
— Liuda — disse com voz dramática, como se estivesse no final de Hamlet. — Você não viu meu cardigã azul? Aquele com botões de madrepérola?
— Não, Nina Semiónovna. Eu não mexo nas suas coisas.
— Estranho… — prolongou a palavra, enquanto perfurava as costas da nora com o olhar.
— Muito estranho. Eu pendurei na cadeira, no meu quarto (há um ano e meio ela já chamava o quarto de hóspedes de “meu”), e agora não está lá. Não foi você que levou para lavar?
— Não.
— Então só pode ter sido um duende! — resmungou Nina Semiónovna e abriu a geladeira de forma demonstrativamente barulhenta. — E também não tem leite. Liuda, ontem não foi você que comprou?
— Comprei. Um litro. Pasha bebeu um copo, o resto estava lá.
— Então vocês beberam tudo e esqueceram! — concluiu a sogra, batendo a porta. — E eu fiquei sem café. Muito obrigada.
Saiu pisando forte.
Liudmila fechou o gás.
Colocou a espátula de lado.
Isso tinha começado um mês antes, primeiro com ninharias: um pacote de leite, uma caixa de chá bom (Liudmila comprava para si, para os plantões). Depois sumiram quinhentos rublos que Vitalik tinha deixado na mesa para comprar pão.
A sogra, que antes fora chefe de almoxarifado, sempre dizia: “Em família grande ninguém se apressa.” Mas aquilo não era desatenção, era uma provocaçãozinha maldosa.
Liudmila não era paranoica. Era uma mulher cansada, com hipoteca, filho e marido caminhoneiro. Mas sabia contar. E sabia: as coisas não desaparecem sozinhas.
“Ou está com demência”, pensou, cobrindo as almôndegas, “ou quer acabar comigo.”
À noite, tirou a câmera que estava guardada havia muito tempo.
O cabo era longo. Liudmila passou-o ao longo do rodapé até o quarto. Colocou a câmera em cima do guarda-roupa, camuflada com uma pilha de livros. A lente apontava direto para a cômoda e para a porta de entrada.
“Oficialmente, é por causa da babá”, decidiu. “Embora não tenhamos babá. Mas, se perguntarem, digo que estou vigiando o Pasha, para não rabiscar o papel de parede.”
Passou uma semana em silêncio.
Vitaly voltou da estrada na sexta-feira. Liudmila não o esperava com ansiedade romântica, mas com a esperança de poder respirar aliviada. Quando o marido estava em casa, a sogra ficava mais contida, fazia o papel de avó carinhosa.
Na sexta à noite, a fechadura clicou.
— O papai chegou! — gritou Pasha, de cinco anos, jogando os carrinhos.
Vitaly, grandalhão, com cheiro de diesel e estrada, entrou no corredor.
— Olá, guerreiros! — resmungou, pegando o filho no colo. — Liuda, oi! Novidades?
Abraçou a esposa. Liudmila enterrou o nariz na barba áspera dele. Por um instante, acalmou-se.
E então, do quarto, flutuou Nina Semiónovna.
Ela não sorria, o rosto estava cheio de lágrimas, o nariz vermelho (claramente esfregado de propósito).
— Filho! — soluçou, jogando-se no peito dele. — Temos um problema! Um grande problema!
Vitaly se assustou.
— Mãe, o que aconteceu? O Pasha está doente?
— Pior! — fungou a sogra, lançando um olhar rápido e cheio de ódio para Liudmila. — Meu anel sumiu! Da minha avó! Ouro, com rubi! Uma lembrança!
— Não pode ser que você tenha perdido? — franziu a testa Vitaly, tirando o casaco.
— Como assim, perdido?! — indignou-se a mãe. — Eu guardava na caixinha de joias! No meu quarto! Na gaveta da cômoda! Hoje fui pegar e não estava lá!
Deu um passo para trás e levou a mão ao coração, teatralmente.
— Vitya, não quero acusar ninguém… Mas na casa só tem três adultos. Você estava viajando, eu estive aqui, e sua esposa… — fez uma pausa —, que vive reclamando que não tem dinheiro para a hipoteca.
Liudmila estava na porta da cozinha. Tinha um pano de prato na mão.
Olhou para a sogra e não sentiu medo, mas uma espécie de nojo frio.
— Nina Semiónovna — disse calmamente. — O que a senhora está insinuando?
