Victor colocou cuidadosamente a xícara no pires, tomando cuidado para que a porcelana não tilintasse. Um som mínimo poderia abalar o frágil equilíbrio que se formara na cozinha com a chegada de sua mãe.
Galina Stepanovna estava sentada do outro lado da mesa, acariciando sobre a toalha os vincos inexistentes. Seu olhar vagueava pelas paredes, avaliando a frescura do papel de parede e o valor dos móveis.
Raramente visitava o filho mais velho, e cada vez parecia como uma auditoria fiscal: em vez de documentos, agora se avaliava a obediência de seu filho.
— Artyom mudou completamente — começou de longe, sem tocar nas guloseimas. — Nosso apartamento de dois quartos é pequeno para ele, Vitya. Ele é jovem, precisa de espaço, de privacidade.
Victor acenou com a cabeça, mantendo uma expressão tranquila. Ele estava acostumado. Desde a infância, fora saco de pancadas e para-raios para as ambições e irritabilidade da mãe.
— Agora os apartamentos estão caros, mãe — observou calmamente. — Artyom está trabalhando?
Galina Stepanovna apertou os lábios, como se tivesse engolido uma casca de limão.
— Ele trabalha, está se encontrando. Lá não o valorizam, aqui pagam pouco. Ele é uma alma criativa, para ele é mais difícil. Você é pragmático, para você é mais fácil. O filho tem uma alma delicada. Ele precisa de um ponto de partida.
Svetlana, sentada ao lado de Victor, apenas suspirou levemente, permanecendo em silêncio.
Ela sabia que qualquer palavra sua seria interpretada como guerra. Galina Stepanovna conscientemente ignorava a nora, vendo-a como um obstáculo irritante no caminho do patrimônio destinado a seu filho.
— E que tipo de ponto de partida você imagina? — perguntou Victor cautelosamente, já suspeitando para onde a conversa se dirigia. A esperança de que a mãe tivesse vindo apenas por curiosidade rapidamente derretia, como açúcar em água quente.
— Financiamento de apartamento — disse a mãe com firmeza. — Encontramos uma ótima opção. Construção nova, andar alto, janelas panorâmicas. A entrada inicial está comigo. Só é preciso cuidar do financiamento.
Victor suspirou aliviado.
— Se há a entrada inicial, ótimo. Que Artyom entregue os papéis. Hoje em dia existem muitos programas para jovens.
Galina Stepanovna olhou para ele como se visse uma criança burra que não fez a lição de casa.
— Vitya, você não me ouve? Artyom não vai conseguir. Não tem o comprovante 2-NDFL, ainda é freelancer. Você precisa cuidar disso.
O ar na cozinha tornou-se sufocante, como se uma enorme bomba tivesse sugado todo o oxigênio. Victor sentiu a amargura familiar crescer dentro de si — o gosto de ressentimentos e decepções reprimidas.
Ele esperava que esta fase já tivesse acabado, que sua família tivesse aceitado: ele era uma unidade independente, não um complemento de Artyom.
— Não — disse firmemente. — Não vou assumir um financiamento em meu nome para Artyom. Nós, Svetlana e eu, temos nossos próprios planos. Queremos crescer também.
Os olhos da mãe se estreitaram. A máscara de mãe cuidadosa caiu, revelando o rosto predador da mulher acostumada a obter o que queria, não importando o quê.
— Planos! — bufou, virando-se para Svetlana como se buscasse apoio, mas imediatamente rejeitou.
— Sua mãe sacrificou suas últimas forças para criar você. Não dormiu noites, abandonou a universidade por causa das suas doenças. E agora “planos”? Egoísta! Você se parece totalmente com a avó.
A menção da avó atingiu seu coração. A tia, irmã da mãe, recentemente falara sobre a casa da avó.
A velha e sólida casa camponesa nos subúrbios, onde Victor passou os anos mais felizes de sua infância, fora colocada à venda um mês atrás.
— De onde vem o dinheiro para a entrada inicial, mãe? — perguntou Victor baixinho, olhando nos olhos da mãe.
Galina Stepanovna deu de ombros, ajeitando o cabelo.
— O que isso tem a ver? Juntei.
— Tia Nadya disse que você vendeu a casa. A casa da avó.
A mãe não se perturbou nem um pouco. Pelo contrário, seus olhos mostravam uma determinação enfurecida.
— Eu vendi! E eu tinha direito. Sou a única herdeira. Artyom precisa de um apartamento. Você já se acomodou, encontrou um apartamento, trabalha. Não será demais para você?
Victor fechou os punhos na beira da mesa. A raiva, densa e quente, começou a ferver em seu peito.
