Nikolaj caiu da escada na quarta-feira, por volta do meio-dia. Calculou mal a altura, perdeu o equilíbrio na casa nova. A nuca bateu no chão de mármore com um baque surdo, abafado.
O som ecoou até nas paredes. Depois, tudo escureceu.
Só recobrou a consciência um dia depois, no hospital. A cabeça latejava, como se estivesse sendo forçada a se abrir por dentro, mas ele não abriu os olhos — a luz queimava até através das pálpebras fechadas.
A audição, porém, estava aguçada. Aguçada demais.
Do outro lado da porta do quarto, duas pessoas conversavam. Ele as reconheceu imediatamente. Zsanna, a esposa. E Makszim, o diretor executivo do escritório central.
— Chegou em boa hora — disse Makszim em voz baixa, controlada. — Se ele não acordar, em uma semana resolvo a procuração. Transferimos tudo para as minhas contas.
— E se ele acordar? — a voz de Zsanna estava irritada, não assustada, nem hesitante.
— Mesmo assim dá pra encaixar. O importante é não perder tempo.
Nikolaj permaneceu imóvel. Os dedos não obedeciam. O peito subia com dificuldade. Mas uma coisa ele sabia com absoluta clareza: não podia abrir os olhos.
Uma hora depois, um velho amigo, que era médico, foi visitá-lo. Quando ficaram a sós,
Nikolaj moveu os lábios quase imperceptivelmente e sussurrou o pedido necessário. O médico ficou em silêncio por um longo tempo, com o olhar sombrio. Por fim, assentiu devagar.
À noite, Zsanna já sabia: o marido estava em estado vegetativo profundo. Quase nenhuma chance.
Uma semana depois, levaram-no para casa. Colocaram-no no quarto do segundo andar. Zsanna entrou uma vez, fez uma careta e saiu. Nunca mais subiu.
Makszim, por outro lado, aparecia regularmente. Sentavam-se no andar de baixo, bebendo os caros drinques de Nikolaj em copos de cristal. A porta ficava entreaberta, as vozes subiam claramente.
— Vamos passar os negócios para laranjas — disse Makszim. — Em um mês retiramos os ativos.
— Lento demais — estalou a língua Zsanna. — Ele fica ali tempo demais. Não daria pra… ajudar a ir mais rápido?
Makszim riu baixo.
— Não se apresse. Tudo tem que ser legal. Em silêncio.
Nikolaj cerrou os dentes. Por dentro, tudo fervia. Por fora — completo silêncio.
— E as crianças? — perguntou Makszim.
— Jogo na casa da minha mãe. Ou num abrigo — deu de ombros Zsanna. — Tanto faz. Não é problema meu criá-las. Não quero crianças alheias.
Nikita e Sônia. Sete e nove anos. Nikolaj não os via desde a queda. Mas os ouvia. Sônia chorava à noite. Um choro baixo, contido, para que a mãe não escutasse.
A única pessoa que subia todos os dias era Oksana. A faxineira. Trabalhava ali havia quatro anos. Antes, Nikolaj mal a notava. Uma mulher silenciosa, na casa dos quarenta, sempre de avental cinza.
Agora vinha duas vezes por dia. Trocava os curativos, arejava o quarto, ajeitava a coberta. E falava com ele. Não como com um objeto. Como com uma pessoa.
— Senhor Nikolaj Ivanovitch, hoje o tempo está bonito — disse ela uma vez, baixinho. — As crianças estão brincando no quintal. A Sônia está desenhando um desenho para o senhor. Pedi que traga quando terminar.
À tarde, trouxeram uma nova babá. Zsanna contratou por meio de uma agência. Era jovem, cabelo pintado, mascando chiclete, com ar entediado.
À noite, Nikolaj ouviu os passos cuidadosos de Sônia descendo a escada. Depois, a voz aguda da babá:
— Pare! Aonde você vai?
