— Igyorek, desempacota as sacolas, meu braço já está caindo — larguei as pesadas sacolas do “Magnit” no chão do corredor, mal tendo passado pela soleira. Minhas costas doíam com uma dor surda e familiar, as veias das pernas pulsavam.
O apartamento estava abafado e escuro. O ar estava parado, pesado com suor masculino misturado ao cheiro caro do Dior Sauvage, que eu tinha dado a ele no Ano-Novo com o décimo terceiro salário.
Igor estava curvado à mesa da cozinha como uma estátua de pedra, encarando o laptop. Fones brancos sem fio nos ouvidos, gráficos piscando na tela, velas vermelhas e verdes. Nem sequer virou a cabeça.
— Marin, eu estou realmente trabalhando agora! — franziu a testa, tirando um dos fones. — Arbitragem de tráfego chinês, cada segundo vale dólares. Não atrapalha!
Suspirei fundo e senti a irritação começar a ferver por dentro. Sexta-feira à noite.
Passei a semana inteira ralando como logística de armazém, corrigindo erros dos motoristas e acalmando clientes nervosos. E meu marido, o grande empresário, estava de novo “no fluxo”.
Peguei o telefone para pedir pizza — não tinha força nenhuma para ficar em pé diante do fogão. A tela piscou e apagou, a bateria acabou.
— Igyorek, me dá o seu, eu peço enquanto o meu carrega.
— Não dou — Igor se sobressaltou, como se eu tivesse pedido um rim. — Tem uma posição aberta, você vai estragar tudo, tudo vai desmoronar.
— Que posição? Eu só quero abrir o app de pedidos, alguns minutos!
Estendi a mão para o telefone dele, que estava sobre a mesa com a tela virada para baixo. Nesse momento, a tela acendeu sozinha. Uma notificação bancária. Li apenas o título, mas as palavras se queimaram na minha mente:
“Recusado. Saldo insuficiente para débito de 39.800 rublos.”
Igor arrancou o telefone tão bruscamente que quase derrubou a caneca de café meio vazia. As mãos dele tremiam.
— Eu disse para não ficar no meu caminho! Você não escuta?
Congelei. 39.800 — exatamente o valor da nossa prestação mensal do financiamento do apartamento de dois quartos na periferia. Era para ter sido debitado hoje.
— Igor — minha voz ficou gelada. — Ontem transferi exatamente quarenta mil para a hipoteca, por que está “saldo insuficiente”?
Os olhos de Igor se moviam de um lado para o outro, pequenas gotas de suor surgiram na testa. Ele começou a roer a barra do moletom.
— Isso… isso é uma conta técnica, eu transferi para a corretora para girar durante a noite. A volatilidade lá é insana, amanhã eu devolvo com juros. Você sempre entra em pânico! Vai esquentar as almôndegas e me deixa trabalhar!
Ele colocou o fone de volta, me isolando junto com minhas perguntas.
Fui silenciosamente para o quarto, um alarme soando no estômago. Lembrei das chamadas perdidas de números desconhecidos nos últimos três dias. Achei que fosse spam, propaganda de dentista — mas e se fossem cobradores?
Três horas.
Igor ronca, esparramado na cama em “posição de estrela”. Sonha com milhões.
Eu estou sentada na cozinha. Está escuro, o poste da rua lança apenas uma mancha amarela na janela. Diante de mim, o telefone dele.
Eu conheço o padrão de desbloqueio. “M” — Marin ou Millionaire, ou Me. Preguiçoso e narcisista demais para inventar algo complicado.
Minhas mãos estão geladas, os dedos não obedecem, desenho a letra “M”, a tela se desbloqueia.
Abro o aplicativo do banco, o coração batendo na garganta.
Saldo: 124 rublos e 56 copeques.
Os quarenta mil não estão lá.
Abro o histórico de transações. Ontem, 18:40, transferência de 40.000 rublos para uma exchange de criptomoedas.
