Todas as manhãs, Julia acordava ao som da chuva batendo no parapeito e via pelas janelas nuvens pesadas e cinzentas. O tempo parecia refletir seu humor – cheio de ansiedade, incerteza e suspeitas ocultas.
Há três semanas consecutivas, seu marido, Igor, arrumava sua bolsa de esportes e anunciava:
— Meus pais não estão bem, vou visitá-los por alguns dias.
Da primeira vez, Julia aceitou suas palavras com compreensão.
A sogra, Ludmila Pavlovna, havia passado recentemente por uma cirurgia da vesícula biliar. O sogro, Viktor Semionovich, reclamava de pressão alta. Aos sessenta e cinco anos, a saúde realmente pode falhar.
— Claro, vá — disse a esposa. — Dê-lhes meus cumprimentos, diga que também estou preocupada.
Igor saía na sexta à noite e voltava na segunda de manhã. Normalmente chegava cansado, silencioso, como se tivesse cumprido uma dura missão. Aos questionamentos sobre a saúde dos pais, respondia de forma breve:
— Está melhor. Mas ainda estão fracos.
— O que exatamente dói na mamãe? — perguntava Julia.
— Tudo dói. A idade — Igor gesticulou com a mão.
A história se repetiu na semana seguinte.
— De novo doentes? — estranhou Julia.
— Mamãe caiu, se machucou. Papai está nervoso. Preciso ir — explicou Igor, colocando camisas frescas na bolsa.
— Posso ir também? Posso ajudar?
— Não precisa. Já está apertado lá. Melhor ficar em casa.
Julia concordou. Em seu relacionamento com os pais de Igor, sempre tentou manter distância. Não se impunha, não dava conselhos. Ludmila Pavlovna era uma pessoa reservada, não muito calorosa. Conversavam educadamente, mas sem profundidade.
A terceira viagem do marido ocorreu no fim de semana seguinte.
— E desta vez? — perguntou Julia, observando Igor colocar jeans e um suéter na bolsa.
— Papai não está bem. A pressão sobe. Mamãe não consegue se virar sozinha.
— E vocês não chamaram um médico?
— Chamaram. Mas você sabe como são os médicos de clínica geral hoje em dia. Prescreveu remédios e foi embora.
Igor falava de forma convincente, mas o tom de sua voz a deixou um pouco preocupada. Soava ensaiado demais, sem as emoções de alguém que realmente se preocupa com pais doentes.
— Igor, talvez devêssemos levá-los ao hospital? Se está tão sério?
— Eles não querem. Têm medo de hospitais. Dizem que é mais tranquilo em casa.
O marido fechou a bolsa e beijou Julia na bochecha.
— Não fique entediada. Vou tentar voltar rápido.
Após a saída de Igor, Julia ficou sozinha, mergulhada em uma crescente ansiedade.
Tentou se lembrar da última vez que falou com a sogra ao telefone. Descobriu que tinha sido cerca de um mês atrás. Ludmila Pavlovna ligou para parabenizar uma amiga pelo aniversário.
Naquela ocasião, a sogra falava alegremente, interessava-se pelo trabalho da nora, contava sobre a horta. Não havia nenhuma queixa de saúde. Pelo contrário — ela se orgulhava da colheita de tomates e dos planos para o inverno.
— Isso é estranho — murmurou Julia, de pé na janela, olhando para a chuva de outono. — Se mamãe está tão mal, por que não liga? Antes, sempre avisava quando estava doente.
Na segunda-feira, Igor voltou ainda mais abatido.
— Como estão seus pais? — perguntou a esposa.
— Papai melhor. Mamãe ainda fraca.
— E o que disse o médico?
— Que médico? — Igor não entendeu.
— O clínico geral. Você disse que chamaram.
— Ah, sim. Ele disse para observar. Se piorarem — para o hospital.
Igor rapidamente se trocou e sentou-se no computador. A conversa claramente não favorecia continuação.
À noite, quando o marido foi tomar banho, Julia pegou seu telefone. Nunca o tinha checado, mas algo dizia a ela — precisa ver.
Não havia nenhuma ligação para os pais. Nem feitas, nem recebidas. Nas últimas duas semanas — nenhum contato com Ludmila Pavlovna ou Viktor Semionovich.
— Como é possível? — sussurrou Julia. — Se Igor esteve lá, por que não ligar?
Normalmente, quando o marido saía, os pais ligavam pelo menos uma vez para Julia, para saber como estavam ou se precisavam passar algo para o filho. Desta vez — silêncio.
A quarta viagem aconteceu na sexta seguinte.
— De novo os pais? — perguntou Julia.
— Sim. Mamãe está com febre. Temo que tenha pegado um resfriado.
— Igor, talvez eu vá com você? Posso ajudar a cuidar.
— Para que mais problemas? — respondeu Igor, ríspido. — Você tem trabalho demais.
— Não me importo. Afinal, são seus pais. Talvez também os meus…
— Julia, não precisa. Já está apertado. Ainda vai se contaminar.
