— Tira o anel, Inna. Ele nunca te caiu bem, é fino demais para as tuas mãos acostumadas aos desenhos — disse Kirill, sem sequer se levantar do sofá.
Ele estava sentado de forma relaxada, com uma perna sobre a outra, acariciando preguiçosamente o joelho de Anzhelika. O joelho daquela mesma “assistente” que eu mesma contratei para o nosso estúdio de design há três meses.
Anzhelika olhava para mim com uma mistura de pena e superioridade — aquele tipo de olhar que só têm as mulheres convencidas de que a juventude delas é um passe vitalício para o paraíso.
— Estás a falar a sério? — coloquei a minha mala sobre a consola no corredor. — Assim, numa quarta-feira à noite, à frente dela?
— Quando mais? — bocejou Kirill. — O que eu e a Anzhela temos é sério. Ela inspira-me, percebes? Com ela sinto-me um criador, não apenas um gestor de projetos.
E tu… tornaste-te uma função, Inna. Uma encarregada de obra de saia. Cálculos, orçamentos, aquele cheiro constante a massa. Estou farto disso.
— Foi essa “obra” que pagou o teu novo Mercedes e este apartamento — observei, tentando que a minha voz não tremesse.
— O apartamento está em nome da minha mãe, sabes bem — sorriu com desdém, e havia tanto veneno nesse sorriso que senti náuseas fisicamente. — Portanto, legalmente és uma convidada aqui. Dou-te uma hora.
Arruma o essencial. O resto levas depois, quando eu e a Anzhela formos de férias.
Anzhelika deu uma risadinha e encostou-se a ele.
Olhei para os dois e não os reconheci. Eram estranhos que decidiram que tinham o direito de controlar a minha vida.
Dez anos. Durante dez anos tirei o estúdio das dívidas, encontrei clientes, dormi em obras enquanto o Kirill “fazia contactos” em restaurantes caros.
O pai dele, Boris Arkadyevich, dizia sempre: “Inna, tu és a fundação. O Kiryusha é apenas uma biruta. Cuida para que a fundação não rache.”
Boris Arkadyevich morreu há meio ano. Foi a única perda que realmente lamentei. Era-me mais próximo do que o meu próprio pai.
— Ouviste? O tempo está a passar — disse Kirill, atirando o meu vaso favorito de vidro de Murano para dentro da mala. Não se partiu, apenas bateu com um som surdo, mas soou como se algo tivesse quebrado dentro de mim.
Não chorei. Não gritei. Apenas fui para o quarto.
As minhas roupas estavam no armário. Arrumei mecanicamente. Jeans, camisolas, portátil. O mais valioso não estava ali. Estava no cofre, cujo código Kirill nunca se deu ao trabalho de aprender — “papéis são aborrecidos”.
Tirei a velha pasta de couro de Boris Arkadyevich. Ele deu-ma uma semana antes de morrer, no hospital.
“Inna, dentro estão os documentos da casa no campo e alguns assuntos pessoais meus. Não a abras até que o Kiryusha mostre o seu verdadeiro rosto. Eu conheço-o, fui eu que o criei.
Ele vai tentar magoar-te assim que sentir que pode fazê-lo sem consequências. Nesta pasta está a tua segurança.”
Na altura, pensei que ele estava a imaginar coisas. Estava enganada.
— Já acabaste? — Kirill apareceu à porta. — Deixa as chaves. E amanhã não apareças no escritório. Estás despedida. Já assinei os papéis como diretor-geral.
— Não me podes despedir. Sou cofundadora.
— Com quarenta por cento. Eu e a minha mãe temos sessenta. Houve uma reunião ontem. Agora estás livre. Podes ir para a terrinha da tua mãe pintar cercas.
Peguei na mala. Era pesada, mas não senti.
Ao passar por Anzhelika, vi o pendente no pescoço dela — uma gota de ouro. Era um presente de Boris Arkadyevich no meu trigésimo aniversário. Kirill deve ter mexido nas minhas joias.
— Bonito pendente — disse em voz baixa. — Usa-o. Vai ser útil habituares-te a coisas com história. Em breve terás muitas histórias.
Saí. Risos ficaram atrás de mim.
Lá fora estava frio. Entrei no meu carro — a única coisa que estava em meu nome. Atirei a mala para trás e coloquei a pasta ao meu lado.
As minhas mãos tremiam ao ligar o motor. Uma frase pulsava na minha cabeça: “És uma convidada.”
Não fui para casa da minha mãe. Fui para um pequeno hotel nos arredores.
O quarto era abafado. Não me importei. Sentei-me e abri a pasta.
Documentos. E um envelope amarelado: “Para Elena, pessoalmente.”
Elena sou eu. Segundo o passaporte.
Abri-o.
“Querida Lena. Se estás a ler isto, o meu filho tornou-se aquilo que eu temia. Lamento. Mas sabe isto: nunca o considerei dono do nosso negócio. Ele é um consumidor. Tu és uma criadora.
O edifício do estúdio pertencia à minha empresa. Deixo-o para ti.
E mais uma coisa…”
O segundo documento: a participação maioritária era condicional. Se Kirill abusasse… tudo passaria para mim.
E havia provas dos seus roubos.
Fechei os olhos.
— Vamos ver quem é o verdadeiro dono — sussurrei.
Durante três meses, fiquei em silêncio.
Advogados. Processos. Investigações.
Entretanto, Kirill posava no escritório com Anzhelika.
Ele não sabia que já tinha perdido.
Quando tentou vender o edifício, eu apareci.
— O que é isto?! — gritou.
— A realidade — disse o meu advogado.
Anzhelika ficou pálida.
Kirill folheou os documentos. O rosto dele ficou cinzento.
— Isto é falso!
— Não — disse eu. — Foste tu que fizeste isto.
Meio ano depois, ele voltou.
Destruído.
— Lena… ajuda-me…
— Lembro-me do que disseste. Sou uma convidada.
— O que devo fazer?
— O mesmo que eu fiz. Vai-te embora. Quando ele saiu, ficou silêncio.
Tirei a gota de ouro. Era noite. Fui até ao lago, à terra que Boris Arkadyevich me deixou. Atirei o pendente. Desapareceu na água.
Já não precisava dele. Eu tinha um futuro. E nesse futuro não havia lugar para convidados. Apenas para a dona. — Vamos para casa — disse ao motorista. E ele sabia o que isso significava.