A avó sempre dizia que a casa seria dividida entre os netos meio a meio. Mas o testamento “desapareceu acidentalmente”, ou talvez nunca tenha existido — agora não se podia mais ter certeza.
— Então a herança da avó é de Artyom. Meu histórico de crédito e trinta anos de dívidas permanecem comigo. E ele vai morar no apartamento. Ótimo plano — sua voz ficou firme.
— É apenas uma formalidade! — elevou a voz Galina Stepanovna. — Eu pago. Ou Artyom, quando se firmar. Apenas assine. Alguma vez te enganei? Somos família biológica!
— Você me enganou a vida inteira, dizendo que nos amava igualmente — respondeu Victor.
Galina Stepanovna levantou-se e derrubou a colher no chão.
— Ingrato! Garoto! Venho com boas intenções e você conta moedas! Amanhã espero uma resposta. E além disso, te amaldiçoo! Vou falar com seu pai para que não te deixe entrar!
Saiu da cozinha, batendo a porta.
Victor ficou imóvel, olhando para o chá esfriar. A raiva lentamente se transformou em uma calma fria e calculista. Este era o ponto sem retorno. Nenhum outro compromisso seria feito.
Svetlana se aproximou, colocou a mão em seu ombro e começou a massagear o pescoço tenso.
— Ela não vai te deixar em paz, Vitya. Vai ligar para seu pai, te atormentar, aparecer no trabalho. Nos esgota.
— Eu sei — respondeu Victor baixinho. — Mas não vou assumir o fardo por Artyom. Chega.
— E se você concordasse? — sussurrou a esposa.
Victor se virou abruptamente, sacudindo a mão.
— Sério? Svetlana, você ouviu o que ela disse?
— Ouvi — olhou para ele calmamente, nos olhos dela não havia medo, apenas uma estranha centelha.
— Ela quer que o apartamento fique no seu nome. Você será o proprietário legal. A entrada inicial vem do dinheiro da venda da casa da avó.
Victor ficou paralisado. Olhava para a esposa, e suas palavras lentamente e pesadamente atravessavam sua mente.
— Você está sugerindo…
— Sugiro restaurar a justiça — sentou-se Svetlana à mesa.
— Ela paga, você cuida do financiamento, o apartamento será seu. Artyom não vai morar lá. Ou alugamos para pagar as parcelas, ou vendemos imediatamente, quitando a dívida, e o restante é seu da herança da avó.
Victor esfregou as têmporas. A ideia parecia louca, ousada, impossível para seu antigo “eu” — aquele menino quieto que sempre cedera.
— Você o solta para o mundo — sussurrou.
— Ele já está — disse Svetlana com firmeza. — Só que agora você faz de graça, então pelo menos recebe compensação. Não rouba, apenas recupera o que é seu. A “entrada inicial”, que ele devia a você após vinte anos de humilhação.
Victor levantou-se e foi até a janela. Lá embaixo, a cidade pulsava, pessoas apressadas, inconscientes de que em um apartamento o destino de um homem quebrado estava se decidindo.
Lembrou-se da mão da avó, cheirando a maçãs secas. Lembrou-se de quando a mãe lhe tirou dinheiro para comprar um novo videogame para Artyom.
— Tudo bem — disse Victor, sem se virar. Sua voz era profunda e abafada. — Ligue. Diga que concordo. Mas o dinheiro deve ser transferido hoje para minha conta. Eu pago.
O processo correu surpreendentemente bem. O banco, vendo o histórico de crédito perfeito de Victor e a entrada significativa, aprovou a solicitação em dois dias. Galina Stepanovna estava radiante.
No escritório do incorporador, ela andava como uma dama altiva, dando ordens ao gerente, como se estivesse comprando um andar inteiro. Victor assinava silenciosamente as páginas. Cada assinatura cortava um pedaço do passado dependente de sua vida.
Artyom nem apareceu. — “Ocupado, projeto urgente” — deu de ombros a mãe, quando Victor perguntou pelo irmão. Claro, qual projeto. Dormia até a tarde.
Um mês depois, o apartamento estava pronto. As chaves estavam no bolso de Victor, pesando agradavelmente contra o tecido.
Foi organizada uma reunião familiar na casa dos pais. Galina Stepanovna preparou a mesa: saladas, prato principal, até uma garrafa de conhaque caro. Artyom estava na cabeceira, já pensando em qual sofá colocaria na sala.
O pai comia silenciosamente, tentando evitar contato visual com Victor.
— Pois bem! — declarou solenemente a mãe, estendendo a mão. — Venha, filho. Precisamos alegrar o irmão.