E depois disso, uma série de pequenos débitos: 500, 1000, 3000 rublos.
A náusea me toma — ele perdeu o dinheiro separado para a hipoteca. O dinheiro que eu juntei economizando em comida, abrindo mão da manicure.
Mas isso era só o começo.
Abro o e-mail dele, na pasta “Spam” uma mensagem não lida da MFO “Zaimer”: “Prezada Marina Sergeyevna! Aprovamos o empréstimo para o cartão ****1234. Os fundos foram enviados. Não se esqueça de quitar até 25/01.”
O número: 1234 — o MEU cartão de salário.
A imagem se monta instantaneamente, como um quebra-cabeça. Meu marido, usando meu telefone quando eu dormia ou tomava banho, fez microempréstimos com meus dados, transferiu para si mesmo — e perdeu.
Mas a descoberta mais assustadora me esperava no aplicativo bancário amarelo:
Na tela principal, um banner luminoso:
“Empréstimo em dinheiro para qualquer finalidade, pré-aprovado. Valor: 1.500.000 rublos. Juros: 28%. Clique em ‘Sacar dinheiro’.”
O botão está ativo. Pulsando, chamando. Basta pressionar e digitar o código SMS.
Dou uma olhada no histórico do navegador, últimas buscas:
“Visto Tailândia, procedimentos” “Phuket apartamento barato por um mês” “Como sair da Rússia com dívidas e falência”
Um suor frio escorre pelas minhas costas — ele não vai pagar o empréstimo. De manhã vai apertar o botão, pegar 1,5 milhão, mandar para cripto e voar.
E eu vou ficar aqui, neste apartamento abafado de dois quartos que o banco vai tomar em seis meses, com dívidas, uma vida destruída e as meias sujas dele debaixo da cama.
Olho para a faca de cozinha sobre a mesa. Depois para o quarto, onde ronca aquele a quem alimentei por cinco anos enquanto “se encontrava”.
Não. Prisão não é necessária. É justiça e liberdade que eu preciso.
Meio-dia.
Lá fora, nuvens cinzentas.
Lavo o corredor, o velho balde de plástico com água suja e ensaboada fica ao lado do armário. Coloquei de propósito muito “Mr. Proper” para a espuma ficar densa.
Igor acorda. Ouço ele se espreguiçar, gemer. Muito bem, hoje é o “dia H”. O dia em que ele se tornaria milionário e livre.
Ele sai para o corredor, coçando a barriga por baixo da camiseta.
— Marish, tem café? — a voz animada, insolente.
Ele apalpa o armário com a mão, sem olhar para mim.
— Onde está meu telefone? Deixei aqui ontem.
Espremo o pano no balde, com calma, como em qualquer dia:
— Ah, Igyorek, grande problema. Eu estava lavando o chão e bati no armário com o esfregão…
Aceno em direção ao balde.
Sob a espuma cinzenta está o iPhone dele. Um tijolo preto, soltando bolhas de vez em quando.
O último suspiro do “negócio” dele.
Igor congela, o rosto se contorce, empalidece.
— O que… o que você fez?!
Ele cai de joelhos na água suja, enfia o braço até o cotovelo, tira o telefone. Sacode, tenta ligar.
A tela permanece escura.
— Agora não liga mais — digo “com compaixão”, enquanto continuo limpando a borda do chão. — A água pode ter causado curto no SIM também. Água com sabão, produtos químicos.
— Você enlouqueceu?! Perdeu completamente a cabeça?! — ele grita, as veias do pescoço saltam, o rosto fica vermelho. — Eu vou receber o SMS! É importante! Urgente! Dinheiro!
Ele corre pelo apartamento, derruba cadeiras, tomba o vaso.
— O laptop! Onde está o laptop?! Vou entrar pela web! Preciso do código!
— Levei o laptop para o trabalho — minto, olhando nos olhos dele. — O técnico pediu para dar uma olhada, você reclamava que estava lento. Estão limpando vírus, trocando a pasta térmica. À noite eu trago.
