Sztyepan Arkagyevics fechou a tampa do laptop com força. O som foi seco, como um estalo alto e seco, ecoando pelo enorme escritório mergulhado em penumbra. No relógio brilhavam números vermelhos: 21:40. Sexta-feira.
As pessoas normais, a esta hora, estão sentadas em restaurantes, discutindo planos para o fim de semana ou indo para fora da cidade. Sztyepan Arkagyevics estava sentado no trigésimo andar de uma torre de centro empresarial, tentando não perder a paciência.
— Está a gozar comigo, Ilia? — pressionou o botão do viva-voz, recostando-se na cadeira de couro. — Enviou-me cento e quarenta páginas de documentação técnica. Numa mistura de inglês com algum dialeto cantonês específico.
— Sztyepan Arkagyevics, por favor compreenda, os parceiros chineses fizeram alterações de última hora — ouviu-se a voz culpada do chefe do departamento jurídico pelo altifalante. — O nosso tradutor adoeceu já na terça-feira.
As agências não aceitam textos tão técnicos aos fins de semana.
— Não me interessam as agências. Segunda de manhã temos de assinar o contrato de fornecimento de sistemas inteligentes para o novo bairro. Se falharmos o prazo, os coreanos ficam com o contrato.
— Passei o texto por um tradutor automático…
— E obteve um monte de palavras sem sentido! — explodiu Sztyepan. — “Integração do dragão verde no sistema de arrefecimento das válvulas”? Isto é um conto de fadas? Procurem um especialista. Arranjem-no nem que seja debaixo da terra.
Desligou a chamada e esfregou a ponte do nariz, cansado. Um contrato de milhões estava por um fio por causa da doença de um funcionário.
A porta do escritório rangeu suavemente. Sztyepan nem sequer levantou a cabeça — sabia que era a limpeza.
No espaço entrou Svetlana. Uma mulher magra e cansada, com uniforme azul-escuro, empurrando um carrinho que cheirava a detergente barato de limão. Trabalhava ali à noite, limpando salas de reunião e gabinetes da direção.
Movia-se em silêncio, como uma sombra. Atrás dela, tentando fazer o mesmo, entrou um rapaz adolescente.
Chamava-se Matvei. Sztyepan já o tinha visto algumas vezes no corredor. O rapaz ficava sempre sentado num pufe junto ao dispensador de água, à espera que a mãe terminasse o turno. Vestia uma sweatshirt larga e gasta, e ténis usados que rangiam sobre o parquet caro.
— Desculpe, Sztyepan Arkagyevics — disse Svetlana em voz baixa, recolhendo as chávenas vazias da mesa. — Só vou esvaziar os caixotes e limpar o pó. Não vamos incomodar.
O empresário fez um gesto vago, voltando a abrir o laptop. A luz do ecrã iluminou o seu rosto cansado e abatido. Os caracteres chineses e os parágrafos em inglês fundiam-se numa massa cinzenta.
Matvei, que normalmente ficava junto à porta, deu de repente um passo em frente. Depois outro. Parou a meio metro da mesa e inclinou-se ligeiramente para olhar o monitor.
Sztyepan reparou nisso. A irritação acumulada durante toda a noite precisava de sair.
— O que foi? — perguntou secamente, lançando-lhe um olhar pesado. — Perdeste alguma coisa?
Svetlana virou-se imediatamente, quase deixando cair uma chávena.
— Matia, afasta-te da mesa! Desculpe, ele só ficou a olhar… Vai para o corredor!
Mas Matvei não se mexeu. Ajustou os óculos de armação plástica barata e olhou diretamente para o dono da empresa.
— Está a ler mal o sexto parágrafo — disse, com voz ainda frágil, mas surpreendentemente calma. — É uma especificação de protocolos de rede. O tradutor automático escreveu “dragão”. Na verdade, é o nome de um algoritmo de encriptação. Algo como Long.
Fez-se silêncio. Um silêncio denso, quase vibrante. Só se ouvia o zumbido da ventilação.
Sztyepan recostou-se lentamente. Um sorriso sarcástico apareceu no canto dos lábios.
— Ah, claro — disse arrastando as palavras. — Sempre procurei um consultor técnico entre estudantes.
— Sztyepan Arkagyevics, desculpe, nós vamos embora — apressou-se Svetlana, mas Matvei soltou o braço.
— Deixe, Sveta. Que ele fale — disse Sztyepan, entrelaçando as mãos. — Então percebes de algoritmos? E também de chinês? Ou só reconheceste algumas palavras?
— Leio inglês técnico fluentemente. E chinês a nível avançado. Nível HSK 4 — respondeu calmamente Matvei.
Sztyepan riu-se alto, com incredulidade.
— HSK 4? Fantástico. Ouve, rapaz. Eu tenho diplomados do MGIMO a trabalhar para mim. E até eles tropeçam nestes contratos. E tu contas histórias enquanto a tua mãe limpa aqui.
O rosto de Svetlana ficou vermelho. Vergonha e dor refletiram-se nele.
— Desculpe… — sussurrou. — Matvei, vai embora!
Mas o rapaz não se mexeu.
— Não estou a contar histórias — disse com firmeza. — Se assinarem isto assim, dentro de um ano vão à falência.
O riso cessou imediatamente.
— Repete — disse Sztyepan em voz baixa.
— Mãe, não! — exclamou Svetlana.
— Deixa — rosnou Sztyepan. — Explica. Onde vês a falência?
Matvei aproximou-se da mesa e apontou para a parte inferior do ecrã.
— Abra o anexo número três. Ponto 4.2.
Sztyepan fez scroll.
— Aqui — disse o rapaz. — O tradutor automático traduziu como “manutenção padrão”. Mas no original diz outra coisa: o hardware é fornecido barato. As condições reais estão na licença do software.
Matvei respirou fundo.
— Vocês não ficam com o software. Só com o equipamento. E têm de pagar uma subscrição por cada sensor, por cada atualização, por cada dispositivo em cada apartamento. Se não pagarem, o sistema pode ser desligado remotamente. Vão pagar para sempre com a vossa receita.
Silêncio.
Sztyepan olhou lentamente para o ecrã. Palavras em inglês: “subscription-based licensing”, “remote shutdown access”. Tudo fez sentido.
A armadilha era perfeita.
Um frio percorreu-lhe as costas.
— Consegues traduzir tudo? — perguntou seriamente.
Matvei assentiu.
— Sim.
— Senta-te — disse Sztyepan, levantando-se.
Svetlana permaneceu imóvel junto à porta.
O rapaz sentou-se na cadeira de diretor.
Durante quarenta minutos, só se ouviu o som das teclas.
Quando terminou, Sztyepan deu-lhe um copo de água.
— Obrigado.
Virou-se para Svetlana.
— A partir de amanhã não limpa mais. Vou transferi-la para o departamento de documentação. Triplo salário.
Para Matvei:
— A partir de amanhã vais estudar. Eu pago tudo.
— Não precisamos de caridade — disse o rapaz.
— Isto não é caridade. É pagamento. Salvaste a empresa.
Quatro anos depois, Matvei já estava sentado à direita na mesa de negociações, como parceiro júnior.
— Apanhaste-os bem — disse Sztyepan.
— Só li as letras pequenas — sorriu Matvei.
— Foi o senhor que me ensinou isso — acrescentou.
Svetlana observava-os através da parede de vidro. E, pela primeira vez na vida, não era uma mulher da limpeza. Era uma mãe orgulhosa do seu filho.







