O marido se gabava de que sua esposa do interior estava fazendo as malas e indo embora enquanto levava a amante para o evento da empresa

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Siergiej gostava do momento em que a chave girava na fechadura da casa de campo com um clique firme, como se esse som pudesse cortar todo o mundo anterior, agora inútil. Hoje esse clique parecia especialmente doce.

– A minha “mulher do campo” hoje está a fazer as malas e vai embora! – disse ele em voz alta, falando ao telefone, com um sabor de sarcasmo vitorioso na voz. – Imagina, nem sequer chora. Está ali parada, como uma árvore, no meio da tralha dela.

Disse que até à meia-noite iria “libertar o território”.

Do outro lado da linha, a amante, a jovem Alina, respondeu com uma risada cristalina, como um riacho. Siergiej imaginou-a: pernas longas, lábios cheios, sem qualquer vestígio de celulite e praticamente sem pensamentos na cabeça.

A escolha perfeita para um “homem de status” que finalmente troca o modelo antigo por um novo.

– Em uma hora estou contigo – disse ele, enquanto carregava no botão do alarme da chave do seu Mercedes.

– Usa o vestido vermelho. Hoje à noite há um evento da empresa na “Plaza”. A fusão da “TransLogisztik” com a “Intek” – isto tem de ser celebrado com estilo.

Siergiej era chefe de departamento numa grande empresa de logística. Ou melhor: ele achava que era. Há meio ano que se via mentalmente como diretor de desenvolvimento regional.

O diretor antigo ia reformar-se, e Siergiej já via o seu nome na porta. Ele merecia. Vinte anos de trabalho duro, como um cavalo de carga.

O que ele não sabia era que o seu chefe, Igor Borisovitch, já tinha escolhido outra pessoa para o cargo. Uma mulher da filial da “Intek”. Aquela mesma “mulher do campo” que, segundo ele, estava a fazer as malas naquele momento.

Ludmila realmente estava a fazer as malas. Mas não com lágrimas, e sim com uma precisão fria, quase cirúrgica.

Ela abriu a gaveta da cómoda onde estavam as meias dele. Empurrou cuidadosamente as suas coisas para o lado e colocou as meias dele numa mala. Não estava a organizar as suas coisas — estava a organizar as dele.

A casa estava no nome dela, com hipoteca. O carro também. Siergiej pensava que era “por razões fiscais”. Na realidade, Ludmila era simplesmente mais inteligente.

Oito anos de casamento. Oito anos em que ela carregou tudo sozinha.

Ele bebia cerveja à noite, criticava o desejo dela de estudar (“para quê, aos quarenta anos?”), e quando ela era promovida dizia aos amigos: “uma mulher, no máximo chefe de departamento”.

E agora, naquela noite, Ludmila tinha conseguido aquilo para o qual se preparava há três anos.

À uma da manhã o telefone tocou, enquanto ela reescrevia a apresentação pela enésima vez.

– Ludmila Petrovna – disse Igor Borisovitch com uma voz cansada e rouca. – A fusão foi aprovada. Nova estrutura. Insisti para que o cargo de chefe regional fosse decidido por concurso aberto. O seu projeto é excelente. Está pronto?

– Está pronto há um mês, Siergiej Borisovitch – respondeu ela calmamente. – Só estava à espera da sua chamada.

– Amanhã vamos anunciar no evento. Mas há um detalhe… o seu marido…

– Vamos divorciar-nos – cortou Ludmila. – Amanhã ele vai chegar a pensar que eu estou no campo a fazer as malas. Eu sei. Ouvi-o a falar com a Alina. Esqueceu-se de desligar o altifalante.

Do outro lado houve silêncio, depois Igor Borisovitch riu-se de forma rouca.

– Sabe, Ludmila Petrovna, sempre disse que as mulheres são mais duras do que parecem. Amanhã será uma noite interessante.

Ludmila desligou e olhou para o fato azul escuro pendurado no cabide. Tinha-o comprado há três semanas. Não para chorar. Para vencer.

Na “Plaza”, o evento da empresa já fervilhava. Vidro, cristal, fumo artificial de gelo seco. Funcionários de duas empresas misturavam-se como lobos de alcateias diferentes.

Siergiej chegou com Alina. Ela usava o vestido vermelho, como ele tinha pedido — curto, chamativo, exagerado. Ele sentia-se como um rei. No bolso tinha o anel que já tinha tirado. Hoje começava uma nova vida. Hoje seria promovido.

– Disseste que a tua mulher estava no campo? – sussurrou Alina.

– Está a arrumar os paninhos de renda – riu Siergiej. – O mundo dela é o jardim. O nosso é isto aqui.

Ele brindou e depois conversou com um dos dirigentes da “Intek”.

– Ouviste? Vai entrar um novo chefe – disse o homem. – Perfil forte. Trouxeram de Tver.

– De Tver? – fez uma careta Siergiej. – Lá só há reformados.

Não reparou que as luzes acima do palco se apagavam.

Igor Borisovitch subiu ao palco.

– Senhoras e senhores! Hoje é um dia histórico. Unimos forças. Mas mais importante: criamos um centro de gestão comum.

Siergiej ficou tenso. Sentia o coração a bater.

– A vencedora do concurso… Ludmila Petrovna Vetrova!

Silêncio.

O corpo de Siergiej ficou rígido.

– O quê? – disse alto. – Que Ludmila?

No outro lado da sala, as portas de vidro abriram-se.

Ludmila entrou.

Já não era a mulher que ele tinha deixado de manhã, de camisola larga. Era outra pessoa. Fato azul como uma armadura. Cabelo perfeito. Saltos altos que soavam como sentenças a cada passo.

Siergiej congelou.

Ela passou por ele sem sequer o olhar.

– Obrigada pela confiança – disse ao microfone. – O projeto inclui não só um plano de negócios, mas uma reorganização completa.

Olhou para Siergiej.

– Há problemas sérios no departamento de logística. Incompetência, favoritismo e… decadência moral.

Alina apertou o braço dele.

– O que está a acontecer?!

Ludmila continuou:

– Primeira decisão: Siergiej Vetrova.

Sussurros percorreram a sala.

– O cargo de chefe de logística é eliminado. Será transferido para o arquivo, a meio período.

Alina empalideceu.

– Tu… mentiste-me! – gritou.

Siergiej não conseguia falar.

Ludmila desceu do palco e, ao passar por ele, disse apenas:

– A casa, o carro, tudo está no meu nome. Hoje não sai. Apenas muda de lugar.

Siergiej ficou ali, vazio por dentro. Finalmente percebeu: não era marido. Nem líder. Era apenas um projeto.

E esse projeto tinha sido encerrado.

Ludmila ergueu o copo de champanhe na direção de Igor Borisovitch:

– Este fato foi caro – disse baixinho. – Custou-me oito anos de casamento.

– Valeu a pena? – perguntou ele.

– Foi o melhor investimento da minha vida.

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