— Procure-me uma gravata! Azul escura, com pequenos pontos! E traga meu relógio da mesa!
— A voz irritadiça de Vadim atravessou o amplo closet, abafando o chiado das panquecas ou, melhor dizendo, dos bolinhos de queijo na frigideira quente.
Daria estremeceu com o som repentino. A espátula de madeira bateu na borda da frigideira de teflon.
A cozinha se encheu com o aroma rico e doce da manteiga quente e da baunilha, ainda assim o apetite desapareceu subitamente. Ela rapidamente enxugou as mãos no pano de prato e correu para o corredor.
O doze anos Ilja estava sentado na ilha da cozinha, com os olhos fixos na tela do celular. Surpreendentemente, ele se parecia com o pai: os mesmos fios escuros e bagunçados, a mesma expressão teimosa e ligeiramente arrogante.
O cinco anos Jegor brincava no tapete com uma caçamba de plástico, imitando barulhos de motor.
— Bom dia, meninos — disse Daria baixinho, colocando no prato do filho mais velho os bolinhos de queijo quentes e dourados. Jegor imediatamente parou de brincar, correu até a mesa e enfiou os dedos no creme azedo.
Na porta da cozinha apareceu Vadim. Um forte cheiro sufocante de perfume emanava dele, que para Daria sempre parecia pesado demais. Camisa impecavelmente passada, terno italiano caro — externamente parecia um homem que segurava a vida com mão de ferro.
— Olá — disse, sem olhar para as crianças, e pegou água mineral na geladeira.
Um frio desconfortável e opressor percorreu o corpo de Daria. O café de ontem de repente pareceu amargo.
— Hoje você vai trabalhar no escritório? — perguntou timidamente, observando o marido beber a água do frasco com avidez.
— Em viagem de negócios — respondeu Vadim, jogando a garrafa vazia no lixo com estrondo. — Três, talvez quatro dias. Negociações muito importantes com investidores asiáticos. Vamos construir um enorme centro logístico.
Daria olhou para ele preocupada.
— Mas você prometeu que no fim de semana levaríamos os meninos para fora da cidade. Ilja já conferiu o equipamento de pesca ontem à noite, estava tudo pronto.
Vadim franziu a testa, ajustando os apertados punhos de prata.
— Daria, que pescaria? Estamos falando de negócios milionários. Ilja já é uma grande menina, vai se arranjar sozinha. Leve o menor para minha mãe, que respire ar fresco. Não transforme seus filhos em flores de estufa, homens precisam crescer.
Tentava falar de forma condescendente, como se instruísse um estagiário inexperiente.
Daria engoliu o nó pesado na garganta. No passado, quando Vadim ainda estava construindo sua empresa logística, eles passavam noites inteiras juntos trabalhando no orçamento.
Daria, mestre em estudos orientais, fluente em chinês e inglês, traduzia todas as negociações de graça. Pelo futuro comum. Agora Vadim era um homem importante e influente, e ela apenas uma professora doméstica, que não se encaixava em seu mundo brilhante.
— E quem vai traduzir na reunião? — perguntou baixinho, brincando com a borda do avental. — O Sr. Chen fala de forma muito específica, seus termos técnicos são difíceis de entender.
Talvez eu pudesse ir com você… A avó cuidaria das crianças por alguns dias…
Vadim silvou, baixando o olhar para ela.
— E quanto às suas anotações! Contratei um especialista. Profissional, moderno. Fique em casa, cozinhe, cuide de seus alunos.
Novamente deu um beijo seco e mecânico em sua bochecha, pegou a pesada pasta de couro e saiu. A porta bateu com estrondo.
Daria ficou no meio da cozinha, ouvindo o zumbido monótono da geladeira. Um peso de chumbo se formava no peito. Ficou completamente claro para ela: o marido a envergonha. Ele tem vergonha de seus suéteres gastos, de seus dedos sem esmalte, de seu olhar cansado.
Ao mesmo tempo, Vadim esfregava as mãos nervosamente no saguão envidraçado do centro empresarial. Em suas janelas espelhadas, seu rosto aparentemente perfeito tremia devido à tensão interna.
Ao lado dele estava Snezsana de salto alto, pernas longas, lábios carnudos, que apareceu em sua empresa três meses atrás. Vadim havia perdido completamente a cabeça.
Rapidamente a promoveu a assistente pessoal, alugou um apartamento no centro e a cobriu de presentes. Hoje era o ápice: a possibilidade de tradução perfeita.
— Não trema, Vadik — murmurou Snezsana, ajustando delicadamente a pulseira de ouro. — Tudo será traduzido perfeitamente. Eles ficarão encantados com nossas condições.
Na sala de conferências estava frio por causa dos enormes aparelhos de ar condicionado. À mesa de madeira escura e maciça, estavam os investidores estrangeiros. O Sr. Chen acenou brevemente com a cabeça, a conversa começou.
