A fechadura não cedeu. Vera soprou no buraco da chave congelado, sentindo o vento de fevereiro morder-lhe o rosto. Estranho.
Viajara apenas por duas semanas – para cuidar da mãe, que adoecera gravemente de repente – e, quando saiu, a fechadura funcionava perfeitamente. Talvez Andrej tivesse trocado o miolo da fechadura? Mas por que faria isso?
Apertou a campainha. De dentro da casa ouviu-se o som abafado de passos pesados, mas a porta não se abriu de imediato. Vera mudou o peso de um pé para o outro.
Na bolsa a tiracolo, o lecsó caseiro da mãe tilintava nos frascos, e lá estavam também as meias de lã cuidadosamente tricotadas, nas quais a idosa tecera todo o seu amor.
Por fim, a fechadura estalou. A porta se abriu apenas uma fresta, suficiente para deixar escapar uma faixa de luz quente e… o cheiro enjoativo e doce de um perfume estranho. O aroma abafava o cheiro habitual, resinoso e acolhedor da casa de madeira.
Na soleira estava Andrej. Vestia apenas calças de moletom, sem camisa. Mastigava uma maçã.
— Ah, você voltou — disse com indiferença, sem sequer pensar em sair da frente.
— Andrjus, por que trancou? E por que a fechadura é outra? — Vera tentou sorrir, embora por dentro algo gelado a apertasse. — Deixe-me entrar, estou congelando.
— Não há onde você entrar, Ver — deu outra mordida na maçã. — Agora outras pessoas moram aqui.
— Que outras pessoas? Isso é alguma piada? — tentou passar por ele, mas Andrej apoiou o braço no batente e bloqueou seu caminho.
No fundo do corredor passou a silhueta de uma mulher, usando um roupão leve. Vera reconheceu a peça imediatamente — no ano passado, no Ano-Novo, Andrej a presenteara com ele. Nela ficava folgado; naquela mulher, porém, estava justo, as costuras quase rangendo.
— Gatinho, quem é? — miou a mulher. — Está entrando corrente de ar!
— Andrjusa, quem é essa? — um nó cresceu na garganta de Vera. — Por que ela está com a minha roupa?
Andrej suspirou, como quem explica algo a uma criança que não entende.
Saiu para a varanda e fechou parcialmente a porta atrás de si, excluindo o calor.
— Não faça cena. Eu e Kristina nos amamos. Você… bem, a culpa é sua. Você é chata, Vera. Afundou nas suas panelas.
— O que as panelas têm a ver com isso? Esta é a minha casa! Foi minha avó que a deixou para mim!
— Era sua — coçou a barriga preguiçosamente. — Lembra da procuração? Quando instalamos o gás? “Assina, querida, eu resolvo tudo, você não precisa ficar na fila.”
Vera lembrava. O cartório abafado, a voz suave de Andrej, a confiança.
— E?
— Vendi a casa. Para um amigo. Ele depois a doou para mim. No papel, agora eu sou o único proprietário. Kristina está registrada aqui. Você foi retirada do registro ontem.
O chão pareceu vacilar sob os pés de Vera. O céu cinzento parecia pesar sobre ela.
— Você não podia… É a herança da minha avó… Andrej, quando nos casamos, você não tinha para onde ir, eu trouxe você para cá…
— Obrigado pelo abrigo — fez uma careta. — Mas agora a situação é outra. “Vendi sua casa, suma!” — essa é a situação. Suas coisas estão na garagem, em sacos. Pegue e vá para a casa da sua mãe.
— Não posso… O coração dela é fraco… não aguentaria… — sussurrou Vera, enquanto as lágrimas escorriam quentes pelo rosto e imediatamente congelavam ao vento.
— Não é problema meu.
A porta bateu. A fechadura estalou com som metálico.
Vera ficou na varanda fria. Na janela da cozinha acendeu-se uma luz. Ela viu Andrej abraçar a mulher, dizer algo, rirem. A mulher levantou a caneca favorita de Vera — a de estampa de ouriço — e bebeu dela.
Foi a última gota.