Igor falava de forma convincente, mas evitava contato visual. Arrumava as coisas às pressas, como se estivesse atrasado para o trem.
— Em qual trem você vai? — perguntou a esposa.
— No comum. Às sete da noite.
— Quer que eu te acompanhe à estação?
— Não precisa. Eu me viro.
Igor beijou Julia e saiu às pressas. Julia ficou no apartamento cheio de lacunas e coincidências estranhas.
O sábado de manhã passou em reflexões. Os pensamentos se embaralhavam na cabeça, sem dar paz.
Por um lado — culpar o marido por mentir sem provas seria injusto. Por outro — muitas circunstâncias estranhas se acumularam no último mês.
— Será que sou mesmo uma esposa desconfiada? — repreendeu-se Julia. — Talvez os pais realmente estejam doentes, e eu esteja inventando problemas do nada?
Antes do almoço, tomou uma decisão. Se o sogro e a sogra realmente estavam doentes, certamente ficariam felizes com o cuidado da nora. Julia faria um bolo caseiro, compraria frutas, prepararia pequenos presentes e os visitaria.
— Vou lhes fazer uma surpresa — decidiu. — E, de quebra, vou surpreender Igor.
Na cozinha reinava um caos agradável. Julia sovou a massa para o bolo — a receita especial de sua mãe. Enquanto o bolo assava no forno, foi à loja buscar frutas e suco.
Às três da tarde, tudo estava pronto. O bolo aromático esfriava sobre a mesa, a bolsa com laranjas e bananas estava à porta. Julia se vestiu com um elegante vestido, se maquiou levemente e seguiu para a estação.
No trem, sorria, imaginando a surpresa de Igor ao vê-la com sacolas de presentes. Igor abriria a porta, veria a esposa com as bolsas, piscaria confuso e depois se iluminaria com um sorriso.
— Julia? O que você faz aqui? — diria o marido.
— Decidi visitá-los — responderia a esposa. — Ver como estão.
O caminho até a casa dos sogros levou uma hora e meia. Ludmila Pavlovna e Viktor Semionovich moravam em uma pequena cidade nos arredores de Moscou, em uma casa de dois andares com jardim. Igor cresceu nessa casa, conhecia cada canto.
Julia se aproximou do portão familiar e apertou a campainha. Após alguns instantes, a sogra abriu a porta.
— Julia? — espantou-se Ludmila Pavlovna. — O que você faz aqui?
Parecia ótima. Bochechas rosadas, olhos claros, nenhum sinal de doença. Vestia roupas esportivas caseiras, cabelo cuidadosamente preso em rabo de cavalo.
— Bom dia, Ludmila Pavlovna — cumprimentou Julia, constrangida. — Vim visitá-los. Igor disse que vocês estavam doentes.
— Doentes? — riu sinceramente a sogra. — Que doença? Estamos saudáveis como peixes! De onde vieram esses boatos?
O sangue subiu ao rosto de Julia. O coração disparou, e as bolsas de presentes tornaram-se de repente pesadas demais para carregar.
— Mas Igor… Ele disse que estava cuidando de vocês. Que estavam mal.
— Cuidando? — balançou a cabeça Ludmila Pavlovna. — Julia, não vemos nosso filho há uma semana! Ou talvez mais!
Do fundo da casa, ouviu-se a voz do sogro:
— Luda, quem veio?
— Julia nos visitou! — gritou a sogra.
Viktor Semionovich apareceu no corredor. Um homem de setenta anos, grisalho, mas forte, de calças de trabalho e camisa xadrez. Provavelmente estava mexendo na oficina.
— Oh, nora! — alegrou-se o sogro. — Que surpresa! Você nos visita raramente!
— Viktor Semionovich, e Igor? — perguntou Julia diretamente.
— Como vou saber? — deu de ombros o homem. — Talvez no trabalho? Talvez na sua casa?
— Mas ele veio aqui. Disse que vocês estavam doentes e precisavam de cuidados.
Os sogros se entreolharam, surpresos.
— Julia, não estamos doentes. Igor não vem aqui há muito tempo. A última vez que o vimos… quando foi, Luda?
— No Dia de São Pedro — lembrou a sogra. — Em julho, no aniversário do papai.
— Exato. Desde então, nem ligou — confirmou Viktor Semionovich.
Dentro de Julia, tudo parecia quebrar. Cada explicação do marido, cada viagem aos “pais doentes” revelou-se mentira. Mentira pura, direta.
— Julia, o que aconteceu? — preocupou-se Ludmila Pavlovna. — Você está pálida. Venha, vamos tomar chá.
— Obrigada, mas preciso ir — sussurrou a nora.
— Como assim, já ir? Você acabou de chegar! E trouxe bolo, vejo! — insistiu a sogra.
— Outra hora — disse Julia, entregando as bolsas. — É para vocês. Bom apetite.
— E Igor? — não entendeu o sogro. — Por que não está com você?
— Não sei — respondeu Julia sinceramente.
Os sogros a acompanharam até o portão, olhando incrédulos. Julia caminhava em direção ao ponto de ônibus, sem sentir as pernas.
