O coronel quis punir a nova funcionária mas não sabia de quem ela era filha 😱🔥

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

O fecho de metal rangeu com um som tão agudo que Inna quase estremeceu — a dor atravessou-lhe os dentes. A porta bateu com força, cortando a fina e suja faixa de luz que vinha do corredor.

— Joguem-na com os reincidentes! — riu o diretor da prisão, o coronel Maiarov, algures do outro lado da pesada porta de aço.

Os seus passos pesados foram-se afastando lentamente. — Deixem-na passar a noite com os “protegidos”. Ao pequeno-almoço já lhe passa essa mania de heroína!

Inna encostou as costas à parede áspera, coberta de tinta a óleo. Na cela número oito o ar era denso e sufocante. Misturavam-se cheiros de pão azedo, roupa suada e tabaco forte, impregnado até no betão.

A única lâmpada no teto zumbia como um enxame enfurecido preso no espaço.

Nas beliches de ferro, as sombras começaram a mexer-se lentamente.

— Olhem só, rapazes, a direção mandou-nos uma ama — disse com voz rouca um homem magro, ossudo, da cama de cima, deixando cair os braços tatuados. — Então, porque tremes, senhora comandante?

Inna endireitou-se. O uniforme colava-se às suas costas molhadas de suor.

O rádio e o spray de pimenta tinham-lhe sido retirados logo à entrada, quando Maiarov decidiu punir a nova funcionária por não fechar os olhos ao roubo de alimentos.

— Todos no vosso lugar — disse com uma voz calma e treinada.

Da cama de baixo, junto à janela, levantou-se lentamente uma figura alta. Um homem na casa dos cinquenta e poucos anos, cabelo curto e grisalho, rugas profundas e lábios cerrados. Usava o fato de prisioneiro negro como se não fosse uniforme, mas armadura.

— Cala-te, Siplí — disse baixinho, e o homem magro encolheu-se imediatamente.

O homem aproximou-se. O seu olhar — cansado, mas penetrante — estudou Inna como se procurasse uma falha. Stiepan Korsunov. O líder informal do bloco.

O homem por quem Inna tinha mudado de nome, se mudado para aquela cidade gelada do norte e vestido aquele uniforme odiado.

— O Maiarov não manda pessoas para a jaula sem motivo — disse Stiepan. A voz era rouca, cansada. — O que é que fizeste a ele?

— Não assinei guias falsas de conservas de carne — respondeu Inna, fitando-o nos olhos.

Stiepan sorriu. Havia naquele sorriso um cansaço tão profundo que Inna, por um segundo, sentiu pena dele.

— Idealista… Então fica aí até de manhã. Amanhã vais escrever o pedido de demissão e voltar para a tua mãe e a sopa quente. Idealistas não duram muito aqui.

Virou-se para voltar ao seu canto. Inna sentiu: se ele fosse agora, não haveria outra oportunidade.

— 12 de outubro. À noite. A estrada antiga atrás da serraria — sussurrou rapidamente. — Chovia muito. Tu conduzias um camião de madeira. No retrovisor havia um pequeno urso de madeira.

Stiepan parou.

O ar pareceu congelar.

— Saíste com uma lanterna — continuou Inna, aproximando-se. — Havia um homem na estrada. Um carro preto atropelou-o… e não parou. Mas tu viste a matrícula. E viste quem estava ao volante.

Stiepan virou-se lentamente. O seu rosto ficou de pedra.

— Eu não vi nada — cortou. — E não te aconselho a espalhares isso.

— Esse homem era o meu pai — engoliu Inna o nó na garganta. — Ilia Nikoláievitch. Contabilista. Encontrou desvios na fábrica e documentos de empresas fictícias. Ia à procuradoria.

Stiepan ficou a olhar para ela durante muito tempo.

Lá fora, o vento uivava, sacudindo os cabos.

— Contabilista… — murmurou. — Quando lá cheguei… ele já estava muito mal. Agarrou-me no casaco. Disse para eu cuidar da filha dele, Ira.

— No registo eu sou Irina — acenou Inna. — “Inna” é só o nome de casa.

Stiepan sentou-se lentamente na beira da cama. Tirou uma caixa de fósforos amarrotada, virou-a nas mãos e guardou-a.

— No carro preto estava o Anton Maiarov — disse por fim, com voz oca. — O filho do diretor. Estava completamente bêbado. Os faróis iluminaram-lhe o rosto.

Olhou para as mãos — marcadas pelo óleo enraizado, sinais de uma vida inteira.

— Fiz queixa. Acreditei na lei. Dois dias depois vieram os polícias. Destruíram o meu apartamento, assustaram a minha mulher. Na caixa de ferramentas apareceu algo que eu nunca vi na vida.

O Maiarov veio pessoalmente. Disse que, se eu falasse em tribunal, a minha mulher também seria implicada. E ela estava doente… muito. Não sobreviveu. Agora já não tenho nada a perder.

Inna sentou-se ao lado dele.

— Eu também não, Stiepan. Há dez anos que desenterro este caso. Papéis desaparecidos, relatórios encobertos. Mas agora tenho contacto na segurança interna. Se tu confirmares oficialmente…

— Palavras não são provas — interrompeu. — Muito menos de um preso. Daqui não saímos para testemunhar. E amanhã tu vais ser despedida.

— Não vou.

Inna tirou do bolso do uniforme um pequeno gravador preto.

— Isto grava tudo.

Stiepan olhou-o durante muito tempo. Depois pegou nele lentamente.

A noite passou num sono inquieto. De madrugada, a fechadura rangeu.

— Mexe-te — rosnou o guarda. — O coronel chama-te.

O gabinete de Maiarov era revestido a madeira escura. O ar cheirava a perfume caro e poder. Ele estava recostado, brincando com uma caneta.

— Então, gostaste da “hospitalidade”? — sorriu.

— Há pessoas surpreendentemente honestas lá em baixo — respondeu Inna.

O sorriso desapareceu.

Atirou uma pasta para a mesa.

— És interessante. Investigámos-te. Mudaste de nome. Usaste o nome do teu padrasto.

Levantou-se.

— Ilia Saveliev… o teu pai. Porque vieste aqui? Fazer de detetive?

Inna ficou tensa.

— Procurar justiça.

Maiarov riu.

— Justiça? Aqui, a justiça sou eu.

Depois ficou sério.

— Assina a demissão e esquece este lugar.

— Chegaste tarde — disse Inna calmamente.

Colocou uma capa vazia do gravador sobre a mesa.

— A gravação já foi enviada.

No instante seguinte, ouviu-se um estrondo no portão. Veículos negros invadiram o recinto. Homens armados saíram.

Maiarov empalideceu.

A porta foi aberta com violência.

— Coronel Maiarov. Ministério do Interior. Está detido.

Um mês depois, a terra húmida do cemitério ainda estava fria.

Inna colocou dois cravos sobre a campa.

— Consegui, pai.

Passos atrás dela.

Stiepan estava ali. Já em liberdade. A investigação tinha revelado tudo.

— Era um bom homem — disse ele.

— E agora?

— Estou a trabalhar. A começar de novo.

Silêncio.

Depois Inna, baixinho:

— Eu também.

O vento passou pelas árvores. E, pela primeira vez em muito tempo… não doeu.

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