A sonda de medição bateu surdamente na mesa de azulejos do laboratório quando a larguei com certa irritação. O eco do som pareceu percorrer toda a sala, misturando-se ao zumbido baixo das máquinas e ao murmúrio constante dos ventiladores.
— Quarenta e dois por cento. Mais uma vez acima do limite — disse eu, baixo, mas com firmeza. — Devolva o carregamento, Petrovich. Dessa farinha só dá para fazer cola de papel de parede, não pão Borodinski de verdade.
Petrovich, o chefe do armazém, lambeu os lábios nervosamente, como se ainda esperasse que eu mudasse de ideia. Mas ele sabia bem que não valia a pena discutir comigo.
Há doze anos trabalhava naquela fábrica, e o meu nariz muitas vezes detectava a humidade excessiva do grão antes mesmo de os aparelhos conseguirem indicar qualquer coisa.
Limpei lentamente as mãos no meu avental branco e estendi a mão para o copo de chá.
O chá já estava frio, amargo, sem açúcar — exatamente como eu gosto. Igor, no entanto, nunca conseguia lembrar disso. Sempre colocava duas colheres de açúcar, como se isso pudesse melhorar o meu humor.
Foi então que o meu telefone começou a vibrar de repente sobre a mesa, com tanta força que se moveu e bateu no estojo do termómetro. Número desconhecido, fixo.
— Inna Viktorovna? — disse uma voz feminina, seca e oficial. — Aqui é o Banco Vest-K, Svetlana, responsável sénior de operações. Estou a ligar sobre a sua conta de poupança.
A sua representante autorizada insiste no encerramento da conta. Quatrocentos e oitenta mil em dinheiro.
Sentei-me lentamente numa cadeira. O meu avental farfalhou suavemente e uma dor estranha atravessou-me as costas.
— Que representante? — perguntei. — Eu não tenho nenhum.
— Tamara Stepanovna Savina. Apresentou uma procuração geral emitida há dois anos. Afirma que a senhora está hospitalizada e precisa urgentemente do dinheiro para uma cirurgia.
Por um instante, tudo à minha volta ficou em silêncio.
— Tamara Stepanovna está na casa de campo — disse finalmente, mas a minha própria voz soava estranha. — Em Nerekhta. Ela foi há três dias.
— Não, ela está aqui, no escritório central na rua Soviética. Afirma que a senhora está inconsciente. Chamamos a polícia ou a senhora vem?
— Estarei aí em quinze minutos. Não entreguem nada.
Desliguei o telefone. Não tremia. Apenas senti como se um peso de chumbo tivesse caído sobre as minhas mãos. Tirei o avental e quase o atirei ao cabide. Um único número ocupava a minha mente: 480 000.
A herança. Da minha tia de Vologda. Eu e o Igor tínhamos planeado usar aquele dinheiro para pagar o empréstimo e, um dia, abrir a nossa pequena padaria.
Ele sabia de tudo.
Liguei-lhe.
— Sim, Inna, estou numa reunião — sussurrou.
— A tua mãe está no banco. Está a tentar levantar o meu dinheiro.
Silêncio.
— Deve haver algum mal-entendido — disse ele finalmente.
— Se não vieres, vou apresentar queixa.
— Não chames a polícia! — explodiu ele. — Já estou a caminho.
O táxi atravessava rapidamente a cidade cinzenta. Pela janela, eu via o Volga, que naquele dia parecia de chumbo. Os meus pensamentos voltaram dois anos atrás, quando Tamara me convenceu a assinar a procuração.
“Só por precaução, querida.”
Na altura, acreditei nela.
Agora sabia que tinha sido um erro.
Quando cheguei ao banco, vi-a imediatamente. Estava à entrada, usando o meu casaco amarelo-mostarda, discutindo agressivamente com o segurança.
O meu casaco.
Do meu armário.
Já não era apenas dinheiro. Era uma invasão de limites.
— Tamara Stepanovna? — chamei.
Ela virou-se. Por um momento congelou, mas rapidamente recuperou a compostura.
— Inna! Já estás melhor?
Estava a mentir.
Sem hesitar. Sem pudor.
— Saia daqui — disse eu baixinho.
— Não percebes! — agarrou-me o braço. — O Yuri está em perigo de vida!
— Esse é o meu dinheiro.
— Na família tudo é comum!
Nesse momento, Igor chegou. Olhou para nós, confuso.
— Inna… talvez devêssemos dar-lhes uma parte…
Naquele instante percebi tudo.
Ele não me estava a proteger.
Estava a protegê-los.
Dentro do banco, a situação piorou ainda mais. A procuração era válida. O dinheiro já estava preparado.
Tive de blefar.
— Revoguei a procuração — disse eu.
Não era verdade.
Mas tinha de funcionar.
O responsável pela segurança verificou.
— Não há registo de revogação.
Tamara sorriu triunfante.
Então dei o próximo passo.
— Verifiquem o bolso do casaco — disse eu. — Lá está um documento sobre as dívidas do Igor.
O rosto de Igor empalideceu.
Não havia nenhum documento.
Apenas uma nota antiga.
Mas a reação de Tamara revelou tudo.
Pânico.
Medo.
Culpa.
— Vou chamar a polícia — disse eu.
E chamaram mesmo.
Quando a levaram, ela já não gritava. Parecia destruída, mas ainda havia raiva nos olhos.
Lá fora, Igor alcançou-me.
— Vais mesmo denunciar a minha mãe?
— Vou.
— Mas ela é família!
— Eu também era.
Entrei no táxi.
— Para a fábrica? — perguntou o motorista.
— Sim — acenei.
Quando o carro arrancou, uma estranha calma tomou conta de mim.
Na fábrica esperavam-me problemas.
A farinha demasiado húmida.
A entrega defeituosa.
Coisas que podem ser resolvidas.
Porque essas, pelo menos, não mentem.







