Cheguei em casa tarde da noite. Era sexta-feira, a cidade sufocava no trânsito, e meu único desejo era: cair de cara no travesseiro e não mover nem um músculo.
A chave girou na fechadura com o clique habitual, e a primeira coisa que vi no corredor foram duas enormes malas bordô gastas e um carrinho de compras xadrez, do qual pendia uma cebola.
Meu coração deu um enorme salto mortal. Medo selvagem e irracional se misturou com espanto. Roubo? Não, essas coisas eram pobres demais para um ladrão. Entrei na cozinha e ali recebi o verdadeiro choque.
Na minha poltrona favorita, ao lado da janela, pela qual lutei na justiça contra meu ex-marido, estava sentada **Galina Pavlovna**, minha sogra.
Ela olhava minhas novas cortinas com uma mistura de desprezo e curiosidade, enquanto tomava chá da minha própria xícara de porcelana.
— Oi, Galina Pavlovna — murmurei, sentindo meu rosto queimando. Talvez de raiva, talvez de constrangimento.
Ela se virou para mim. Seu rosto brilhava como se tivesse ganhado na loteria, mas ao mesmo tempo eu sentia que, com sua presença, ela me «fazia um favor».
— Oh, você chegou — puxou os lábios. — Onde esteve? Liguei, liguei! Sorte que a chave antiga ainda serve, Dima não trocou a fechadura.
Dima. Meu ex-marido. Que já não está comigo há seis meses, e sobre quem os boatos dizem que há três meses vive com a cabeleireira Lena em um pequeno apartamento na região Sudoeste da cidade.
— Galina Pavlovna, e onde está Dmitrij? Já ligou para ele? — tentei perguntar com cautela, ganhando tempo.
Uma tempestade rugia na minha cabeça. Eu queria chorar terrivelmente, mas me contive. Fui «a nora dele» por tempo demais para mostrar fraqueza diante dela.
— Liguei. Ele está vindo — ela acenou com a mão. — Venha, ajude com as coisas. Eu vou ficar aqui por mais tempo.
No meu próprio apartamento, em Podolsk, há reformas, e eu não consigo mais aguentar na casa dos meus vizinhos. Decidi ficar aqui. Boa vizinhança, perto do metrô. Vejo que você arrumou a bagunça, isso é correto.
Ao dizer isso, ela olhou para mim com leve desprezo, como alguém que não foi atendido a tempo.
— Galina Pavlovna — tentei falar devagar e claramente — a qual filho seu você veio visitar?
Ela tossiu enquanto tomava chá, e então de repente arregalou os olhos.
— Você está bem? — gritou. — Claro que é para o Dima. Pare com esse joguinho! Sei que você sempre me foi antipática, mas agora não é hora de medir forças. Minha pressão varia, preciso de calma.
— Galina Pavlovna — suspirei, encostando-me na parede, porque minhas pernas de repente ficaram fracas — nós nos divorciamos há seis meses.
A xícara em sua mão congelou. Seus olhos se estreitaram. Então ela colocou a xícara, que tremeu e tilintou no pires.
— Pare com essa palhaçada — disse com frieza glacial. — Isso é um truque idiota. Sou a mãe dele, sei que tudo está bem entre vocês.
— Isso não é truque — acenei para as malas. — Pode ligar para o Dima à vontade. Ele já está com a Lena. Este imóvel, Galina Pavlovna, é meu.
Minha mãe me deu antes do casamento. Dima só morou aqui até começar a beber e destruir o carro. Não aguentei mais, por isso iniciei o divórcio.
O rosto dela primeiro empalideceu, depois lentamente ficou da cor de beterraba. Eu sabia o que viria: primeiro choque, depois negação, finalmente raiva.
— Você está mentindo! — sibilou, levantando-se.
Ela segurou o coração. Normalmente, eu teria corrido para buscar um calmante. Mas não agora.
— Podemos chamar uma ambulância, se precisar — disse calmamente. — Mas não vou arrumar sua cama. E tome seu chá.
— Seu monstro ingrato! — gritou. — Eu te introduzi na sociedade! Dei emprego a você através dos meus contatos! Eu…
— Eu era entregadora por 15 mil por mês, quando ainda era estudante — interrompi. — E em troca lavava sua roupa íntima e limpava a garganta do Dima depois de cada bebedeira. Estamos quites.
Nesse momento, tocaram a campainha. Dima apareceu na soleira. Vestia calças esportivas apertadas, com um hematoma abaixo do olho. Viu a mãe e depois a mim, e seu rosto se contorceu.
— Mãe? — perguntou com voz rouca. — Por que você está aqui?
— Filho! — gritou Galina Pavlovna, pulando em seu pescoço. — Diz que vocês se divorciaram! Diz que você está com alguma Lena! Não é verdade, né? Diga que ele mente!
Dima olhou para mim, depois de volta para a mãe. Para ser sincera, senti um pouco de pena dele. Parecia um filhote desobediente.
— Mãe, sim, nos divorciamos — murmurou. — E você vai aonde com as coisas? Eu disse que não posso ficar aí por enquanto.
— Onde você está morando então?! — gritou, agarrando-se ao casaco dele.
— Agora estou na casa de um amigo — suspirou Dima. — A mãe da Lena também se mudou para cá, me expulsaram. Achei que poderia ir para você, mas está reformando. Não tenho lugar para morar.
A tensão pairava no ar. Galina Pawlovna lentamente virou a cabeça para mim. Seu rosto se contorceu de nojo e ódio.
— Tudo isso é culpa sua — sibilou. — Você expulsou seu filho do apartamento. Agora ele está sem-teto, e você está aqui no seu palácio.
— Sim, estou aqui — acenei. — No meu próprio palácio. Que conquistei sozinha. E não vou compartilhar com ninguém.
Dima suspirou, pegou uma mala e puxou a mãe em direção à porta.
— Vamos, mãe. Não se envergonhe.
Ela se debateu, olhando para mim. Li em seus olhos tudo: “vou te destruir” e “socorro, não tenho para onde ir”. Quase senti pena. Quase.
Quando a porta se fechou atrás deles, encostei-me na parede e desabei no chão.
O silêncio quase me estourou os ouvidos. Por meio ano arrumei este apartamento, troquei cortinas, joguei fora meias debaixo do sofá. Achava que tinha me livrado de todos os “parentes”.
Eu estava enganada. Pessoas como Galina Pawłowna sempre voltam, como a cana do pântano, no pior momento. Mas hoje à noite eu venci esta batalha. Amanhã… amanhã chamarei o chaveiro e trocarei as fechaduras.
Na mesa da cozinha ficou sua xícara com chá meio tomado. Joguei na pia e depois no lixo. Até o último fio que me prendia à minha vida antiga.
Aquela vida em que eu sempre fui complacente, paciente e desempenhei o papel de nora. Agora mora aqui outra mulher. Alguém que não abre a porta para malas.