Em sua mente, se acumulavam perguntas: onde Igor passou os fins de semana? Com quem? Por que usou os pais como cobertura? E, o mais importante — há quanto tempo durava essa mentira?
O ônibus até a estação levou meia hora. Julia olhava pela janela para as paisagens cinzentas de setembro, tentando organizar os pensamentos. Cada viagem do marido aos “pais doentes” agora parecia zombaria. Cada explicação — manipulação cínica.
— Ou seja, durante todo o mês me preocupei com os pais dele, e ele… — Julia não conseguia terminar o pensamento.
No trem, pegou o telefone e quis ligar para o marido. Depois desistiu. O que perguntar? Onde esteve? Com quem? Por que mentiu?
Melhor esperar em casa. Olhar nos olhos dele quando explicasse mais uma história falsa.
Chegou ao apartamento às oito da noite. Estava silencioso e vazio. Sentou-se no sofá e começou a esperar.
Igor voltou na segunda de manhã, como sempre. As chaves tilintaram na fechadura, a porta se abriu. O marido entrou cansado, curvado, com a mesma bolsa de esportes.
— Oi — murmurou, indo para o quarto. — Como foi o fim de semana?
— Tudo bem — respondeu Julia calmamente. — E você?
— Difícil. Meus pais não estão bem.
— É? — a mulher se levantou do sofá. — O que exatamente aconteceu com eles?
— Mamãe está com febre, papai mediu a pressão a noite toda. Estão exaustos.
Igor falava sem levantar os olhos. Dobria roupas sujas, retirava remédios da bolsa.
— Igor — chamou a esposa baixinho. — Olhe para mim.
O homem levantou a cabeça. Um traço de preocupação surgiu em seus olhos.
— Onde esteve todos esses dias? — perguntou Julia diretamente.
— Onde? Com meus pais. Eu disse.
— Seus pais estão bem. Não te viram há uma semana.
Igor congelou com a camisa nas mãos.
— Do que você está falando?
— Ontem estive lá. Queria ajudar os “doentes”. Ludmila Pavlovna riu quando perguntei sobre a doença.
O rosto do marido empalideceu.
— Você esteve com seus pais? Por quê?
— Porque acreditei em você. Achei que realmente estavam doentes.
— Julia, você não entende…
— O que não entendo? — interrompeu a esposa. — Que você me enganou por um mês? Que usou os pais como cobertura?
— Não era mentira…
— Então o que era? — Julia se aproximou. — Igor, onde passou os fins de semana? Com quem?
O marido virou-se para a janela.
— Não posso explicar agora.
— Não pode ou não quer?
— Julia, acredite em mim. Não é como você pensa.
— E o que eu penso? — perguntou a esposa friamente.
— Bem… que tenho alguém. Outra mulher.
— Então não é diferente?
Igor permaneceu em silêncio. O silêncio durou um minuto, depois outro. Finalmente, suspirou profundamente.
— É — admitiu baixinho.
Julia assentiu. Estranhamente, não havia raiva. Apenas vazio e clareza.
— Entendo.
— Julia, não é sério! Simplesmente… aconteceu…
— Aconteceu há um mês?
— Não, antes. Mas eu não sabia como te contar.
— Por isso mentiu sobre os pais doentes?
— Queria me entender. Descobrir o que precisava.
— E entendeu?
Igor ficou em silêncio novamente.
— Igor, pergunto: entendeu do que precisa?
— Não sei — respondeu honestamente.
— Eu sei — disse Julia. — Preciso de alguém que não minta. Que não use pais doentes como cobertura para um caso.
— Não é um caso…
— Chame como quiser. O resultado é um só — você me enganou por um mês.
Julia foi para o quarto e pegou uma pequena mala.
— O que está fazendo? — Igor se preocupou.
— Estou saindo — Julia arrumava as coisas mais necessárias. — Para a casa de uma amiga. Por enquanto.
— Por enquanto?
— Você — com seus sentimentos. Eu — com os papéis do divórcio.
— E nossa casa? Nossa família?
— Família é confiança — respondeu Julia. — E a casa pode ser dividida pelos advogados.
Julia saiu, fechando a porta. No corredor havia silêncio, apenas alguma música tocava mais acima.
Lá fora, garoava uma chuva fina. Igual à de um mês atrás, quando tudo começou. Julia levantou a gola do casaco e seguiu em direção ao metrô.
O telefone tocou enquanto ela descia para a passagem subterrânea. O nome do marido apareceu no visor. Julia rejeitou a chamada e guardou o telefone na bolsa.
A decisão foi tomada. Não podia mais morar com alguém que, por um mês, usou supostos pais doentes como cobertura para um caso. A confiança foi destruída, a família — também.
À sua frente, conversas com advogados, divisão de bens, nova vida. Mas, pelo menos, uma vida honesta. Sem mentiras sobre pais doentes e encontros secretos com outra mulher.
O metrô levava Julia do passado para um futuro desconhecido, mas sincero.







