Igor puxou a boca para o lado, como se de repente uma dor de dente o tivesse atingido. O grito vindo por trás da porta do escritório ficava cada vez mais alto.
— Não brinque comigo! Sei que foi você! — gritou Stepanov, o representante comercial, sua voz cortando o zumbido monótono da máquina de café.
Igor bateu fortemente a pasta cheia de relatórios sobre a mesa. Três meses antes, quando seu pai lhe entregou as chaves do escritório e partiu para “tratamentos de saúde” nas águas termais, Igor pensou que o mais difícil seria lidar com as finanças.
Agora ele tinha que admitir que o mais difícil era lidar com as pessoas.
A equipe herdada era como um pote de aranhas: cada uma pronta para morder a outra.
A porta se abriu com força, e Stepanov se jogou no escritório, o rosto vermelho, brilhando de suor, a gravata desalinhada. Atrás dele entrou a nova faxineira, Tatjana.
Magra, mas com postura firme, rosto pálido e olhar maduro. Trabalhava ali há duas semanas.
— Igor Olegovich, venha imediatamente! — Stepanov apontou para a moça, a voz raivosa e aguda. — Rouba! Cinco mil sumiram da pasta do gerente, pequenas quantias desaparecem da secretária. E ela só anda com o esfregão, como uma cordeirinha!
Tatjana não disse nada. Não chorou, não se defendeu. Apenas ficou lá, olhando Stepanov com um olhar sério e adulto. Um enorme jaleco folgado cobria seu corpo, cabelo preso em coque, rosto sem maquiagem, mãos vermelhas de tanto lavar.
— Tem provas, Viktor Petrovich? — Igor perguntou baixinho.
— Que provas? — gritou Stepanov. — Ela tem acesso a tudo! Quem mais? Nada desapareceu diante dela! Tem que mandá-la embora, agora! Vou chamar a polícia!
— Eu não peguei — respondeu Tatjana, voz grave e um pouco rouca. — Eu estava limpando o escritório quando ninguém estava. Não toquei nas pastas.
— Ela mente sem corar! — gritou Stepanov.
— Voltem ao trabalho — Igor gesticulou, cansado. — Ambos. Eu resolvo isso.
Quando saíram, Igor se aproximou da janela. Lá fora, lama e neve de novembro se misturavam, o tempo era frio como seus pensamentos. Se Tatjana fosse realmente uma ladra, seria horrível.
Se Stepanov apenas quisesse provar que ela deveria ser removida para colocar “seu próprio homem” no lugar, seria ainda pior.
Ele precisava descobrir a verdade. O método era antiquado, sorrateiro, mas eficaz.
Quando o escritório esvaziou à noite, Igor pegou sua carteira. Tirou algumas notas, deixando um canto à mostra de forma despreocupada. Colocou a carteira na borda da enorme mesa de carvalho.
Posicionou a câmera do laptop de forma a mostrar a mesa, desligou o monitor e cobriu o indicador de funcionamento da câmera com fita preta.
— Desculpe, Tatjana — sussurrou para o vazio.
Pela manhã, abriu o laptop com receio. Temia que o que visse destruísse sua fé nas pessoas.
O vídeo carregou. Reprodução acelerada. Escuridão. Então a luz acendeu. Tatjana entrou.
Os olhos de Igor fixaram-se na tela.
Seus movimentos eram rápidos, econômicos. Nada desnecessário. Limpou a poeira dos armários, regou a figueira que estava murchando no canto. Aproximou-se da mesa.
Igor prendeu a respiração.
Tatjana parou. Viu uma carteira. No vídeo, ela suspirou, olhou em volta.
“Não pegue, por favor, não pegue” — Igor rezou mentalmente.
E ela não pegou. Tirou do bolso papel e caneta, escreveu algo rapidamente, depois colocou a carteira — com dois dedos, com desgosto, segurando apenas pela borda — na gaveta da mesa e bateu forte. Colou o bilhete no monitor.
Igor olhou da tela para seu próprio monitor. Um post-it amarelo pendia ali, com letra grande e fluida:
“Armadilha para os tolos. Não se envergonhem. E reguem a figueira com fertilizante, ela logo morrerá.”