Vadim falava com confiança e firmeza sobre a divisão das ações do centro logístico. Snezsana anotava. No terceiro minuto, percebeu que as sobrancelhas do Sr. Chen lentamente subiam.
O investidor fez uma pergunta rápida e incisiva, batendo a caneta na mesa.
Snezsana piscava, suor escorrendo pela testa perfeitamente maquiada.
— Ele… diz que as condições são muito vermelhas… quero dizer, quentes? E quer esclarecer as rotas aquáticas… — gaguejou nervosamente.
— Que condições quentes, Snezsana?! Trata-se de fluxos financeiros e corredores logísticos! — rosnou Vadim, enquanto suor frio e pegajoso escorria pelas suas costas.
A partir daí, tudo desmoronou. Os estrangeiros sussurravam entre si, sorriam,
Snezsana ficava vermelha, misturava as palavras, gaguejava. Vadim, para evitar perder a face, reagia com confiança crua, assinou o memorando sem ler cuidadosamente.
— Excelente. O contrato detalhado será enviado por e-mail esta noite. Amanhã de manhã, assinatura — disse o assistente, guardando rapidamente o documento em inglês.
Naquela noite, o telefone de Daria não parava de tocar. Ela descascava batatas para o jantar, o leve aroma terroso preenchia a cozinha. No visor apareceu o nome: “Žanna Vlasova (madrasta de Dénes)”.
— Alô, Žanna Eduardovna… — começou Daria, mas foi interrompida por um grito imediato.
— Você enlouqueceu?! Por que pagamos para você por meses?!
— O que aconteceu? Dénes não passou no teste? — perguntou Daria, secando as mãos molhadas no avental.
— Você estragou tudo! Pelos resultados dele, ele nem entraria no departamento comercial! Você é uma professora completamente incompetente! Contávamos com uma universidade de elite, e agora ele só terá um trabalho auxiliar! Cada centavo terá que devolver!
O curto sinal quase a deixou surda. Daria sentou-se lentamente. Suas mãos tremiam. Ela havia ensinado Dénes por seis meses, o menino aprendia rápido, ainda assim falhou.
Mas não havia tempo para tristeza. Era necessário levar o filho para a avó.
O ônibus avançava lentamente no trânsito. O cheiro úmido preenchia a cabine. Jegor estava mal-humorado, apoiando os ombros em Daria. Zinaida Arkadjevna os esperava no apartamento cheio de móveis antigos, lábios firmemente apertados.
— Finalmente! Pensei que viriam a pé da outra ponta da cidade — estourou, ajudando o menino a vestir o casaco. — Daria, por que está tão pálida e magra? Não está dando comida decente a ele?
— Eles comem normalmente, Jegor só está cansado do ônibus — respondeu Daria exausta.
— Normalmente?! Vadim trabalha dias e noites para que vocês fiquem em restaurantes, e o pai não dá um pedaço de carne decente às crianças! Nenhuma disciplina, nenhum respeito!
Algo se rompeu em Daria. Os anos de tensão se cortaram pela realidade. Ela se levantou, olhando nos olhos da sogra.
— Por favor, Zinaida Arkadjevna. Amo meus filhos e os educo com dignidade.
O seu filho, nos últimos seis meses, nem sabia em que série o irmão estava, nem como se chamava a babá. Se nossa presença atrapalha — não voltaremos mais. Jegor, coloque o casaco.
— Como ousa falar alto comigo! — gritou a avó, mas Daria já estava fechando o zíper do pequeno.
Lá fora, o ar frio de inverno cortou os pulmões, limpando os pensamentos. O telefone de Daria continuava a vibrar. Vadim.
— Daria! Preciso da sua ajuda imediatamente! — sua voz entrou em pânico. — A tradutora confundiu um pouco os termos técnicos na reunião de hoje… Agora vou te enviar uma cópia do contrato. Pode revisar? Preciso ter certeza de que não há armadilhas escondidas.
Daria parou na beira do parque iluminado, sentou Jegor no banco e abriu o laptop no colo. Compartilhou a internet do celular. O arquivo carregou rapidamente. Ela leu linha por linha. Terminologia jurídica especializada, pequenas notas de rodapé.
Seus olhos se arregalaram. Imediatamente ligou para o marido.
— Vadim… você assinou o memorando de hoje? — disse firmemente.
— Sim, o documento padrão, para não perder a oportunidade. E o contrato principal? — respondeu ele nervosamente.
— Esse “papel padrão” incluía uma cláusula enorme de multas caso você rescinda. No contrato principal, porém, está que você deve ceder 51% das ações do centro logístico ao Sr. Chen.
Se você assinar amanhã — entrega todo o negócio. Se não — a cláusula de multa entra em vigor, falência. E tudo por erro da tradutora!
