O notário me entregou uma cópia do extrato do registro de imóveis. Fiquei olhando para a linha “proprietário” e não acreditei no que via. Lá estava o nome do meu irmão.
Minhas mãos não tremiam. Por dentro eu estava vazia, como se alguém tivesse puxado um tampão e tudo – sentimentos, esperança, ressentimento – tivesse escoado de uma vez. Dobrei cuidadosamente o papel e o coloquei na bolsa.
– Galina Sergueievna, está tudo bem? – o notário me olhou com compaixão profissional.
– Sim. Obrigada pela informação.
Saí para a rua e sentei em um banco ao lado da fonte. Pessoas passavam por mim, crianças riam, em algum lugar tocava música.
E eu apenas estava ali, pensando que os últimos doze anos da minha vida tinham acabado de perder o valor por causa de uma única folha de papel.
Tenho quarenta e seis anos, trabalho como engenheira chefe de orçamentos em uma empresa de construção. Meu salário é sessenta e cinco mil por mês – não é luxo, mas dá para viver.
Há nove anos alugo um apartamento de um quarto na periferia da cidade. Não tenho casa própria. Ou melhor, achei que teria – o apartamento de três quartos dos meus pais no centro.
Eles sempre diziam: “Galochka, você sabe, tudo será dividido meio a meio entre você e o Lesha.”
Lesha é meu irmão mais novo. Tem quarenta e dois anos, mora em Krasnodar com a esposa e dois filhos. Vem uma vez por ano por três dias, traz uma caixa de bombons e uma garrafa de conhaque.
Liga nos feriados. Nunca mandou dinheiro aos nossos pais – hipoteca, filhos, despesas.
Mas eu estou aqui. Todo sábado na casa deles. Compras, remédios, consultas, consertos. Quando meu pai foi levado para uma cirurgia cardíaca, morei com eles por duas semanas: cozinhava comida dietética, trocava curativos, levava às consultas.
Quando minha mãe sofreu uma fratura no colo do fêmur, fui todos os dias durante três meses: fraldas, injeções, massagens.
Não reclamei. Afinal, são meus pais. É natural.
Ontem a vizinha da minha mãe, tia Zoya, me ligou. A voz dela estava estranha, como se não soubesse se devia falar.
– Galya, me perdoe por me meter… Mas por acaso ouvi sua mãe conversando com o Lesha ao telefone. Eles passaram o apartamento para o nome dele. Com contrato de doação. Há um mês.
Não acreditei. Pensei que ela tivesse entendido errado. Ela já é idosa, não ouve bem.
Mas eu precisava verificar.
No dia seguinte chegou o extrato do registro de imóveis. Tudo estava correto. Contrato de doação datado de catorze de março. Doadores: minha mãe e meu pai. Beneficiário: meu irmão.
Li três vezes. Depois fechei o laptop e fiquei sentada no escuro por muito tempo.
Doze anos. Todo sábado. Cada chamada de ambulância. Cada noite sem dormir quando o coração do meu pai ficava instável.
Cada centavo que gastei com os medicamentos deles, porque a aposentadoria não era suficiente. Cada férias passadas não no mar, mas reformando o apartamento deles.
E o resultado?
Lesha ficou com o apartamento no centro. Valor de mercado cerca de oito milhões. E eu fiquei com uma folha de papel e a constatação de que, aos olhos dos meus pais, eu era a funcionária.
No dia seguinte fui até eles. Como sempre – com sacolas cheias de compras. Hábito.
Minha mãe abriu a porta sorrindo:
– Galochka! Entre, acabei de assar uma torta!
Entrei. Coloquei as sacolas no chão. Meu pai estava na poltrona assistindo televisão.
– Pai, como está a pressão?
– Bem, minha filha. Estou tomando os remédios como você disse.
Sentei à mesa.
– Mãe, sente-se. Precisamos conversar.
Coloquei o extrato diante deles.
– Expliquem.
Minha mãe empalideceu. Meu pai desviou o olhar.
