O ginecologista deu uma risadinha: — Vovó, a senhora devia cuidar dos netos, não… Liguei para o médico-chefe. Um minuto depois, meu filho entrou no consultório.

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

O ginecologista soltou uma risadinha — um som seco e estranho, que não combinava com o silêncio estéril do consultório.
— Vovozinha, a senhora devia cuidar dos netos, não… — interrompeu-se teatralmente, como se o resto da frase fosse engraçado demais para ser dito em voz alta.

Verônica Pavlovna não se mexeu.

Enquanto isso, Artiom Denisovich observava o próprio reflexo na superfície polida da bandeja metálica. Ajustou a franja perfeitamente penteada, passou os dedos pela linha do colarinho do jaleco e só então, lançando um olhar superficial à mulher sentada à sua frente, suspirou com superioridade.

O consultório cheirava a desinfetante e tinta fresca — o cheiro de algo novo, que Verônica Pavlovna havia ajudado a financiar alguns anos antes, quando a clínica passou por uma reforma.

Ela estava sentada ereta, com as mãos tranquilamente pousadas sobre o colo. Sua postura era impecável, como se a vida inteira tivesse aprendido a se controlar — o corpo, as emoções, o mundo.

O jovem médico folheava lentamente o prontuário dela, com uma indiferença ostensiva. Devia ter no máximo vinte e sete anos, e usava a autoconfiança como um perfume caro — pesado, dominante, sufocante.

Por fim, deteve-se nos resultados dos exames. Um sorriso torto floresceu em seu rosto.

— Verônica Pavlovna, cinquenta e dois anos — disse, e fechou a pasta com um estalo alto, como se estivesse carimbando o destino dela. — E a senhora realmente quer falar de terapia hormonal para… “manutenção da forma”?

— Vim para uma consulta profissional — respondeu ela com calma. A voz era firme, fria, sem qualquer traço de nervosismo. — Meus exames permitem escolher um esquema que melhore minha qualidade de vida.

O médico reclinou-se na cadeira de couro e, de repente, caiu na gargalhada, cobrindo a boca com o punho, embora nem tentasse esconder o deboche.

Seu olhar deslizava pelo rosto dela, como se procurasse rugas que não encontrou — porque Verônica cuidava de si não só com cremes, mas também com dignidade e equilíbrio interior.

— Vovozinha — disparou por fim — a senhora devia cuidar dos netos, não pensar em “amor”. A natureza não se engana, mesmo que a senhora gaste uma fortuna com cosmetologistas.

Verônica Pavlovna tirou lentamente os óculos de armação fina.

— Na sua opinião, depois dos cinquenta a mulher deixa de ser um ser humano? — perguntou em voz baixa.

— Acho que é preciso aceitar realisticamente a própria idade — respondeu ele, sorrindo e exibindo dentes perfeitamente alinhados. — Vá para casa, beba kefir e não faça minhas ferramentas rirem. Maratonas a senhora já não corre mais.

Ela não respondeu. Não elevou a voz. Não demonstrou mágoa.

Pegou o telefone. Em suas mãos, parecia um acessório elegante, não uma arma — embora naquele momento estivesse se tornando exatamente isso.

— Ah, vai escrever uma reclamação? — Artiom Denisovich não se levantou. — Para o ministério ou direto para o “Jornal da Província”?

Enquanto ela discava, ele acrescentou com diversão:
— Não se incomode. Meu tio é um dos fundadores da clínica. Suas anotações não vão mudar nada aqui.

Verônica apertou o botão de chamada e ligou o viva-voz, colocando o telefone na beira da mesa dele. O sinal de chamada ecoou pelo consultório de forma estranhamente alta, como se preenchesse cada canto daquele espaço estéril.

— Alô — respondeu uma voz masculina, grave e calma.

O sorriso do médico congelou.

— Sasha, bom dia — disse Verônica, encarando Artiom diretamente nos olhos. — Você tem um minuto? Estou agora no consultório trezentos e cinco.