Vera não bateu mais. Desceu até a garagem. Dos sacos pendiam mangas de suéteres, lombadas de livros.
Pegou apenas o essencial. Chamou um táxi para a cidade. No caminho, apagou o número de Andrej. Suas mãos tremiam, mas em sua cabeça havia um silêncio congelado.
Na primeira semana dormiu na sala de descanso da estação. O ar cheirava a cloro e estava carregado da amargura de destinos alheios. Quase não lhe restava dinheiro — Andrej também esvaziara a conta conjunta.
Com o diploma de bibliotecária, ninguém a queria. Procuravam mão de obra “jovem e dinâmica”. Aos trinta e cinco anos, Vera já não se encaixava nos anúncios.
A solução veio inesperadamente. Em fila diante de uma padaria, puxou conversa com uma mulher elegante, de rosto severo, que reclamava ao telefone:
— Não sabem fazer uma sopa decente! Konstantin Georgievich quer cristalina como uma lágrima, e eles servem uma gororoba turva!
Vera falou por impulso:
— Eu sei fazer caldo claro. Assar pães frescos. Preparar cardápio dietético.
A mulher a mediu de alto a baixo.
— Tem carteira sanitária?
— Tenho. Atualizada.
— Venha. Se o chefe não aprovar, não pago a volta.
A pensão “Pinhal” era uma instituição fechada e de elite. Cercas altas, guardas e o sussurro de pinheiros de décadas. O proprietário, Konstantin Georgievich, tinha fama de homem duro.
— Aqui está o fogão, aqui está o frango. Você tem uma hora.
Quarenta minutos depois, um caldo dourado e translúcido fumegava diante dele. Ele provou. Parou o movimento.
— O segundo sabor não apaga o primeiro. O macarrão não passou do ponto. Está contratada.
Assim começou a nova vida de Vera.
Trabalhou como se sua vida dependesse disso. Meio ano depois, já montava o cardápio, negociava com fornecedores e não permitia que lhes empurrassem mercadoria de segunda.
Mudou. Emagreceu, usava blusas elegantes. Havia aço em sua voz.
Um ano depois, Konstantin Georgievich a chamou:
— Vamos abrir uma nova ala. Precisamos de uma diretora. Consegue fazer?
— Consigo. Mas eu escolho os empreiteiros.
— Seja.
Ao examinar as propostas, o nome “Stroj-Lux” prendeu seu olhar.
— Mande entrar — disse à secretária.
Pela porta entrou Andrej. Terno amassado, rosto abatido. Sorriso constrangido.
— Bom dia! Temos uma proposta exclusiva…
Parou. O rosto de Vera virou-se para a luz.
A pasta caiu de suas mãos.
— Vera? Você?!
— Bom dia, Andrej Viktorovich. Recolha os papéis. Está sujando meu escritório.
— Você aqui… faz limpeza?
— Eu sou a diretora.
Andrej empalideceu.
— Assine. Dou participação. Krisztinka sugou meu dinheiro, preciso desse trabalho…
Vera passou os olhos pelo orçamento.
— Tinta barata ao preço de reboco italiano. Quantidade em dobro contabilizada. Você não mudou.
— Todo mundo faz isso!
— Você não me considerava pessoa. Achou que sem você eu me perderia. Mas eu sobrevivi.
Apertou o botão.
— Segurança? Acompanhem-no para fora. Coloquem a empresa na lista negra.
— Você não ousa!
— Konstantin Georgievich não gosta de fraudadores.
Dois seguranças agarraram Andrej pelos braços.
— Vera! Devolvo a casa! Pelo menos metade!
Vera aproximou-se da janela. Viu o homem sair curvado entre os pinheiros.
O telefone apitou. A mãe enviara mensagem: “Minha filha, como você está? Fiz bolo, espero você no fim de semana.”
Vera sorriu — um sorriso leve e claro.
“Em breve vou, mamãe. E não sozinha. Konstantin Georgievich quer provar o seu bolo.”
A pasta da “Stroj-Lux” foi parar no lixo.
Era o lugar dela. Assim como o passado, no qual já não havia papel para ela.







