— Segundo a lei, Jelena Sergueievna, a senhora praticamente nos roubou. Em noventa e dois, quando ocorreu a privatização, Olia ainda era menor de idade, e a senhora não a incluiu na parte da propriedade.
Isto, com todo o respeito, é uma violação da lei. E nesses casos, se a pessoa entende do assunto, nem sequer há prazo de prescrição.
Vadim falava com firmeza enquanto cortava a minha famosa e perfumada torta de cogumelos, com movimentos como se já estivesse a dividir o meu apartamento na sua imaginação.
A faca tilintou ao tocar o prato de porcelana, o som cortou o ar com aspereza. Ele até deixou pingar chá na toalha, mas nem percebeu.
Olhei para o meu genro e não estava a pensar nas leis, mas sim no facto de que a toalha de damasco festiva teria de ficar de molho.
Tem trinta e cinco anos e imagina-se um sábio: das criptomoedas ao direito imobiliário, entende de tudo — pelo menos segundo ele próprio.
— Vadik, porque é que tens de falar de forma tão dura? — disse Olia em voz baixa.
A minha filha mexia as folhas de chá na chávena, como se procurasse no fundo dela respostas sobre o futuro.
— A mamã não fez isso por maldade. Eram outros tempos, ninguém entendia nada.
— Não entendia? — Vadim riu com desprezo e enfiou um grande pedaço de torta na boca.
— Claro que entendiam. Simplesmente queriam ser os únicos proprietários.
E agora andamos de apartamento alugado em apartamento alugado, damos metade do nosso salário a um estranho, enquanto a tua mãe vive num apartamento de três quartos no centro tranquilo da cidade. Sozinha. Achas isso justo?
Na cozinha, de repente, só se ouvia o zumbido profundo e monótono do frigorífico — aquele velho que comprámos com o meu marido com o primeiro prémio sério dele. Naquela altura sentíamos que tínhamos vencido na vida.
Pousei o garfo para que nem por acaso tilintasse no prato. Um calor espalhou-se dentro de mim, como se o meu peito tivesse ficado apertado demais.
— Mãe, não fiques calada — Olia levantou os olhos para mim.
Naquele olhar estava a expressão que eu temia há meio ano: uma mistura estranha de compaixão e cálculo.
— Não queremos expulsar-te. É só que… realmente é apertado para nós. Se trocássemos o apartamento, conseguiríamos um T2 no novo complexo residencial, e tu terias um bonito T1 renovado. Ainda sobraria dinheiro para obras.
— E se eu não quiser mudar-me para um T1? — perguntei calmamente.
A minha voz manteve-se firme. Trinta anos de trabalho em arquivo ensinaram uma pessoa à disciplina do silêncio. Lá, a paciência é uma ferramenta de sobrevivência.
— Estás a ver! — Vadim apontou para mim triunfante. — Puro egoísmo. Eu disse-te, Olia, não vai resultar de forma amigável. Temos de ir a um advogado. Vamos restabelecer o teu direito de propriedade. Vão conceder um terço e depois, queira ela ou não, o apartamento terá de ser vendido.
Levantei-me e comecei a levantar a mesa em silêncio.
Lavei a loiça durante muito tempo. Com a esponja, esfregava os pratos devagar, em movimentos circulares, como se quisesse lavar as memórias juntamente com as manchas de gordura. E entretanto deslizava para trás no tempo.
Oitenta e nove.
Olia ainda corria debaixo da mesa, e talvez Vadim nem tivesse nascido. Agora pensam que sabem como era naquela altura. Leram na internet que os apartamentos eram distribuídos como rebuçados — bastava estar na fila.
Eu lembro-me de outra coisa.
Lembro-me da Cooperativa de Construção Habitacional. Chamava-se “Meteor” — como soava orgulhoso! Mas na realidade significava quinze anos de compromisso.