O rosto de Igor ficou quente. Suas orelhas ardiam como se alguém tivesse esfregado pimenta nelas. Corou. Era insuportavelmente constrangedor aquela mulher de jaleco azul. Queria expor uma ladra e acabou parecendo um provocador mesquinho.
No horário do almoço, a encontrou no depósito. Tatjana estava sentada em um balde virado, comendo uma maçã. Ao ver o diretor, não se levantou nem entrou em pânico.
— Veio me demitir? — perguntou calmamente.
— Não, vim pedir desculpas.
Tatjana sorriu e mordeu a maçã.
— Teste de fidelidade? Clássico.
— Aqui realmente há furtos, Tatjana. Stepanov pressionou, eu precisava ter certeza. Me desculpe. Fui injusto.
— Foi — ela assentiu. — Mas pelo menos você admitiu seu erro. Stepanov teria apenas jogado a nota no seu bolso.
Igor encostou-se no batente da porta.
— Você entende de plantas? Da figueira?
— Tinha uma estufa em casa… antigamente.
— E agora?
— Agora estou no dormitório, pagando a dívida do tratamento do meu pai há cinco anos.
Não havia reclamação em sua voz. Apenas fatos secos.
— Igor Olegovich — olhou firme. — Procure o culpado entre os seus. Aqueles que sorriem, apertam as mãos.
Uma faxineira roubando é bobagem — primeiro desconfiam de nós. Mas quem se sente dono da casa perde o medo.
Essa conversa motivou Igor a agir. Chamou imediatamente o chefe de segurança e exigiu câmeras escondidas, não só nos escritórios, mas também no corredor, voltadas para os cabideiros.
O ladrão foi capturado três dias depois.
No vídeo que o severo chefe de segurança trouxe, não era Stepanov. Era Demjan Ilitch, o velho advogado da empresa. O homem que trabalhava desde a fundação da companhia.
No vídeo, um homem grisalho olha em volta, revira rapidamente os bolsos do casaco, tira dinheiro e esconde no dedo. Igor sentiu náusea.
Demjan Ilitch se sentou diante dele uma hora depois. Não negou. Apenas se encolheu, tornando-se um velhinho pequeno e infeliz.
— Meu filho está endividado — sussurrou, olhando para o chão.
— Os cobradores ligam, ameaçam, vão tomar o apartamento. Exercem pressão sobre a família. A quantia é enorme… Achei que devolveria rápido… Mas o medo me dominou, Igor Olegovich.
Igor permaneceu em silêncio. Por dentro fervia, mas entendeu: prender o velho só o arruinaria.
— Escreva uma declaração de renúncia — disse Igor rouco. — Por conta própria. A dívida deve ser paga a partir da contabilidade. Com os cobradores… dê o número. A segurança cuidará. Mas não quero mais vê-lo aqui.
Quando a porta se fechou atrás do advogado, Igor sentiu um cansaço selvagem. Desejava calor humano simples, não toda aquela situação.
Procurou Tatjana. Limpava a escada no primeiro andar.
— Tatjana — parou na escada. — Você estava certa. Ela era nossa pessoa.
Tatjana esticou-se, afastou o cabelo da testa.
— Estou feliz que a verdade venceu.
— Tatjana, vamos tomar um café? Não aqui. À noite.
Olhou para suas mãos, vermelhas de água e cloro.
— Não tenho roupa para restaurante, Igor Olegovich. Nem sapatos. Vou trabalhar de tênis.
— Eu também não gosto de restaurantes. Conheço um lugar que faz os melhores chebureks da cidade. Lá ninguém liga para sapatos.
Riram. Pela primeira vez desde que se conheceram. E essa risada rejuvenesceu e deu vida ao rosto dele.
— Cheburek? Com o diretor? Bem, arriscamos.
A partir daí tudo começou. Não anunciaram o relacionamento. Igor simplesmente a levou para casa, caminharam à beira do rio, onde o vento cortava os ossos, mas ainda sentiam calor.
Descobriu que Tatjana era bióloga, sabia latim e sonhava abrir seu próprio jardim botânico. Não tolerava mentiras, hipocrisia.
Ela era real. Viva. Sem máscara.
Mas a felicidade raramente dura quando seu sobrenome é conhecido no meio corporativo.
O pai dele voltou um mês depois. Moreno, magro, duro como sola de sapato velha.