Igor escorrega pela parede. Senta no chão, segura a cabeça, entende: sem telefone não entra no banco. Sem SIM não recebe o código do empréstimo. O plano desmoronou. Sem voo para a Tailândia.
Eu me levanto, jogo o pano no balde. A água respinga na calça social dele. Sento na cadeira em frente. Agora sou eu quem controla a situação.
— Não trema, Igyorek. Você não vai receber nenhum “SMS importante” sobre 1,5 milhão. O banco hoje descansa.
Igor levanta lentamente os olhos, um medo animal brilha neles. Ele nunca me viu assim. Não a “Marishka conveniente”, mas uma inimiga.
— Você sabia? — pergunta com medo.
Coloco uma folha de papel sobre a mesa, a impressão do extrato bancário online.
— Bloqueei meu cartão e emiti outro, mudei as senhas dos sistemas governamentais. Seu acesso às minhas contas está encerrado. O jogo acabou.
Dou um gole no chá frio.
— E imprimi o extrato. Você pegou trinta mil rublos do “Zaimer” em meu nome. Isso é fraude, Igor — roubo de dinheiro de conta bancária é crime grave. Pode dar até seis anos de prisão.
— Marin, mas você… — ele tenta sorrir, mas os lábios tremem e sai uma careta patética. — Eu só queria o nosso bem! Eu recuperaria! O plano era bom, o mercado só balançou! Teríamos comprado uma casa, vivido bem… Tudo voltaria!
— Silêncio — digo. — Ouça as condições: agora você arruma sua bolsa e desaparece daqui para sempre. Para a casa da sua mãe em Saransk, para a estação, para debaixo de uma ponte — não me importa.
— Eu não vou! — ele salta, tentando recuperar o controle. — Este é meu apartamento! Somos casados! Eu tenho direito!
— Você está enganado. O apartamento está hipotecado, a devedora principal e pagadora sou eu. Você era co-mutuário sem consideração de renda. A denúncia à polícia já está pronta, está na minha bolsa.
Aceno em direção ao corredor.
— E mais — no corredor está sentado meu irmão, Seryozha. Ele chegou meia hora atrás, enquanto você dormia.
Se em cinco minutos você não sumir, chamamos a patrulha e eu abro o processo por roubo de dinheiro. E o Seryozha acrescenta algo — ele te desce pelas escadas enquanto a polícia vem.
Do corredor se ouve a tosse dura e rouca do meu irmão. Seryozha foi paraquedista, cem quilos de peso vivo.
Igor entende — o jogo está perdido.
— Você vai se arrepender, lixo — ele sussurra, pegando o casaco no cabide. — Sem mim você apodreceria aqui, velha égua! Quem precisa de você aos quarenta e oito?!
— As chaves na mesa — digo firmemente, sem reagir aos insultos.
Ele atira o molho de chaves no chão. O tilintar do metal ecoa pelo apartamento. Ele bate a porta, pedaços de reboco caem do teto.
Devagar, me abaixo e pego as chaves.
Depois pego o telefone molhado dele, tiro um clipe, puxo a bandeja do SIM. Quebro o plástico ao meio. Estalo — que som agradável.
Sento à mesa, pego a calculadora — como logística, estou acostumada a calcular tudo.
Menos 40.000 rublos — a hipoteca que ele roubou e perdeu.
Menos 30.000 rublos — o microempréstimo em meu nome. Preciso pagar para não estragar o histórico de crédito, é mais rápido que processos.
Perda direta total: 70.000 rublos.
Olho para a cadeira vazia onde ele estava sentado cinco minutos atrás.
— Setenta mil rublos para não perder 1,5 milhão e se livrar de um parasita… — digo em voz alta.
— Barato.
Levanto, pego uma garrafa de “Domestos”, vou ao banheiro. Quero limpar o apartamento, destruir o cheiro de perfume caro e de mentiras.
Fim.