Do outro lado da linha, só se ouvia respiração.
— Deus… — sussurrou Vadim.
Então ouviu-se uma voz feminina baixa e sedutora, dizendo para jogar os papéis fora e ir até ela no jacuzzi… Vadim agiu abertamente, traiu a esposa, tudo com uma caneta.
Daria parou. Não havia histeria, apenas clareza cristalina e cansaço, percebendo o quão previsível era seu marido.
Enquanto a neve rangia sob os pés, Daria segurava firmemente a mão de Jegor.
— Daria, boa noite! — ouviu-se uma voz rouca.
Sob uma lâmpada amarela, Pavel Ilij, o zelador local, estava de pé, colete laranja sobre um casaco velho. Segurava uma caixa de papelão.
— Ajude, filha. O gato entrou na adega, mas o dono deste filhote não voltou. Alguém o jogou fora. Não há espaço no meu apartamento. Pode levar para alegria dos meninos? Ele será inteligente, vejo pelos olhos.
Daria olhou para a caixa. Um pequeno cachorro de pelo negro e brilhante estava deitado no tapete antigo. Olhou para ela com olhos úmidos e inteligentes. Um choro suave e doloroso se ouvia. Daria cuidadosamente o envolveu sob o casaco.
— Eu o levarei, Pavel Ilij. Obrigada. Vamos chamá-lo de Charlie.
Os três dias seguintes foram um pesadelo para Vadim. Advogados, negociações,
O Sr. Chen educadamente, mas firmemente, afirmou: o documento está impecável, a assinatura é de Vadim. Para evitar multas, ele teve que ceder o pacote controlador de ações. Snezsana deixou o hotel, bloqueando o homem.
Daria, por sua vez, embalava suas caixas incansavelmente. Alugou um pequeno apartamento claro em uma parte silenciosa da cidade. Sem brigas, sem choro, apenas a própria vida, as crianças e Charlie.
Numa quinta-feira à noite, organizando livros nas prateleiras, ouviram batidas na porta. Ela abriu tensa.
Um homem alto, ombros largos, de casaco cinza de inverno, estava na soleira. Um leve cheiro gelado emanava dele. Seu rosto tinha traços fortes, ainda assim embaraçado.
— Daria Mikhajlovna? Olá. Sou Konstatin Vlasov. Pai de Dénes — voz profunda, calma.
Daria recuou um passo. Era suficiente para lidar com todas as confusões parentais.
— Entre, Konstatin… não conheço seu patronímico.
— Apenas Konstatin — entrou. Charlie imediatamente rosnou, depois olhou para as botas do visitante. Konstatin se abaixou, coçou o cachorro, que imediatamente parou de rosnar e abanou o rabo.
Konstatin se ergueu, olhando Daria nos olhos.
— Vim pessoalmente pedir desculpas pelo comportamento da minha esposa, Žanna — suspirou. — Entende, minha esposa sempre viu Dénes sob o ponto de vista do conforto.
Quando o menino não se saiu bem, descobriu-se que ela escondia intencionalmente as anotações, desligava o wifi, criava crises constantes para que a criança não pudesse se concentrar. Já o enviei para uma escola militar em outra cidade.
Daria apoiou-se na bancada, punhos cerrados.
— Que maldade… — sussurrou. — E Dénes se esforçava tanto!
— Sim. Já expulsei Žanna e iniciei o processo de divórcio — disse Konstatin com firmeza, depois mais baixinho.
— Daria Mikhajlovna, Dénes falava de você com admiração. Gostaria que continuasse a ensiná-lo. Planejamos um curso intensivo de um ano. Pagarei o dobro. Aceita?
Daria olhou para as caixas espalhadas, depois para Konstatin. Seu olhar transmitia respeito puro.
— Está bem, Konstatin. Mas apenas segundo minha própria tarifa.
Um ano e meio depois, Daria estava sentada na varanda da ampla casa no campo, enrolada em um cobertor quente. Muitas coisas mudaram. Dénes conseguiu ingressar em Relações Internacionais.
Ilja e Jegor rapidamente se apegaram a Konstatin, que ensinou o mais velho a consertar bicicletas e o menor a construir castelos de neve. Vadim perdeu influência, sua mãe criticava constantemente.
A noite de inverno caiu. A lareira estalava, o cheiro de pinho e fatias de tangerina preenchia o ambiente. Konstatin entrou na varanda com duas xícaras de chá, sentou-se, colocando suas mãos sobre as de Daria.
— Daria, sei que você está acostumada a fazer tudo sozinha — sua voz era calma, mas firme. — Mas não quero que você lute sozinha. Quer se casar comigo?
Daria olhou para o pequeno anel sobre a mesa, depois para Konstatin. Pela primeira vez sentiu-se realmente valorizada, compreendida e protegida. Sorriu feliz, assentindo.







