Enquanto a esposa, equilibrando-se entre os prédios cinzentos, carregava de volta para casa as sacolas de compras
abarrotadas, pensava se sobraria dinheiro até o fim do mês, o marido estava a milhares de quilômetros de distância, deitado em uma praia de areia branca ofuscante, embalado pelas ondas quentes da despreocupação.
A mulher, suando, empurrava o carrinho de bebê pelas escadas de casa, porque o elevador não funcionava de novo, uma mão segurando a sacola cheia de pão e leite, a outra o casaco do filho mais novo, que, claro, começou a fazer birra pelo caminho.
O homem, enquanto isso, deitado de lado em uma espreguiçadeira, observava preguiçosamente o mar, enquanto as ondas verde-azul translúcidas deslizavam repetidamente pela praia.
O sol aquecia sua pele, mas isso não o incomodava. O ar tinha um cheiro ao mesmo tempo salgado e doce, palmeiras se inclinavam sobre eles, música suave vinha do bar. Tudo parecia leve, simples.
Ao lado dele, a amante se esticava, como se o mundo sempre tivesse sido dela.
A mulher usava óculos de sol, por trás dos quais escondia o olhar, a pele brilhava com óleo de bronzeamento, e um leve sorriso confiante se mantinha em seus lábios, sugerindo que ela sempre saía vitoriosa de qualquer situação.
Ela se virou, apoiou-se no cotovelo e, sem tirar os óculos, perguntou com ironia:
– E sua esposa… aquela bobinha realmente não percebeu nada?
O homem sorriu. Quase achou ofensiva a pergunta.
– Não. – deu de ombros. – Não se importa.
– Como assim não se importa? – perguntou a mulher, inclinando levemente a cabeça. – Está em casa, certo? E você está aqui comigo. É realmente tão cega?
O homem esticou as pernas, sentindo o calor do sol na pele.
– Ela não tem tempo para isso. Está sempre correndo. De manhã creche, depois trabalho, à tarde aulas extras, compras, jantar, lavagem de roupa.
À noite, cai na cama sem energia para conversar. Ela acha que essa é a vida. E acha também que entre nós está tudo bem.
A amante riu baixinho.
– Confortável. Uma esposa assim é um presente. Ela resolve tudo, e você aproveita a vida. – Lentamente, tirou os óculos de sol e olhou profundamente nos olhos do homem. – Mas me diga… quando vai se divorciar de vez?
A pergunta não era nova. Já tinha sido feita inúmeras vezes. O homem, no entanto, fingiu ouvir pela primeira vez.
– Em breve. – respondeu calmamente. – Muito em breve.
– Você diz isso há um ano. – a mulher comentou com frieza. – Não sou mais jovem. Não vou esperar para sempre.
O rosto do homem se contraiu.
– Preciso resolver tudo. De forma normal. Sem escândalos.
– Claro. – sorriu a mulher, fria. – Você sabe que ela não vai te deixar. Ela não é desse tipo.
O homem não respondeu de imediato. Por um instante, seus pensamentos voltaram para casa. Ele viu a esposa na cozinha, misturando a sopa enquanto ajudava o filho com a lição de casa.
Viu-a acordar de madrugada para pegar o ônibus a tempo. Viu-a sentada à mesa exausta à noite, às vezes apenas olhando fixamente para o nada.
Ele já tinha notado isso. Já tinha sido grato. Mas agora se tornara natural para ele, como o ar.
A amante se levantou.
– Vou comprar uma água mineral. – disse casualmente. – Não fique entediado.
O homem ficou sozinho à sombra da palmeira. A luz do sol vibrava no ar. O telefone estava ao lado, sobre a toalha. Foi então que chegou a mensagem. O nome da esposa apareceu na tela.
Ele não se assustou. Ficou irritado. – Deve ser algum problema com as crianças… – murmurou. Abriu a mensagem. Apenas uma foto.
Clicou. E congelou. Na foto havia uma captura de tela de uma conversa. O número era familiar. Da amante. Mas não dele. De outro homem.
Os dedos do homem ficaram dormentes. Seu coração disparou como se quisesse sair do peito. A primeira linha: “Não se apegue. Estou com ele só pelo dinheiro.”
A princípio, pensou que tinha entendido errado. Leu novamente. Continuou rolando.
“Esse careca acha que eu o amo. Ele não tem ideia de nada. O importante é que ele paga. Viagens, presentes, tudo. Eu aproveito, mas nunca vou viver com ele.”
A respiração do homem acelerou. De repente, sentiu como se o ar ao redor tivesse acabado.
“Você é diferente. Com você me sinto bem. Mas o dinheiro é ele. Então não me escreva quando estiver com ele. E só nos encontramos em segredo.”
O telefone quase caiu de suas mãos.
O “careca”.
Ela.
A mulher que exigia que ele se divorciasse, que falava de futuro, que fazia cenas de ciúme – escreveu as mesmas coisas para outro homem. A mesma voz.
O mesmo papel. E então ele percebeu a mensagem abaixo da foto. Da esposa. “Sei de tudo. E sim, ela não te possui. Você é apenas mais um para ela. Decida onde quer viver.”
Sem gritos. Sem insultos. Sem lágrimas de acusação. Apenas uma frase. Fria. Objetiva. Definitiva.
O homem olhou ao redor da praia. De repente, tudo mudou. O mar não era mais convidativo. O sol se tornou abrasador. A areia queimava a pele. A amante voltou com a água na mão.
– O que foi? – perguntou rindo. – Parece que viu um fantasma.
O homem estendeu o telefone silenciosamente. A mulher percorreu a tela. O rosto dela se tensionou por um instante. Mas só por um instante. Depois deu de ombros.
– E daí? – perguntou indiferente. – Isso é problema seu.
– Você… – a voz do homem tremia. – Mentiu.
– Não dramatize. – suspirou a mulher. – Todo mundo mente um pouco. Você também.
O homem se levantou. – Foi só pelo dinheiro que esteve comigo?
A mulher colocou os óculos de sol de volta devagar.
– Ora. Também gostei. Mas sejamos honestos… – aproximou-se dele. – Achou que era amor verdadeiro?
Algo se apertou no peito do homem. De repente, lembrou-se dos olhos da esposa. Da mão dela segurando a sua no hospital, no nascimento do primeiro filho. Das risadas que compartilhavam por nada.
De quando ele também importava.
A amante se levantou.
– Olhe. Se tiver problemas em casa, resolva. Mas não me envolva nisso.
– Você me envolveu! – explodiu ele.
– Não. – balançou a cabeça. – Você decidiu fugir. Eu só aproveitei a oportunidade.
O homem se levantou. As pernas tremiam. De repente, tudo ficou claro. A esposa não era cega. Apenas observava. Esperava. E, quando chegou a hora, não implorou.
Não chorou. Não pediu. Apenas enviou a verdade. O homem olhou mais uma vez para o telefone. “Decida onde quer viver.” A pergunta era simples.
Mas o peso da resposta o fez desmoronar. Pela primeira vez, não havia uma escolha confortável. Não havia quem carregasse o peso por ele. Não havia quem resolvesse tudo.
A areia não era mais macia. O mar não era mais atraente. As férias tinham acabado. E o homem sentiu pela primeira vez na vida o que é quando não é outro quem arca com as consequências – mas ele mesmo.