— Mãe? — a voz do outro lado ficou imediatamente tensa. — O que aconteceu? Você está se sentindo mal?

— Estou me sentindo ótima — respondeu ela, inclinando levemente a cabeça. — O jovem especialista daqui está muito preocupado com meus hobbies e sugere que eu comece a tricotar.

Houve um breve silêncio.

— Já estou indo — veio a resposta. A ligação foi encerrada.

Artiom Denisovich ajeitou o jaleco nervosamente. Os ombros enrijeceram, e a autoconfiança que até então parecia tão sólida começou a esvaziar-se como o ar de um pneu furado. Tentou recuperar a antiga máscara de desprezo, mas os cantos da boca tremiam traiçoeiramente.

— Nossa, que assustador — soltou com um riso forçado. — Quem a senhora chamou? Um patrocinador? Um marido aposentado com bengala?

Verônica Pavlovna permaneceu em silêncio.

A porta do consultório se abriu exatamente um minuto depois.

E então os papéis se inverteram.

— Já vai ver — disse Verônica com calma. Colocou novamente os óculos e começou a estudar atentamente o pôster anatômico na parede, como se o médico à sua frente tivesse deixado de existir.

Exatamente um minuto depois, a porta se abriu com violência, sem batida. Bateu no limitador com um som curto e seco, que cortou o ar como uma faca.

Entrou Aleksandr Viktorovich — o diretor médico da clínica. Um homem de olhar pesado e postura larga e segura, que fazia o pessoal endireitar as costas instintivamente antes mesmo de ele falar.

Artiom Denisovich saltou da cadeira tão bruscamente que quase a derrubou. A caneta escapou de sua mão, rolou sobre a mesa e bateu na bandeja metálica — a mesma na qual ele se admirara minutos antes.

— Aleksandr Viktorovich! — gaguejou, tentando desesperadamente parecer ocupado. — Eu estava justamente… explicando à paciente os protocolos relacionados às mudanças da idade. Acho que ela simplesmente entendeu mal a especificidade do… hm… humor médico.

O diretor médico nem sequer olhou para ele. Passou direto, como se fosse ar, como se ele nem estivesse ali. Aproximou-se de Verônica, inclinou-se e tomou a mão dela com carinho, beijando-a delicadamente.

— Oi, mãe — disse, observando atentamente seu rosto. — Pressão normal? Esse… esteta te deixou muito nervosa?

O maxilar de Artiom Denisovich caiu. Naquele momento, ele parecia um peixe jogado na areia — indefeso, atordoado, lutando por ar. O som de seus sonhos de carreira brilhante sob a proteção do tio influente se despedaçando era quase palpável.

— Mãe?! — rouquejou, agarrando-se à borda da mesa. — Essa… essa é sua mãe? Mas no prontuário está outro sobrenome…

— Depois do divórcio não mudei o sobrenome — sorriu Verônica para o filho. — E seu funcionário, Sasha, é muito cuidadoso. Acha que na minha idade a vida se resume a kefir.

Aleksandr Viktorovich virou-se lentamente para o subordinado. Seu olhar ficou tão pesado que Artiom quase sentiu fisicamente encolher alguns centímetros.

— Artiom — disse com voz baixa e tensa — você acabou de cometer o maior erro da sua curta carreira. E nem é por ter ofendido minha mãe.

— Eu só… quis o melhor… — murmurou o médico, recuando até a parede. — Estatísticas, riscos… Sou cirurgião, acostumado a fatos concretos…

— Era cirurgião — interrompeu Aleksandr com dureza. — Pelo visto, você esqueceu que médico é прежде de tudo ética, não apenas mão firme no bisturi.

— Sasha, não seja tão severo — Verônica tocou conciliadora na manga do filho. — O rapaz só se preocupa com a demografia. Está convencido de que sirvo apenas para ser avó.

— O tio-sócio não vai te salvar, Artiom — Aleksandr olhou para ele como para um problema incômodo. — Por grosseria e violação da deontologia, aqui se é demitido sem discussão. Mas minha mãe realmente é boa.

