O “PAZik” amarelo e rangente lançou uma espessa nuvem de fumaça preta com cheiro de fuligem no ar frio da zona industrial e, sem sequer abrandar, passou arrastando-se pelo ponto com as portas fechadas.
O cheiro acre dos gases de escape impregnou-se nas fendas das paredes de betão, nas cercas enferrujadas, no cabelo e no casaco de Vera.
Os braços de Vera caíram, frouxos. O saco de plástico, onde havia apenas um pacote de massa, um saco de leite e um pão branco, pesava-lhe no ombro como chumbo. Não havia nada supérfluo ali dentro. Tal como na vida deles.
— Mãe, tenho frio… — disse baixinho o Timoska, de seis anos.
Os dentes do menino batiam, os lábios ganharam um tom azulado. O casaco que lhe tinham comprado há dois anos já estava apertado e curto; as mangas subiram, deixando os pulsos avermelhados expostos ao vento gelado.
Vera agachou-se e tentou, vezes sem conta, puxar as mangas para baixo, como se pudesse conter o inverno com as próprias mãos.
— Aguenta, meu coelhinho. O próximo já vem — sussurrou, embora ela mesma não acreditasse.
— Verka?
A voz estalou no silêncio como um chicote. A rua vazia da zona industrial ecoou a palavra. Vera estremeceu e endireitou-se lentamente.
Ao lado dela, apoiado numa bengala pesada e gasta, estava um homem corpulento com um casaco grosso forrado. Sob o bigode grisalho, uma boca de traço duro; o olhar frio e penetrante — daqueles que outrora faziam criminosos endurecidos desviar os olhos. O cheiro áspero de tabaco envolvia-o.
Era o pai dela.
Há quatro meses que não lhe telefonava. Tinha vergonha. Não queria que ele se preocupasse. Mentia sempre: “Está tudo bem, só muito trabalho.”
— Pai… olá.
Viktor Pavlovitch não respondeu de imediato. Observou as botas gastas da filha, o rosto pálido sem maquilhagem, depois o neto a tremer. Por fim, o olhar deslizou para a estrada vazia.
— E onde está o RAV4? — perguntou em voz baixa, mas com um peso que fez o estômago de Vera apertar-se. — Dei-te aquele carro para levares o miúdo no quente, não para ele congelar aqui. Onde está o carro?
— Na oficina, pai. A caixa de velocidades avariou — respondeu Vera, desviando o olhar.
O pai apenas resmungou. Aproximou-se de Timoska e, com uma só mão, levantou-o com facilidade, como se não pesasse nada.
— Na oficina… Entendo. Mas a tua vizinha, a tia Sura, disse que viu os comerciantes levarem-no há um mês. Para o carro. Agora.
No seu jipe antigo, mas impecavelmente mantido, um calor agradável os envolveu. O motor ronronava de forma constante. Em poucos minutos, Timoska adormeceu no banco de trás, o rosto suavizado pelo calor.
Nas mãos de Vera tremia um copo de café de papel; sob a tampa, o líquido castanho ondulava levemente.
— Fala — disse o pai, atento à estrada. — E não mintas. Sou um velho investigador. Sinto o cheiro da falsidade de longe. O que fez o teu marido?
Vera não aguentou mais. As lágrimas irromperam de repente, a voz embargou-se quando começou a falar.
Contou como Boris investira numa “pirâmide cripto” por conselho da mãe. Como todo o dinheiro desapareceu. Como ficou a dever a pessoas com quem não é prudente criar conflitos.
E como, numa noite, a sogra, Antonina Sergueievna, apareceu com uma gravação de vídeo. No vídeo, Vera ralhava com Timoska por ter rabiscado o papel de parede. Uma cena banal — mas montada como se ela estivesse prestes a bater na criança.
— Disseram… — sufocava Vera — que a sobrinha da minha sogra trabalha nos serviços de proteção de menores.
Se eu não vendesse o carro e não pagasse a dívida do Boris, abririam um processo. Conseguiram até um atestado falso de que estou sob tratamento psiquiátrico. Compraram-no com dinheiro, pai!
O rosto de Viktor Pavlovitch não se alterou. Apenas apertou o volante com mais força.
— Vendi o carro por metade do preço. Pagámos a dívida. Mas ontem ela voltou. Agora querem o apartamento. Aquele que a avó me deixou.
— E tu?
— Não aceitei. Mas o Boris… disse que somos família. Que a mãe sabe o que faz. Que depois compramos uma casa. Pai, ele é um cobarde. Não consegue contrariá-la numa única palavra.
O pai tirou o velho Nokia arranhado do bolso.
— Stepanitch? Sim. Preciso de uma ajudinha. Extorsão, documentos falsos, ameaças. Não, ainda não os prendemos. Primeiro vamos assustá-los.
Virou-se para a filha.
— Amanhã ligas à tua sogra. Dizes que concordas. Que marque com o notário.
— Tenho medo…
— Eles é que vão ter medo. Tu só finge que estás derrotada.
Três dias passaram como num nevoeiro. Boris andava pelo apartamento cheio de orgulho, já a planear que carro iria comprar para si.
No dia combinado, Antonina Sergueievna, carregada de anéis de ouro e com uma blusa de padrão leopardo, estava sentada no escritório húmido e sombrio. O notário organizava os papéis nervosamente.
— Contrato de doação. Em nome do marido. Assine aqui — disse apressado.
A mão de Vera tremia ao pegar na caneta.
— Vão mesmo apagar o vídeo?
— Ora essa! Assine!
A porta abriu-se de repente com estrondo. A parede tremeu com o impacto.
Viktor Pavlovitch estava ali. Atrás dele, dois homens fardados; ao lado, um homem grisalho e austero de fato.
— Boa noite — disse com voz profunda e calma. — Extorsão em grande escala. Até quinze anos.
Antonina empalideceu, os anéis de ouro tilintaram sobre a mesa.
— Há dois caminhos — continuou o pai. — Ou levamos o caso até ao fim e vão para a prisão. Ou reconhecem por escrito, agora mesmo, que receberam o dinheiro como empréstimo. Devolvem-no em três dias. E desaparecem da vida da minha filha.
A mulher assentiu, a tremer.
Um mês depois, divorciaram-se em silêncio. Boris nem sequer compareceu à audiência. O dinheiro foi devolvido em uma semana.
Vera comprou um Kia usado, mas fiável.
Num domingo, estavam sentados no jardim do pai. O cheiro de carne assada enchia o ar, as brasas brilhavam em vermelho. Timoska corria a rir com o cão entre as árvores.
— Obrigada, pai — disse Vera em voz baixa.
O pai virou o espeto, e nos seus olhos brilhou calor pela primeira vez.
— Família é quem protege. Não quem chantageia.
Vera pegou no pedaço de carne mais bem assado e suculento. Deu uma dentada. O sumo quente espalhou-se-lhe pela boca.
A sua vida não se tornou perfeita. Mas já não estava sozinha. E agora sabia: nunca mais permitiria que alguém a encurralasse.