– Galochka, entenda… Lesha tem filhos. Eles precisam do apartamento. Você está sozinha, tem menos despesas…
– Eu não tenho apartamento próprio. Há nove anos moro de aluguel.
– Mas você trabalha! Ainda pode economizar!
Olhei para a mulher a quem troquei fraldas depois da cirurgia.
– Mãe, quantas vezes o Lesha veio no último ano?
– Bem… uma vez. No Ano-Novo.
– Por três dias. Ele já enviou dinheiro alguma vez?
– Galya, ele tem hipoteca…
– E eu tenho aluguel. Vinte e dois mil por mês. E no final não sobra nada.
Meu pai finalmente falou:
– Achamos que você entenderia. Ele tem família.
– E eu não sou família? Só uma empregada?
– Nós te amamos! – exclamou minha mãe.
– Oito milhões a menos.
Levantei-me.
– As compras estão na cozinha. Foi a última vez.
Minha mãe correu atrás de mim.
– Galya, espere! Você ficou ofendida? Não fizemos por maldade!
– Durante doze anos eu entendi tudo. Agora é a vez de vocês não me entenderem.
– O que isso significa?
– Significa que, a partir de agora, o Lesha cuidará de vocês. O apartamento é dele – que as responsabilidades também sejam.
À noite Lesha ligou. Estava furioso.
– O que você está fazendo?! A mamãe está histérica, a pressão do papai subiu!
– Oi, Lesha. Faz tempo que não conversamos.
– Não mude de assunto! Que cena é essa?
– Só restabeleci o equilíbrio. Você recebeu o apartamento – assuma a responsabilidade.
– Eu moro em Krasnodar!
– Eu também tinha trabalho. Vida. Que deixei de lado por doze anos.
– Isso é diferente!
– Diferente como? Porque você é homem? Porque tem filhos?
Depois de uma longa discussão, eu disse:
– Organize cuidados para eles. Leve-os para morar com você. Venda metade do apartamento. Ou convença-os a dividir de forma justa. Mas eu estou fora.
Três meses se passaram. Pela primeira vez fui passar férias no mar. Duas semanas em Sochi, em um hotel decente. O dinheiro que antes gastava com eles ficou comigo.
Não senti alegria. Mais silêncio. Liberdade.
Em setembro chegou uma mensagem do Lesha:
“Galya. Nossos pais concordaram em alterar a doação. Metade para você. Você volta?”
Quatro milhões. O que deveria ter sido meu desde o começo.
Mas voltar significaria ser “Galochka” de novo. De novo os sábados, os remédios, as noites.
Respondi:
“Obrigada. Mas não. Não preciso do apartamento. Mudei para um aluguel mais barato e estou juntando para o meu próprio. Em três anos terei um pequeno apartamento. Meu. Conquistado. Perdoei nossos pais. Mas não ajudarei mais. Agora vocês são a família.”
“Está falando sério?” – veio a resposta.
“Completamente.”
Naquela noite sentei na cozinha do meu pequeno apartamento alugado. Pensei em como minha mãe me alimentava com colher quando eu era criança, em como meu pai me ensinou a andar de bicicleta. E em como eles assinaram aquele papel pelas minhas costas.
Eu poderia ter escolhido o ressentimento. Ou o retorno.
Mas escolhi outra coisa.
Pela primeira vez em quarenta e seis anos – escolhi a mim mesma.
O apartamento ficou com meu irmão. Que fique. Eu também terei o meu. Pequeno, modesto – mas meu. Sem condições.
Meus pais fizeram a escolha deles. E escolhas têm consequências.
Agora vivem com as suas.
E eu finalmente vivo a minha própria vida.
E sabem de uma coisa? Estou bem. Realmente bem.
Não por vingança. Não por despeito.
Mas porque percebi: não sou obrigada a pagar com a minha vida pelo amor de alguém.
E você? Seria capaz de abrir mão do apartamento dos seus pais pela sua própria dignidade?







