Emma desceu apenas para uma rápida volta noturna até o lixo, ainda de pijama, com um cardigã jogado sobre os ombros, como tantas outras vezes.
O sol já tinha se escondido atrás dos prédios, e no pátio as lâmpadas de luz amarelada projetavam sombras incertas.
Nas rachaduras do concreto acumulava-se a umidade da geada que derretera durante o dia, e no ar pairava o cheiro característico, levemente ácido, das folhas de outono e do papelão molhado.
Não havia nada de especial naquela noite. Era como as outras: silenciosa, um pouco cansada, insignificante.
Ao chegar aos contêineres, percebeu de longe que alguém tinha deixado objetos volumosos ali. Ao lado da lixeira de metal, uma poltrona antiga estava inclinada, como se tivesse apenas parado para descansar após um longo serviço.
Um dos braços estava quebrado, o estofamento gasto em vários pontos; o tecido talvez tivesse sido verde-escuro um dia, agora variava em um tom acinzentado e amarronzado. Ao lado, alguns sacos jaziam cheios de roupas e papéis.
Nesse momento, uma pequena caminhonete entrou no pátio. O som do motor quebrou o silêncio. Emma instintivamente deu um passo para o lado. Dois jovens saltaram da carroceria.
Com movimentos rápidos, quase apressados, descarregaram outra poltrona em estado ainda pior e a jogaram ao lado das lixeiras. Não falaram, não olharam ao redor. Como se estivessem apenas se livrando de um peso.
No instante seguinte, já estavam de volta à cabine e foram embora.
A cena foi estranhamente apressada. Emma observou as lanternas traseiras se afastando por alguns segundos, depois voltou o olhar para a poltrona. Agora que se aproximava, podia examiná-la melhor.
O estofamento estava rasgado, mas ao longo das costuras era possível ver que fora feito de material grosso e de qualidade.
Os pés eram de madeira maciça, não daquele material prensado que está na moda hoje em dia. Gastos, mas não fracos. A curva do encosto era elegante, o assento bem proporcionado.
– Seria uma pena por ela – murmurou para si mesma.
Nos últimos meses, precisaram vigiar cada centavo. A reforma do apartamento ficara pela metade, o sofá antigo rangia, a sala parecia vazia. E o preço de uma poltrona nova estava muito além do que podiam pagar naquele momento.
Emma olhou ao redor. O pátio estava vazio. A maioria das janelas estava escura.
Por um instante hesitou – seria falta de educação levar algo que outra pessoa havia jogado fora? Mas então pensou: o que vai para o lado do lixo já não pertence a ninguém.
Segurou o braço da poltrona. Era mais pesada do que imaginara. O tecido absorvera umidade, a madeira estava fria sob seus dedos. Cerrando os dentes, começou a arrastá-la em direção à escada. Quando chegou à porta de entrada, já estava ofegante.
Cada degrau parecia um desafio à parte. Precisou parar duas vezes para recuperar o fôlego.
Quando finalmente a empurrou para dentro do apartamento, Daniel saiu da cozinha com uma caneca na mão.
– Você só pode estar brincando – disse, incrédulo.
Emma apoiou a poltrona na porta e afastou o cabelo do rosto.
– Olha direito – disse. – A estrutura é sólida. Se a reformarmos, vai ficar perfeita.
Daniel colocou a caneca de lado, aproximou-se e pressionou o assento.
– Bem… na verdade não é ruim – admitiu com relutância. – Mas espero que você não tenha trazido junto alguma colônia também.
– Se trouxe, você é quem vai exterminá-la – sorriu Emma.
Ele suspirou, mas já se via em seu rosto aquela curiosidade que não conseguia reprimir por muito tempo. Gostava de consertar, de mexer em coisas. Da possibilidade de transformar algo velho em algo novo.
Levaram a poltrona para a sala. O cômodo era simples, um pouco gasto, mas limpo. Afastaram a mesa e enrolaram o tapete. Daniel pegou sua caixa de ferramentas, na qual cada peça tinha seu lugar.
– Vamos começar pelo encosto – disse, enquanto colocava as luvas.
Enquanto isso, Emma preparou a máquina de costura. Havia muito tempo planejava fazer novas capas para os móveis antigos, mas nunca encontrava tempo. Agora sentia um formigamento de entusiasmo. Uma sensação de novo começo.
Daniel começou a remover os grampos com uma chave de fenda e um alicate. O metal rangeu ao ceder. O tecido antigo soltou-se da estrutura com um som seco.
– Quem fez isso não economizou nos grampos – observou. – Mas trabalhou de qualquer jeito.
Por fim, o estofamento do encosto saiu. Por baixo apareceu um enchimento empoeirado e amarelado. Nada fora do comum. Daniel voltou-se para o assento. Ali foi mais difícil desmontar. O tecido cobria em várias camadas.
Quando levantou a última camada, de repente parou. Sua mão ficou suspensa no ar.
– Emma… vem aqui.
Sua voz havia mudado. Não havia brincadeira nela. Emma se aproximou.
Daniel afastou o enchimento com dois dedos. Algo mais escuro aparecia no fundo. Com cuidado, enfiou a mão e puxou um pacote bem enrolado.
Estava embrulhado em papel pardo, preso com fita adesiva.
– O que é isso? – sussurrou Emma.
Daniel arrancou a fita. O papel se abriu.
Dentro havia notas de cem dólares alinhadas em perfeita ordem.
O papel esverdeado contrastava fortemente com a espuma empoeirada. O maço era grosso, preso firmemente com um elástico.
Por um momento, nenhum dos dois falou.
– Isso… não pode ser verdade – murmurou Emma.
Daniel enfiou a mão novamente. Outro pacote. E mais outro.
O interior da poltrona se revelou como um compartimento escondido. Sob o enchimento havia vários maços, cuidadosamente colocados, como se alguém os tivesse embutido ali de propósito.
O ar de repente pareceu mais pesado.
O coração de Emma batia tão forte que ecoava em seus ouvidos.
– Quanto você acha que tem aqui? – perguntou quase inaudivelmente.
Daniel balançou a cabeça. – Não faço ideia. Mas é muito.
Sentaram-se no chão. Os maços estavam diante deles. A mão de Emma tremia ao tocar uma das notas. Era real. Não dinheiro de brinquedo.
– Se jogaram a poltrona fora, não sabiam disso – disse Daniel. – Caso contrário, não a teriam deixado ali.
– Ou alguém se livrou dela de propósito – respondeu Emma. – Talvez fosse perigoso demais mantê-la.
O peso desse pensamento caiu sobre eles.
E se o dinheiro viesse de um crime? E se alguém estivesse procurando por ele? E se os dois homens voltassem?
Emma levantou-se e olhou pela janela. O pátio estava exatamente como antes. Silencioso, vazio.
– Chamamos a polícia? – perguntou.
Daniel não respondeu por um longo tempo. Olhava para o dinheiro como se ele escondesse alguma resposta.
– Se denunciarmos, vão levá-lo. E nunca saberemos o que poderia ter sido… – disse em voz baixa.
– E se não denunciarmos? – perguntou Emma.
A pergunta permaneceu entre eles.
No meio da sala, entre as partes desmontadas da poltrona, os maços de dólares espalhados pelo chão representavam ao mesmo tempo oportunidade e ameaça.
A promessa de uma nova vida.
E o risco de perder tudo.
A noite que começara de forma tão insignificante tornara-se um ponto de virada.
E nenhum dos dois sabia para que lado a balança iria pender.