Victor levantou-se lentamente. Svetlana o seguiu, ombro a ombro. Ela era o escudo e a espada.
— As chaves, mãe? — perguntou novamente Victor, fingindo não entender.
— Não demore! Artyom precisa arrumar as coisas! — torceu os dedos impacientemente Galina Stepanovna.
— Artyom não vai se mudar — disse Victor de forma clara e firme. O silêncio caiu na sala.
— O quê? — Artyom parou de mastigar.
— O apartamento está em meu nome. O financiamento também. Eu sou o proprietário — disse Victor em voz alta, sua força vocal aumentando. — Hoje de manhã troquei as fechaduras. Eu vou morar lá ou vendê-lo. É assunto meu.
— Você enlouqueceu? — chiou a mãe, o rosto vermelho de manchas. — Meu dinheiro! Minha entrada inicial!
— O seu é o dinheiro da venda da casa da avó — gritou Victor, interrompendo o começo do berro. Não recuou, mas se ergueu acima da mesa. — A avó queria dividir de forma justa.
— Ladrão! — gritou Galina Stepanovna, levantando-se da cadeira. — Devolva as chaves! Vou denunciá-lo! Vou prendê-lo!
— Vá! — rugiu Victor, e seu grito fez a mãe recuar.
Ele bateu a mesa, os pratos tremeram. — Vá à polícia! Mostre os documentos! Em todos os lugares está o meu nome! Você mesma transferiu o dinheiro “como presente para seu filho”! Perguntei a um advogado! Não vai provar nada!
Artyom saltou, punhos cerrados, tentando simular ameaça.
— O que pensa, que vai me enganar?
Victor de repente se virou para Artyom. Era maior, mais forte e, o mais importante, mais irado. Agarrando Artyom pelo peito, empurrou-o de volta para a cadeira. A cadeira gemeu.
— Sente-se! — rugiu Victor. — Parasita, nem um dedo você mexeu! Quer apartamento? Procure! Chega de esgotar todos!
— Pai! — gritou Galina Stepanovna. — Diga a ele! Está sequestrando sua mãe!
O pai lentamente ergueu o olhar. Olhou para a esposa vermelha e enfurecida, para o filho assustado e inerte, e depois para Victor, que pela primeira vez se sentiu realmente homem, defendendo a família.
— Vitya está certo — disse o pai baixinho. — A casa era da mãe. Ela queria dividir. Você não permitiu.
— E você?! Traidor! — arfou Galina Stepanovna de indignação.
Victor e Svetlana saíram sem se despedir. Atrás deles voavam insultos, ameaças e promessas de vingança divina. Victor não sentiu medo. Apenas leveza.
O apartamento foi vendido dois meses depois. Rapidamente, com pequena concessão, para não prolongar o caso.
O financiamento foi quitado antecipadamente. O valor restante — a “entrada inicial da avó” — foi usado em uma casa em outra região, a três horas de voo daqui. Perto dos pais de Svetlana, longe do passado tóxico.
Galina Stepanovna tentou processar, mas os advogados apenas deram de ombros: transferência voluntária de dinheiro, propriedade legalmente registrada. Nenhuma chance.
O pai, seis meses depois, deixou a família. Silenciosamente, arrumou a mala e se mudou para a casa do irmão. Todo o patrimônio foi deixado à esposa
apenas para não ouvir seus gritos.
E o golpe final veio do lugar mais inesperado.
Artyom, privado do sonho do apartamento conquistado facilmente, tornou-se amargurado.
Culpava a mãe por “não pressionar” Victor, por ele ser “covarde” e “fracassado”. As discussões no apartamento tornaram-se rotina. Artyom exigia compensação da mãe, pedia a venda ou troca do único apartamento.
Certa noite, o telefone de Victor tocou. Número desconhecido.
— Alô? — Victor estava na varanda, olhando o pôr do sol.
— Vitya… — a voz da mãe estava quebrada, trêmula, estranha. — Vitya, despejaram. Ela pegou o financiamento, os cobradores ligam, me forçam a assinar a minha parte… Vitya, ajude. Somos família.
Victor olhou para Svetlana, que regava as flores no jardim. Sua barriga arredondada. Seu novo e tranquilo mundo.
— Não tenho família naquele endereço de onde você ligou — disse firmemente. — Só o irmão parasita e a mulher que me criou. Se virem sozinhos.
Pressionou o botão “bloquear” e cortou o número. O sol se pôs, banhando o horizonte em luz dourada. As sombras desapareceram. Só a luz permaneceu.







