— Trinta e nove vírgula dois — disse para o nada, como se estivesse falando para o ar.
A resposta veio surda, como se a voz estivesse presa sob um grosso cobertor de algodão.
Vitalij estava parado no batente da porta do quarto.
Já fazia três horas que ele não entrava no quarto — desde a primeira vez que espirrei. Pressionou as costas contra a parede, como se aqueles poucos centímetros extras pudessem protegê-lo do vírus que voava pelo “duplo” da sala.
— Viu? — resmungou, puxando a manga da camiseta até o nariz.
— Eu te disse para não pegar o metrô. Não disse?
O teto começou a girar lentamente, no sentido anti-horário, diante dos meus olhos. Eu não queria moralizar. Só queria um copo de suco azedo de frutas e alguém que endireitasse o travesseiro amassado.
Mas Vitalij ficou longe. Em uma distância segura, como se estivesse esperando sua vez no caixa.
— Água, por favor. E dá uma olhada no armário de remédios, sobrou algo para febre?
Ele transferiu o peso de uma perna para a outra. Sua postura mostrava claramente aquela velha expressão que eu via todas as vezes nos últimos vinte e cinco anos, sempre que surgia um problema: o desejo de desaparecer.
Era como se quisesse se tornar invisível até que tudo sumisse por si só.
— Leni, não faça isso. Eu vou entrar aí agora, e lá estão seus… vírus — riu nervosamente, mas os olhos permaneceram frios.
— Escuta, amanhã tenho uma reunião importante com os clientes. Um projeto grande. Se eu cair, vamos perder dinheiro. Você pensou nisso?
Fechei os olhos.
Eu pensaria no dinheiro quando todas as minhas articulações doíam como se alguém as tivesse torcido fora do lugar?
— Só água, Viti. Só água.
Desapareceu pelo corredor. Ouvi a torneira da cozinha abrir. O som da água parecia zombeteiramente alto no silêncio.
Alguns minutos depois voltou, mas não entrou no quarto. Colocou o copo perto da soleira.
— Quando eu for aí, você pega.
Era como alimentar um animal selvagem no zoológico. Fiquei em pé sobre o copo, e um frio pegajoso e desagradável percorreu meu corpo.
Então começou aquilo que eu temia, mas talvez tivesse esperado por toda a minha vida.
Pelo corredor, ouvi o ranger da mochila esportiva.
Crrik.
Uma breve pausa.
Crrik.
Levantei-me com dificuldade sobre os cotovelos. Minha cabeça estava pesada como ferro.
— Para onde você vai?
Vitalij saiu para o corredor. Já estava vestido: jeans, suéter limpo. Máscara no rosto. No próprio apartamento.
— Leni, veja você mesma — começou com aquele mesmo tom que sempre usava para explicar por que não podia ir à casa de férias cavar batatas.
— Aqui agora só tem microrganismos. A ventilação é ruim. Vou para a casa da minha mãe. Vou ficar alguns dias até você… se recuperar. Tem um sofá livre.
— Você vai embora? — minha voz soava estranha. Rouca e de alguma forma muito fraca.
— Quase quarenta graus. Pode ser que eu precise de ajuda.
— Então liga para a equipe! — ele ficou sinceramente surpreso.
— O telefone está na sua mão. E em que eu ajudaria? Não sou médica.
Eu mesma ficaria doente, e nós dois estaríamos deitados ali. Para quem isso seria mais fácil? Eu estou saudável, ganho dinheiro, levo comida… coloco na porta.
“Depois.”
Ele se balançou no corredor, ouvi a geladeira abrir. Tilintar de vidro. Sussurro do saco.
— Comprei limões, tudo bem? — gritou já da porta de entrada.
— E mel. Sua mãe pediu, acabou. Para você agora doces são proibidos, carga demais.
Deitei e olhei para o copo na soleira. Estava a três metros. Parecia tão distante — como um quilômetro.
Levou os limões. Levou o mel. Levou sua preciosa saúde, embrulhada em uma mochila esportiva.
— Você pegou a chave? — perguntei. Era a única coisa que me ocorreu. Reflexo automático da esposa experiente.
— Peguei, peguei. Não se preocupe. Melhore, Leni. Beba bastante água. E… agora não ligue, certo? Quero dormir antes do trabalho, e sua voz… soa doente. Irrita.
O clique da fechadura soou como um tiro.
Dupla volta.
Silêncio.
Um adulto
Fiquei sozinha. O apartamento cheirava a colônia de Vitalij e ao meu suor. O telefone vibrava na mesa — notificação do banco: “Salário. Supermercado. 350 rublos.” Provavelmente comprou mais alguma coisa para a viagem.
Estranhamente, o pânico não me atingiu. Junto com Vitalij, desapareceu do apartamento um medo inquieto e pegajoso. Ninguém reclamava, não tinha medo de pegar algo, não exigia distância segura.
Estendi a mão e peguei o telefone. A tela estava borrada, mas meus dedos lembravam os movimentos.
Aplicativo de entrega. Tudo que precisava. Vitaminas. Spray. Suco. Sopa de frango.
“Tempo de espera — 15 minutos.”
Quinze minutos depois tocaram a campainha. Cambaleando, apoiando-me na parede, cheguei ao corredor. A encomenda pendurada na maçaneta.