O primeiro pagamento foi de três mil rublos. Naquela época, era o preço de um carro. O salário do meu marido era de cento e vinte rublos por mês. E mesmo assim aceitámos. Todos os meses pagávamos cinquenta. Sonhávamos com carne nos dias de festa.
Remendei o meu casaco três vezes. O meu marido fazia turnos noturnos, caía na cama com o rosto cinzento, dormia mal três horas.
Não esperámos pela misericórdia da fábrica. Não esperámos dez anos na fila. Comprámo-lo. Metro a metro.
— Jelena Sergueievna! — gritou do corredor. — Pense até terça-feira. Depois disso vou a um especialista.
A porta bateu. Fiquei sozinha no meu apartamento de três quartos.
A terça-feira chegou mais depressa do que eu esperava. Vadim não estava sozinho.
A campainha tocou longa e impacientemente. Abri.
Atrás de Vadim estava um jovem magro e nervoso, num fato demasiado apertado, com uma pasta debaixo do braço.
— Boa noite — Vadim entrou sem permissão. — Este é o Artur, especialista imobiliário. Vamos apenas ver a planta. Para sabermos o valor de mercado.
— Eu não dei permissão — permaneci na porta.
— A sua permissão não é necessária para darmos uma vista de olhos — sorriu o rapaz. — Olga Igorevna, como residente registada aqui, forneceu uma chave.
Algo congelou dentro de mim.
Enquanto percorriam o apartamento, discutiam as minhas paredes, as minhas cortinas, a minha vista, como se fosse um objeto estranho.
— A cozinha é pequena, sete metros quadrados… se derrubarmos esta parede… — Vamos derrubá-la, claro — acenou Vadim. — Tudo precisa de ser substituído. Este… cheiro de avó.
— Parem.
Não gritei. Mesmo assim, pararam.
Entrei no quarto, até ao velho guarda-roupa. Na prateleira de cima estava a pasta de cartão, com a inscrição a tinta: “DOCUMENTOS 1980–1995”.
Tirei-a. Soprei o pó.
— Vadim. Vem cá. Vamos aprender a ler.
Coloquei o papel amarelado na mesa da cozinha. No canto superior direito havia um carimbo roxo desbotado.
— Leia.
As sobrancelhas de Artur ergueram-se.
— Isto é uma Cooperativa de Construção Habitacional. — E então? — perguntou Vadim. — Significa que o apartamento é propriedade privada desde 1989. A quota está totalmente paga. Não houve privatização. A sua filha está apenas registada aqui. Não tem direito de propriedade.
Fez-se silêncio.
— Como assim compraram? Na União Soviética não se vendiam apartamentos! — Foi isso que leste na internet? — passei a mão pelo papel. — Nós pagámos por ele. Durante anos.
Olhei para Olia.
— Lembras-te de porque não tinhas uma mochila de marca no primeiro ano? Porque só viste o mar pela primeira vez aos doze anos?
Ela lembrava-se. Vi isso nos seus olhos.
Artur já estava a abotoar o casaco.
— Um processo seria inútil.
Ele saiu.
O rosto de Vadim ficou vermelho.
— Legalmente talvez tenha razão… mas humanamente? Somos família!
— Vadik, chega — disse Olia em voz baixa.
— Quando entrámos, tínhamos medo de ser expulsos da fila. Não estávamos a planear um futuro contra ti. Só queríamos viver.
Abracei a pasta contra mim.
— Vão-se embora.
Vadim saiu furioso. Olia parou no limiar.
— Mãe… eu realmente não sabia sobre a quota. Pensei que vos tinham dado.
— A ignorância não absolve a consciência, Olia.
Ela saiu.
Sentei-me à mesa ao lado da velha pasta de cartão. A minha vida estava dentro dela. Recibos, certificados, carimbos.
Estas paredes não foram presentes. Custaram anos. Noites sem dormir. Verões perdidos.
Vou deixar o apartamento para Olia. Um dia. Quando eu já não estiver aqui.
Mas não agora. E certamente não para Vadim.