— Muito boa — confirmou Verônica, com um brilho travesso nos olhos. — Por isso, Sasha, não o demita. Transfira-o para a ala de acompanhamento de gravidez. Para a filial na periferia da cidade — lá estão faltando mãos.

— Mas eu sou esteta! Cirurgião especializado! — quase uivou Artiom, imaginando filas de gestantes, queixas de enjoos e montanhas de papelada.

— Era esteta, vai ser escrevente — cortou Aleksandr sem piedade. — Por um ano. Sem bônus e sem esperança de promoção. Vai preencher cartões de gestantes e ouvir histórias de azia.

Artiom Denisovich, de cabeça baixa e passos pesados, dirigiu-se à porta, batendo o ombro no batente. Não olhou mais nenhuma vez para qualquer superfície brilhante.

Aleksandr fechou a porta atrás dele, suspirou fundo e sentou-se na beira da mesa diante da mãe. Parecia cansado, mas seus olhos estavam cheios de calor e amor sincero.

— Bom, mãe… você sabe surpreender — balançou a cabeça. — Por que foi logo a ele? Podia ter vindo direto a mim, eu teria indicado o melhor especialista.

— Quis ver como seu pessoal trabalha na “linha de frente” — sorriu Verônica de forma enigmática, abrindo a bolsa. — Em uma coisa aquele grosseirão estava certo: cuidar de netos é algo lindo.

— Mãe, do que você está falando? — Aleksandr franziu a testa. — Eu nem planejo filhos, você sabe.

— Não estou falando dos seus filhos, Sasha — disse ela suavemente. Tirou da bolsa uma folha dobrada e colocou à sua frente.

Era o resultado de um ultrassom, feito naquela mesma manhã em outra clínica, onde ninguém a conhecia.

Aleksandr pegou o papel, correu os olhos pelas linhas. Seu rosto empalideceu num instante.

— Mãe… o que é isso? — sussurrou. — Isso é… seu? Sete a oito semanas? Como é possível…

— Meu — Verônica irradiava felicidade. — E do meu novo marido. Ele, aliás, tem a sua idade. Decidimos que a vida é curta demais para ouvir conselhos sobre kefir.

Aleksandr levou instintivamente a mão ao peito e alcançou o medidor de pressão sobre a mesa. Seu mundo, construído sobre tabelas, normas e protocolos, acabava de desmoronar.

— Mãe… você vai me matar — murmurou. — Achei que tivesse vindo pedir vitaminas, e você… Isso é um risco enorme na sua idade!

— Risco é passar o resto da vida tricotando — levantou-se ela, ajeitando o penteado impecável. — Agora se recompõe.

— Você ainda vai fazer partos da própria mãe — acrescentou, caminhando para a porta. — Você é o melhor médico da cidade, não confio em mais ninguém. E cuidar do irmãozinho ou da irmãzinha também vai ficar por sua conta — porque eu e meu marido planejamos voar para Bali logo após a alta.

Verônica Pavlovna saiu do consultório com passos leves e elásticos, deixando o filho em estado de choque moderado. Sabia que ele daria conta — ela o criara para ser forte.

No corredor, parou por um instante diante do espelho. Não procurava rugas. Olhava nos olhos de uma mulher que sabia uma coisa: riscar a si mesma é o maior erro que se pode cometer na vida.

A caminho da saída, passou por Artiom, que, com expressão sombria, colocava suas coisas em uma caixa. Ele a olhou — já sem deboche, apenas com a dolorosa compreensão de que o mundo é muito mais complexo e surpreendente do que aquilo que está escrito nos manuais de estatística.

Verônica saiu para fora, enchendo os pulmões com o ar fresco. À sua frente havia muitas dificuldades, noites sem dormir e olhares tortos. Mas ela não tinha medo.

Aos cinquenta e dois anos, começava um novo capítulo. E tudo indicava que seria o mais interessante de todos.

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