O fecho de metal rangeu com um som tão agudo que Inna quase estremeceu — a dor atravessou-lhe os dentes. A porta bateu com força, cortando a fina e suja faixa de luz que vinha do corredor.
— Joguem-na com os reincidentes! — riu o diretor da prisão, o coronel Maiarov, algures do outro lado da pesada porta de aço.
Os seus passos pesados foram-se afastando lentamente. — Deixem-na passar a noite com os “protegidos”. Ao pequeno-almoço já lhe passa essa mania de heroína!
Inna encostou as costas à parede áspera, coberta de tinta a óleo. Na cela número oito o ar era denso e sufocante. Misturavam-se cheiros de pão azedo, roupa suada e tabaco forte, impregnado até no betão.
A única lâmpada no teto zumbia como um enxame enfurecido preso no espaço.
Nas beliches de ferro, as sombras começaram a mexer-se lentamente.
— Olhem só, rapazes, a direção mandou-nos uma ama — disse com voz rouca um homem magro, ossudo, da cama de cima, deixando cair os braços tatuados. — Então, porque tremes, senhora comandante?
Inna endireitou-se. O uniforme colava-se às suas costas molhadas de suor.
O rádio e o spray de pimenta tinham-lhe sido retirados logo à entrada, quando Maiarov decidiu punir a nova funcionária por não fechar os olhos ao roubo de alimentos.
— Todos no vosso lugar — disse com uma voz calma e treinada.
Da cama de baixo, junto à janela, levantou-se lentamente uma figura alta. Um homem na casa dos cinquenta e poucos anos, cabelo curto e grisalho, rugas profundas e lábios cerrados. Usava o fato de prisioneiro negro como se não fosse uniforme, mas armadura.
— Cala-te, Siplí — disse baixinho, e o homem magro encolheu-se imediatamente.
O homem aproximou-se. O seu olhar — cansado, mas penetrante — estudou Inna como se procurasse uma falha. Stiepan Korsunov. O líder informal do bloco.
O homem por quem Inna tinha mudado de nome, se mudado para aquela cidade gelada do norte e vestido aquele uniforme odiado.
— O Maiarov não manda pessoas para a jaula sem motivo — disse Stiepan. A voz era rouca, cansada. — O que é que fizeste a ele?
— Não assinei guias falsas de conservas de carne — respondeu Inna, fitando-o nos olhos.
Stiepan sorriu. Havia naquele sorriso um cansaço tão profundo que Inna, por um segundo, sentiu pena dele.
— Idealista… Então fica aí até de manhã. Amanhã vais escrever o pedido de demissão e voltar para a tua mãe e a sopa quente. Idealistas não duram muito aqui.
Virou-se para voltar ao seu canto. Inna sentiu: se ele fosse agora, não haveria outra oportunidade.
— 12 de outubro. À noite. A estrada antiga atrás da serraria — sussurrou rapidamente. — Chovia muito. Tu conduzias um camião de madeira. No retrovisor havia um pequeno urso de madeira.
Stiepan parou.
O ar pareceu congelar.
— Saíste com uma lanterna — continuou Inna, aproximando-se. — Havia um homem na estrada. Um carro preto atropelou-o… e não parou. Mas tu viste a matrícula. E viste quem estava ao volante.
Stiepan virou-se lentamente. O seu rosto ficou de pedra.
— Eu não vi nada — cortou. — E não te aconselho a espalhares isso.
— Esse homem era o meu pai — engoliu Inna o nó na garganta. — Ilia Nikoláievitch. Contabilista. Encontrou desvios na fábrica e documentos de empresas fictícias. Ia à procuradoria.
Stiepan ficou a olhar para ela durante muito tempo.
Lá fora, o vento uivava, sacudindo os cabos.
— Contabilista… — murmurou. — Quando lá cheguei… ele já estava muito mal. Agarrou-me no casaco. Disse para eu cuidar da filha dele, Ira.
— No registo eu sou Irina — acenou Inna. — “Inna” é só o nome de casa.
Stiepan sentou-se lentamente na beira da cama. Tirou uma caixa de fósforos amarrotada, virou-a nas mãos e guardou-a.
— No carro preto estava o Anton Maiarov — disse por fim, com voz oca. — O filho do diretor. Estava completamente bêbado. Os faróis iluminaram-lhe o rosto.
Olhou para as mãos — marcadas pelo óleo enraizado, sinais de uma vida inteira.
— Fiz queixa. Acreditei na lei. Dois dias depois vieram os polícias. Destruíram o meu apartamento, assustaram a minha mulher. Na caixa de ferramentas apareceu algo que eu nunca vi na vida.
O Maiarov veio pessoalmente. Disse que, se eu falasse em tribunal, a minha mulher também seria implicada. E ela estava doente… muito. Não sobreviveu. Agora já não tenho nada a perder.
Inna sentou-se ao lado dele.
— Eu também não, Stiepan. Há dez anos que desenterro este caso. Papéis desaparecidos, relatórios encobertos. Mas agora tenho contacto na segurança interna. Se tu confirmares oficialmente…
— Palavras não são provas — interrompeu. — Muito menos de um preso. Daqui não saímos para testemunhar. E amanhã tu vais ser despedida.
— Não vou.
Inna tirou do bolso do uniforme um pequeno gravador preto.
— Isto grava tudo.
Stiepan olhou-o durante muito tempo. Depois pegou nele lentamente.
A noite passou num sono inquieto. De madrugada, a fechadura rangeu.
— Mexe-te — rosnou o guarda. — O coronel chama-te.
O gabinete de Maiarov era revestido a madeira escura. O ar cheirava a perfume caro e poder. Ele estava recostado, brincando com uma caneta.
— Então, gostaste da “hospitalidade”? — sorriu.
— Há pessoas surpreendentemente honestas lá em baixo — respondeu Inna.
O sorriso desapareceu.
Atirou uma pasta para a mesa.
— És interessante. Investigámos-te. Mudaste de nome. Usaste o nome do teu padrasto.
Levantou-se.
— Ilia Saveliev… o teu pai. Porque vieste aqui? Fazer de detetive?
Inna ficou tensa.
— Procurar justiça.
Maiarov riu.
— Justiça? Aqui, a justiça sou eu.
Depois ficou sério.
— Assina a demissão e esquece este lugar.
— Chegaste tarde — disse Inna calmamente.
Colocou uma capa vazia do gravador sobre a mesa.
— A gravação já foi enviada.
No instante seguinte, ouviu-se um estrondo no portão. Veículos negros invadiram o recinto. Homens armados saíram.
Maiarov empalideceu.
A porta foi aberta com violência.
— Coronel Maiarov. Ministério do Interior. Está detido.
Um mês depois, a terra húmida do cemitério ainda estava fria.
Inna colocou dois cravos sobre a campa.
— Consegui, pai.
Passos atrás dela.
Stiepan estava ali. Já em liberdade. A investigação tinha revelado tudo.
— Era um bom homem — disse ele.
— E agora?
— Estou a trabalhar. A começar de novo.
Silêncio.
Depois Inna, baixinho:
— Eu também.
O vento passou pelas árvores. E, pela primeira vez em muito tempo… não doeu.