— Não estou insinuando! — gritou a sogra.
— Só estou juntando os fatos! O leite some, o dinheiro some, agora o ouro! Exijo uma busca na casa! Vitya, chama a polícia! O policial da área! Que revistem as coisas dela! E os bolsos do casaco! Principalmente o casaco!
Vitaly olhou para a mãe. Depois para a esposa.
Ele não era o típico filhinho da mamãe, era mais um homem simples. Queria silêncio em casa, borsch quente e que as mulheres resolvessem sozinhas seus “assuntos de mulher”. Mas ali já tinha cheiro de pólvora.
— Mãe, você tem certeza? — perguntou com dificuldade. — Se chamarmos a polícia, isso não é brincadeira, é uma denúncia.
— Tenho certeza! — bateu o pé Nina Semiónovna. — Encontrem! Não vou tolerar uma ladra na minha casa!
— Chama, Vityal — disse Liudmila com voz firme. — Se a mãe quer, que procurem. Só avisa ao policial que há videovigilância no apartamento.
A sogra congelou. Os olhos correram pelas paredes do corredor.
— Que vigilância? — sibilou.
— Oculta — sorriu Liudmila apenas com a boca.
Quarenta minutos depois, chegou o policial da área.
Ivan Petrovitch, um major corpulento, ofegante e com a expressão de quem já viu de tudo nesta vida, tirou o boné.
— Então, cidadãos, o que aconteceu?
— Roubo! — declarou Nina Semiónovna, avançando. Já tinha trocado de roupa para preto (para efeito dramático) e tomado valeriana (pelo cheiro). — Roubaram minha joia de família! O anel!
— Quem roubou? — o major abriu o bloco de notas.
— Suspeito… — a sogra apontou para Liudmila — da minha nora! Só ela sabia onde estava!
— Com base em quê? Viu o roubo?
— Não! Mas ela fica andando por aqui enquanto eu vou ao mercado! E precisa de dinheiro!
O major suspirou. Olhou para Liudmila. Ela estava de braços cruzados. Vitaly sentava num banquinho, sombrio como uma nuvem.
— Senhora — disse o policial a Liudmila. — A senhora pegou o anel?
— Não.
— Fazemos uma busca? Ou a senhora entrega voluntariamente?
— Exijo a busca! — interrompeu a sogra. — Olhem os bolsos do casaco dela!
O major ergueu a sobrancelha.
— De onde vem tanta certeza sobre o bolso, cidadã? É vidente?
Nina Semiónovna se calou.
— Bem… intuição!
Liudmila aproximou-se da mesa onde estava o laptop.
— Major. Antes de começarem a busca e lavrarem o auto, gostaria de mostrar algo.
— O quê exatamente?
— Um filme. Um documentário.
Abriu o laptop. Vitaly levantou-se e se aproximou. A sogra ficou paralisada junto ao cabideiro.
Liudmila clicou no arquivo, data:
“Hoje, 10:30”.
Na tela apareceu a imagem: o quarto de Liudmila e Vitaly.
A porta se abriu, Nina Semiónovna entrou. Olhou ao redor como uma espiã em território inimigo.
Foi até a cômoda de Liudmila. Abriu a gaveta de cima, remexeu.
Pegou a caixinha de joias (a própria, que tinha trazido do outro quarto). Abriu, tirou o anel.
Girou-o na mão, examinando.
Depois foi até o guarda-roupa de portas de correr e abriu.
Encontrou o casaco cinza de Liudmila.
Colocou o anel no bolso direito.
Fechou o armário e saiu do quarto satisfeita, como um elefante depois do banho.
No corredor, caiu um silêncio denso. Tão denso que dava para ouvir a geladeira zumbindo na cozinha.
O major fez um som de entendimento.
— Pois é. Cinema e alemães.
Virou-se para a sogra.
— Cidadã Nina Semiónovna. A senhora conhece o artigo sobre falsa denúncia?
A sogra ficou em silêncio. O rosto dela ficou branco como a cal do teto.
— Denúncia falsa deliberada — explicou o major, com certo prazer. — Mais falsificação de provas. Pode dar até dois anos de prisão ou multa de até cento e vinte mil.
— Eu… eu só estava brincando… — sussurrou. — Era só uma brincadeira… um teste… Queria ver se ela era honesta…
— Viu? — perguntou Vitaly. A voz era baixa, mas assustadora. Ele falava assim quando um pneu estourava na estrada.