— Jantar no sábado — declarou na porta, sem perguntar sobre o escritório. — Arkadij Voronov vem. Proprietário da rede de depósitos. Assinaremos a fusão. Isso nos leva a nível nacional.
— Que bom, pai.
— Não se anime cedo demais. Voronov impôs condições. Jeito antigo nos negócios. Garantias. Relações familiares. Ele tem uma filha à procura de marido.
Igor congelou.
— O que quer dizer com isso?
— Exatamente. Você se casa comigo. A filha é marcante, mas o dote é suficiente para comprar meia cidade.
— Não — disse Igor baixinho.
O pai virou-se lentamente.
— O que disse?
— Não. Não sou objeto para contrato. E há alguém na minha vida.
— A faxineira? — fez careta o pai. — Stepanov relatou. Você está completamente louco? Você é o herdeiro do império! E ela quem é?
— Humana. Agora você fala como comerciante.
— Então será assim — sua voz gelada. — No jantar de sábado você estará lá. Formal.
Você pedirá a mão da filha de Voronov. Ou na segunda-feira reescrevo o testamento, te demito, e Tatjana… acredite, vou encontrar um jeito de nenhuma empresa contratá-la. Nem para lavar o banheiro.
Igor fechou o punho, as unhas cavando na palma da mão. Conhecia seu pai. Não estava blefando.
— Eu vou — Igor disse entre dentes — Mas só para dizer cara a cara: não.
No restaurante, o ar estava pesado com o cheiro de lírios caros. Arkadij Voronov, homem corpulento, já sentado à mesa. Ao lado, de costas na sala, uma moça de preto.
O pai empurrava Igor com o pé.
— Sorria.
— Boa noite — Igor murmurou.
— Oh, chegou o noivo! — rugiu Voronov. — Sente-se. Conheça minha filha, meu orgulho, Tatjana.
A moça se virou lentamente.
Igor sentiu o chão fugir sob ele.
Era Tatjana. Sua Tatjana. Só que o cabelo não estava preso, caía sobre os ombros, vestido preto caro, que valia um ano de salário de escritório.
— Boa noite, Igor Olegovich — disse ela calmamente. — A figueira sobreviveu?
Igor permaneceu em silêncio. Não sabia se sonhava ou se era zombaria.
O pai deixou o garfo cair, tilintando no prato.
— Eles se conhecem? — arfou o pai.
— Mais do que imagina — sorriu Voronov.
— Minha filha tem caráter peculiar. Disse: “Pai, não vou para um milionário até ver que tipo de pessoa ele é.” Trabalhou como sua faxineira. Eu protestei, ela insistiu. Meu caráter.
Tatjana olhou para Igor. Havia dúvida e medo em seus olhos. Temia que ele não perdoasse.
— Então era um ato? — sussurrou Igor. — Dívida, pai doente, quarto no dormitório?
— Meu pai realmente estava doente — respondeu ela. — Só tratado na Alemanha. Por causa da dívida… queria mostrar que sou humana, não um saco de dinheiro. Igor, você passou no teste.
Você foi o único que não me esmagou. Protegeu a faxineira. Não teve medo de enfrentar seu pai.
Igor lembrou-se do jantar com chebureks. O riso dela. Suas mãos quentes.
— Você mentiu para mim — disse ele.
— Não sobre o mais importante — colocou a mão sobre a dele. — Fui eu mesma. Você também. Não é suficiente?
O pai de Igor, que respirava ofegante, finalmente falou:
— Então… ela é a noiva? — seu rosto se suavizou. — Tatjanka! Que sabedoria! Que perspicácia! Então, Igor, por que está sentado? Beije a noiva!
Igor olhou furioso para o pai, depois para Tatjana. Ela esperou.
— Eu não vou delegar a logística para você — disse sério.
Tatjana se endireitou.
— Mas a figueira do meu escritório vai morrer — continuou Igor, com os cantos da boca tremendo. — E alguém precisa cuidar para que eu não me torne tão frio e seco quanto nossos pais.
Voronov riu, fazendo os copos tilintarem. Tatjana sorriu — com aquele sorriso que aqueceu o coração de Igor mesmo no frio de novembro.
— Combinado — sussurrou ela. — Mas o cheburek ainda é por sua conta.







