Voltei Cedo Para Casa e Encontrei Minha Melhor Amiga com Minha Lingerie

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Voltei mais cedo da chácara, e na minha alma a água corria. No cabide pendia uma lingerie de renda, tamanho cinquenta. Era minha melhor amiga.

A quinta-feira tem essa terrível propriedade de estragar os planos exatamente no momento em que você já está preparado para a absoluta idílica.

A chuva caía tão forte que os limpadores de para-brisa do carro não conseguiam acompanhar os jatos, transformando o vidro dianteiro em um aquário turvo e choroso. Toda a romantismo da noite no campo foi drenado pelo ralo em meia hora.

Girei a chave na fechadura, sonhando apenas com chá quente, meias de lã secas e silêncio.

O apartamento me recebeu com um calor estranho e denso, como se alguém tivesse aquecido o ar intensamente há pouco tempo.

Normalmente é frio aqui, mas agora, assim que cruzei o limiar, meu rosto foi atingido por uma onda úmida, como em uma estufa tropical. Tirei meus tênis molhados, tentando não pisar nas poças, e joguei a bolsa no pufe.

Meu olhar se moveu involuntariamente pelo hall, conferindo a ordem habitual.

E então congelei, como se tivesse batido em uma parede invisível. Onde normalmente pendia meu modesto casaco bege, pendia AQUILO.

Body vermelho vivo, de renda, provocativamente revelador do corpo.

O tamanho era impressionante — um sólido cinquenta, se não maior. Os bojos eram dois pequenos paraquedas prontos para um desembarque imediato nas linhas inimigas. O tecido parecia gritar pecado, paixão e desespero ao mesmo tempo.

Escureceu em meus olhos. Conhecia bem aquele tamanho. Conhecia aquele amor incompreensível pelo tom “caminhão de bombeiros em fúria”.

Svetka.

Minha melhor amiga da escola, com quem passei pelo fogo, água e os canos de cobre dos exames finais.

Aquela que reclamava eternamente da falta de “homens de verdade” em um raio de cem quilômetros, consolando-se com sobremesas calóricas. Aquela que jurou solidariedade feminina eterna até no meu casamento.

— Ah, sua víbora traidora — sussurrei, sentindo o sangue subir às minhas bochechas, queimando minha pele. — Enquanto eu cuido das hortas na chuva gelada, você está cuidando do meu Igor?!

Do fundo do apartamento, vindo do banheiro, ouvi um som.

Era o barulho da água. Não um murmúrio delicado, mas um borbulhar poderoso e confiante, como quando a torneira está totalmente aberta. E através dessa cascata, vozes se faziam ouvir. Abafadas, estranhas, interrompidas, cheias de tensão.

Fiquei parada no hall, cerrando os punhos tão forte que os dedos formigaram.

O mundo, conhecido, acolhedor e seguro, desmoronava naquele momento, ao som da água correndo e das minhas esperanças despedaçadas. A traição sempre chega sem avisar, mas com a lingerie de outra pessoa no hall.

Dei um passo à frente, pousando os pés suavemente, como um gato antes do salto. Não porque tinha medo de sujar o chão, mas para me tornar uma sombra absolutamente silenciosa. Uma caçadora em sua própria selva de papel de parede e parquet.

Um pensamento absurdo e completamente fora de lugar passou pela minha mente: “Será que eles pegaram minha esponja favorita ou trouxeram a própria?” A raiva tornou-se fria, clara e afiada como um estilhaço de gelo.

O parquet rangeu traiçoeiramente sob meu pé, mas o barulho da água ocultou efetivamente minha aproximação. As vozes ficaram mais altas, mais claras.

— Igor, vamos! — a voz de Svetka soou queixosa, com um suspiro teatral. — Aperte mais! Mais um pouco! Dói, mas vou aguentar!

— Apertar onde?! — a voz de Igor estava tensa, com o característico gemido, como ao montar móveis nos finais de semana, quando as peças absolutamente não se encaixam. — Escorregando! Tudo está escorregadio! Não consigo segurar!

A imagem em minha cabeça se formou de tal forma que imediatamente quis lavar o cérebro com sabão caseiro.

No nosso pequeno e acolhedor banheiro? Os dois juntos? Svetka com suas proporções luxuosas e Igor, cuja coluna já reclamava desde o excesso de baldes de batatas na chácara?

— Tente pelo outro lado! — a amiga gemeu, quase chorando. — De alguma forma prenda!

— Não há o que prender! — rugiu meu marido, e ouvi o som de algo caindo nos azulejos. — Tudo liso como uma pista de gelo!

Deslizei lentamente pela parede, sentindo minhas forças me abandonarem.

O ar no hall tornou-se denso, pesado como geléia. É assim que a realidade se apresenta agora. Enquanto eu sonhava com uma noite familiar tranquila, eles montaram aqui um espetáculo acrobático.

Podemos pausar aqui por um momento, porque a história no banheiro está ganhando um ritmo absolutamente cômico, surreal, cheio de tensão física e emocional.

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