Vitaly olhava para a mãe.
Ele se lembrava dela diferente: uma mulher forte, decidida, que carregou o almoxarifado, a família, a criação dele nos ombros. Era dura, mas justa.
Quando foi que ela se transformou nessa… velhinha mesquinha e vil, que planta um anel para mandar a mãe do neto para a cadeia?
— Mãe — disse. — Por que você fez isso?
— Vityenka! — soluçou a sogra, agarrando a mão dele. — Ela não te ama! Te usa! Quer o apartamento! Eu queria te salvar! Abrir seus olhos!
— Abrir meus olhos? — Vitaly puxou a mão. — Você queria que minha esposa, a mãe do meu filho, fosse levada algemada? Você percebe que o Pasha teria visto isso?
— Pensei no meu neto! Para não crescer ao lado de uma ladra!
— Ao lado de uma ladra? — Vitaly sorriu. — Mãe, a ladra aqui é você. Roubou um ano e meio de vida tranquila da gente.
Virou-se para o policial.
— Major, podemos dispensar a denúncia? Isso é… assunto de família, vamos resolver nós mesmos.
O major olhou para Liudmila.
— E a vítima, o que diz? Vai registrar ocorrência?
Liudmila olhou para a sogra. Não sentia pena. Mas sentia por Vitaly. Arrastar a mãe dele pela polícia, pelos tribunais — isso é lama.
— Não — disse Liudmila. — Não vou registrar.
Que vá em paz, mas agora mesmo.
— Como quiser — o major colocou o boné. — É decisão de vocês. — e saiu.
— Arruma as coisas — disse Vitaly à mãe.
— Para onde? — chorou Nina Semiónovna. — É noite!
— Para casa. Para o seu apartamento.
— Lá está empoeirado! Frio! Faz um ano e meio que não vou lá!
— Não tem problema. Abre as janelas, passa um pano — esquenta.
Entrou no quarto, pegou as malas. Começou a jogar as coisas dentro. Roupões, suéteres, pantufas.
A sogra corria ao redor, lamentando:
— Vitya! Filho! Vai me expulsar?! A própria mãe?! Por causa dela?!
Ele parou. Na mão estava o tal cardigã azul que tinha desaparecido uma semana antes. Encontrou debaixo da cama da mãe, numa sacola.
— Mãe — disse. — Não estou te expulsando. Estou te devolvendo à realidade. Você morou conosco um ano e meio. Nós te alimentamos, te vestimos, toleramos seus caprichos. E você quis fazer um circo. Chega.
Fechou o zíper da mala.
— Vamos. Eu te levo.
Liudmila ficou na cozinha, não foi se despedir.
Ouviu a porta de entrada bater e o elevador começar a descer.
Depois, silêncio.
Serviu-se de chá.
Uma hora depois, Vitaly voltou.
Estava sombrio, cansado.
Sentou-se diante dela.
— Levei — disse. — Peguei as chaves.
— O que ela disse?
— Que eu sou um marido mandado. E que você me enfeitiçou.
— Só que nunca mais ponha os pés aqui.
Ficaram um pouco em silêncio.
— Liuda… me perdoa.
— Pelo quê?
— Por não ter visto, por achar que ia se resolver sozinho, e por ter acreditado na minha mãe.
Passou um mês.
Nina Semiónovna liga uma vez por semana.
Exige dinheiro, reclama da saúde, dos vizinhos, do tempo. Vitaly responde de forma seca: “Sim. Não. Transferi o dinheiro. Tchau.”
Não a convida, não vai visitá-la. Pasha uma vez perguntou:
— Mãe, por que a vovó Nina não mora mais com a gente? Ela ficou doente?
Liudmila fazia vareniki.
— Não, filho. É só que cada um precisa ter sua própria casa. E na própria casa é preciso se comportar honestamente. E a vovó… a vovó confundiu as casas.
Liudmila não desmontou a câmera.
Mudou para o corredor. Agora o “olho” aponta para a porta de entrada. Por garantia. Vitaly não reclamou, pelo contrário, ajudou a esconder melhor o cabo.
Ele disse: — É assim que tem que ser, Liuda. Quem se cuida, Deus protege. Quem não, é escoltado pelo comboio.
E ele está certo. Bem, agora é a vez de vocês.







