— Você ficou surda? Estou perguntando pela terceira vez: quando chega a transferência?
Denis estava no meio da cozinha apertada e abafada, os dedos batucando em ritmo nervoso sobre a bancada gasta. O som ecoava pelas paredes finas, e o móvel frágil vibrava levemente, como se também sentisse a tensão.
Nika estava diante da pia, esfregando com teimosa persistência uma mancha queimada no fogão. No ar misturavam-se cheiro de gordura velha, umidade e o cansaço de um apartamento antigo — o exaustor já não funcionava há anos e servia apenas de enfeite.
— Já respondi — disse Nika por fim, sem sequer olhar para ele.
Ela enxaguou a esponja e voltou a pressioná-la contra a superfície. — Não vai haver transferência. Esse dinheiro é meu. Herança da minha avó. E eu vou usá-lo para comprar um apartamento, como combinamos há um ano.
Denis soltou o ar com força, como se quisesse mostrar o quanto estava cansado de tudo aquilo. Deu um passo mais perto. Um perfume caro o envolvia — daquele tipo em que Nika gastou metade do salário no mês passado.
— Veronika, vamos parar com esse teu egoísmo provinciano, tá? — disse em tom baixo, mas cortante. — A esposa do Igor está no oitavo mês. Eles precisam de um apartamento maior agora.
Minha mãe encontrou um ótimo de dois quartos na região deles. Se não pagarmos o sinal agora, vão levar. Nós somos uma família. Hoje ajudamos, amanhã eles ajudam a gente.
— Amanhã? — Nika virou-se lentamente. A água com sabão pingava da esponja no linóleo desgastado. — Seu irmão não consegue ficar mais de dois meses em nenhum emprego há três anos.
Todo mês mandamos dinheiro para sua mãe — remédios e “descanso”. Quando é que chega esse “amanhã”, Denis? Há cinco anos dormimos num sofá desconfortável que nem é nosso.
O rosto do homem se cobriu de manchas vermelhas. Ele odiava ser confrontado com a realidade. Na cabeça dele, era um gênio subestimado, só ainda não reconhecido.
— Vai acontecer! — explodiu, batendo a porta do armário com tanta força que ela rangeu em protesto. — Eu disse que é questão de tempo! Agora o Igor é mais importante! Minha mãe sempre disse que você é egoísta. Nem um punhado de neve você daria no inverno!
Nika não respondeu. Não havia ofensa dentro dela. Nem raiva. Apenas um cansaço profundo e exaustivo. Lembrou-se da avó. De como ela contava o dinheiro com articulações doloridas, recusando-se até a comprar óculos novos.
“Cuide disso, Nikuška. Não gaste com bobagens. Isso é o seu começo. Para o seu próprio lar” — sussurrava ela.
E agora Denis queria pegar esse dinheiro… para que o irmão preguiçoso pudesse viver confortavelmente num novo apartamento.
Denis já estava no corredor, vestindo o casaco.
— Escuta — disse, ajeitando o cachecol diante do espelho.
— Vou para uma reunião. Minha mãe está chegando para o almoço. Prepare a mesa, peça desculpas e diga que vai dar o dinheiro! Faça uma comida decente. Compre um bom vinho tinto. E nada dessa cara azeda!
Ele se virou. O olhar era duro, quase cortante.
— Você vai dizer que ajuda o Igor. Não vou deixar você estragar minha relação com a minha família por causa da sua teimosia. Entendeu?
— Entendi — respondeu Nika com calma.
O homem sorriu satisfeito. Achou que tinha vencido. Que a discussão estava encerrada. Que Nika tinha cedido de novo.
A porta bateu com força atrás dele, e um fino pó branco de reboco caiu do teto.
Silêncio.
Apenas o velho refrigerador zumbia.
Nika jogou a esponja na pia. Cinco anos. Cinco anos tentando ser uma boa esposa e uma boa nora.
Cinco anos ouvindo os comentários irônicos de Antonina Pavlovna sobre como ela ainda não sabia passar camisas direito. Cinco anos financiando os “projetos promissores” de Denis.
Ela enxugou as mãos e pegou o telefone.
Encontrou rapidamente o número do proprietário.
— Matvei Sergeevich? Bom dia — disse com voz calma e profissional. — Estou ligando por um assunto urgente.
Do outro lado da linha, ouviu-se um suspiro cansado.
— Nika, se o Denis reclamar da pressão da água de novo, juro que eu mesmo fecho os canos. Está tudo normal aí.
— Não é isso. Um mês atrás o senhor disse que seu sobrinho estava procurando um lugar. E que gostaria que saíssemos antes…
A voz dele se animou.
— Isso mesmo! O rapaz está sofrendo num hostel. Mas seu marido ficou preso ao contrato.
— Então ele pode vir agora — disse Nika, aproximando-se da janela. Lá fora, a chuva ficava mais forte. — Imediatamente. Eu vou sair. Denis também. Pode ficar com o depósito.
Um momento de silêncio.
— Está falando sério? — perguntou, incrédulo. — E o seu marido?
— Ele vai entender. Diga ao rapaz para vir às doze e meia.
Nika desligou.
Primeiro passo.
Abriu o aplicativo de mudanças. Chamou um caminhão com ajudante. Depois pegou as caixas.
A arrumação foi surpreendentemente rápida.
O que era realmente dela: livros, uma cafeteira, alguns utensílios, roupas.
O resto? Televisão, videogame, poltrona — tudo “coisas em comum” de Denis.
O telefone apitou.
Mensagem da esposa de Igor:
“Oi, Niku! O Denis disse que você resolve o dinheiro hoje 😊 Encontrei um carrinho de bebê incrível! Transfere logo 100 mil, porque a promoção vai acabar! Obrigadaa 💕”
Nika apenas olhou.
Depois apagou.
Às onze e meia o ajudante chegou. O apartamento esvaziou-se em minutos. Sumiram as canecas coloridas, as mantas, os pequenos objetos pessoais.
Restaram apenas paredes vazias.
Às 12:15 tocaram a campainha.
Na porta estava um jovem com uma bolsa esportiva.
— Muito obrigado! — disse alegremente. — Já não aguentava mais o hostel.
Ele entrou e imediatamente se jogou no sofá. Nika saiu. Sentou-se no caminhão.
— Vamos esperar um pouco — disse.
12:50.
O carro de Denis entrou no pátio. Ele subiu com a mãe. Nika observava as janelas.
Lá em cima…
— Nika! Chegamos! — gritou Denis.
Depois, silêncio.
Um estranho estava sentado na sala comendo pizza. O proprietário estava ao lado, calmo.
— Sua esposa foi embora — disse.
A sacola caiu das mãos de Denis.
— O quê?!
— Vá você também.
O telefone de Nika tocou.
— VERONIKA! O QUE É ISSO?! — gritou Denis.
— Estou a caminho — disse Nika calmamente. — Para ver meu novo apartamento.
— E o Igor?!
— Ajudem-se entre vocês.
— Vou te processar!
— Herança não se divide.
Ela desligou. Bloqueou o número. A chuva parou. O ar ficou limpo.
— Podemos ir — disse.
A cidade parecia renovada. Nika abriu o aplicativo do banco. O dinheiro estava lá. Seguro. Ela sorriu. Finalmente… respirava livremente. E, pela primeira vez — de verdade — a vida dela estava começando.