O rapaz, que eu nunca tinha visto, fez por mim em duzentos rublos mais do que meu marido em vinte e cinco anos.
Bebi a sopa quente. Tremia, mas minha cabeça de repente clareou, como uma manhã gelada.
Neste apartamento agora havia exatamente tantos adultos quanto capazes de assumir responsabilidade. Só eu.
E se eu consigo lidar sozinha, para que preciso de alguém que até teme meu próprio fôlego?
Minha mão foi sozinha ao telefone. Não queria ligar para meu marido. Abri o navegador. Na barra de pesquisa, digitei lentamente, com dificuldade:
“Troca imediata de fechadura. 24h.”
O técnico do serviço chegou rapidamente. Olhos vermelhos, sonolentos, olhou para mim, percorreu meu roupão de felpa, mas não fez perguntas desnecessárias.
— Trocar o cadeado ou só o cilindro? — perguntou objetivamente, tirando as ferramentas.
— Tudo — minha voz ainda estava rouca, mas firme.
— Vamos colocar o mais seguro.
A furadeira gritou ao perfurar o metal. Esse som me afetou mais que qualquer remédio. Como se cortasse todo o passado, transformando-o em fragmentos de metal.
Quando o técnico me entregou o novo conjunto de chaves, pesado, ainda oleoso, respirei aliviada pela primeira vez no dia.
— E as antigas? — apontou para a fechadura desmontada.
— Jogue fora, por favor.
Os três dias seguintes passaram em silêncio.
Vitalij não ligou. Obviamente, levou a sério sua missão de preservar a própria saúde. Ou apenas aproveitou os bolos da mãe e a ausência da esposa fraca ao lado.
Eu, por minha vez, me recuperava.
Maravilhosamente, o corpo se regenera mais rápido quando ninguém circula ao redor com cara fechada. Ninguém suspira, não exige o jantar (“você está deitada de qualquer forma”), ninguém liga as notícias em voz alta.
Dormia quanto queria. Comia diretamente na cama. O apartamento ventilou. O silêncio já não era assustador. Tornou-se um silêncio vivo, curativo.
No terceiro dia, a febre desapareceu completamente. Levantei-me, tomei um longo banho.
Lavei de mim a sensação pegajosa de humilhação. Coloquei pijama limpo. Preparei um chá forte com limão — o mesmo que o entregador trouxe, em vez do que meu marido havia levado.
E então ouvi o ranger da fechadura.
“A chave travou.”
Fiquei imóvel com a xícara na mão.
O ranger se repetiu. Persistente, irritante. Alguém tentava girar a chave com força, que já não cabia na fechadura. Então puxaram a maçaneta. Uma vez, mais uma vez.
Depois campainha. Longa, exigente.
Caminhei lentamente até o corredor. Meu coração batia calmo. Nenhuma excitação.
— Leni! — ouvi a voz do meu marido do prédio.
— Está em casa? O que há de errado com a fechadura? A chave não entra! Abra!
Fui até a porta, mas não abri.
— A chave não travou, Viti — disse em voz alta.
— A chave simplesmente não é daqui.
Houve silêncio atrás da fechadura. Provavelmente ele tentava processar a situação.
— O que quer dizer com “não é daqui”? Você trocou o cilindro? Por quê? Leni, o que você fez? Estou cansado, volto do trabalho, minha mãe está com pressão alta, quero ir para casa! Abra, chega de circo.
Circo.
Vinte e cinco anos de circo, onde eu era a única que fazia malabarismos, limpava, cuidava de tudo.
— Você pediu para não ligar enquanto eu não estivesse bem — respondi calmamente pela porta. — Não liguei. Estou curada. De tudo de uma vez.
— Leni, você enlouqueceu? Está com febre de novo? — a voz dele gritou.
— De “tudo”? Eu sou sua esposa! Apenas esperei o momento perigoso passar, você mulher inteligente! Ganhei dinheiro!
— Você fugiu, Viti. Levou os limões e fugiu.
— Que se dane esses limões! — gritou.
— Você não tem direito! Este apartamento também é meu! Vou chamar a ambulância! Bombeiros! Eles vão arrombar a porta!
— Pode chamar — ele concordou.
— Então eles vão arrombar. Os documentos estão comigo, você sabe quem é o proprietário. E suas coisas… vou organizar.
— Que coisas?
— Todas. Cuidadosamente em caixas. Vou enviar de entregador para sua mãe. Se sobrou algum limão, também vai.
Ele ainda gritou algo. Tentou jogar com a piedade (“eu me preocupei com a gente, louca!”). Então se acalmou.
Ouvi quando ele chutou a porta com raiva. Depois passos, afastando-se, pesados, de alguém magoado, que teve seu conforto habitual tirado.
Duas chaves
Voltei para a cozinha. O chá estava um pouco frio, mas ainda gostoso.
No corredor, sobre a mesa, estava o novo conjunto de chaves. Duas chaves brilhantes.
Uma era minha.
Peguei a outra. Fria, pesada. Coloquei na gaveta mais distante da escrivaninha, no canto mais profundo.
Que fique lá. Talvez algum dia alguém a receba, que não tenha medo de me trazer água. Ou talvez fique lá para sempre.
No silêncio do apartamento, o clique do bule esfriando se ouvia. Preparei mais uma xícara de chá.
Estar sozinha trouxe tranquilidade.