— Ao papai — respondeu a menina, baixinho. — Eu desenhei algo pra ele.
— Não pode. Sua mãe disse que não é pra incomodar.
— Mas ele…
— Ele é um vegetal. Nem entende nada. Volte pro seu quarto e não fique atrapalhando.
Sônia fungou e começou a chorar. Nikolaj fechou o punho sob a coberta. O corpo mal obedecia, mas a raiva quase o rasgava por dentro.
Pouco depois, Oksana entrou. Sentou-se ao lado da cama. Por um tempo, ficou em silêncio.
— Senhor Nikolaj Ivanovitch — disse por fim. — Não sei se o senhor me ouve. Mas vou contar. Seus filhos… são crianças muito boas. Ontem a Sônia me perguntou:
“Titía Oksana, o papai sabe que eu amo ele?” Eu disse que sabia. Aí ela começou a chorar. Disse que tinha medo de ele não ter ouvido.
A voz de Oksana tremeu.
— Nikita não chora. Só fica sentado no quarto, olhando pela janela. Em silêncio. Ele tem sete anos e já aprendeu a se calar. Isso não está certo.
Ela se levantou e foi até a janela.
— Sabe o que o Nikita disse ontem? “Titía Oksana, é verdade que vão nos dar para estranhos?” Ele ouviu a mãe falando ao telefone. Eu não soube o que responder. Menti, disse que não. Mas ele não acreditou.
Virou-se de novo para Nikolaj, imóvel.
— Se o senhor pudesse acordar… nem que fosse um pouco… protegeria eles. Eu sei. Porque é o pai deles. As crianças sentem quando são amadas de verdade. A Sônia me pede toda noite pra trazer os desenhos dela pro senhor. Eu coloco aqui no criado-mudo. Ela acredita que o senhor vê.
Oksana enxugou os olhos com a manga do avental.
— Desculpe. Não devia ter dito isso.
Saiu. Nikolaj encarou o teto. A decisão se formou dentro dele em um único instante.
À noite, ele ligou para o médico. Em quarenta minutos, ele chegou, em silêncio, pela entrada de serviço.
— Há câmeras na casa? — perguntou.
— Há. Instalei o sistema há dois anos. As gravações ficam no servidor do escritório.
— Quem tem acesso?
— Eu e Zsanna. Mas ela não sabe onde fica o servidor. Acha que é só um computador comum.
O médico assentiu.
— Então precisamos agir rápido. Amanhã trago um advogado. Dizemos à Zsanna que é preciso resolver papéis, para o caso de ele… partir. Ela vai morder a isca. Traga o Makszim também. E eles vão contar tudo sozinhos.
Nikolaj sentou-se na cama. As pernas tremiam, mas o sustentavam.
— Tenho uma condição — disse. — Quero que a Oksana esteja aqui quando tudo acabar. Ela é a única que permaneceu humana.
Na manhã seguinte, Zsanna se maquiou de forma chamativa. Makszim chegou às dez. O médico e o advogado, às onze.
Sentaram-se na sala de estar. O advogado espalhou os papéis.
— Senhora Zsanna, se seu marido não acordar, será necessária uma procuração para administrar os bens. Como esposa, a senhora tem esse direito.
— Finalmente — disse Zsanna, pegando a caneta. — Onde eu assino?
— Um momento. Por que a senhora precisa de acesso a todas as contas?
Makszim inclinou-se para frente.
— A empresa precisa ser salva. Se não retirarmos os ativos agora, em um mês tudo desmorona.
— Para onde pretendem retirar?
— Para o exterior. Temporariamente.
O advogado anotou.
— Então pretendem transferir o dinheiro sem o conhecimento de Nikolaj?
— Ele está em coma! — explodiu Zsanna. — Tanto faz pra ele! Nem reconheceria os próprios filhos!
— Aqueles filhos que a senhora quer mandar para um abrigo? — o advogado levantou os olhos.
Zsanna empalideceu. Makszim se levantou de um pulo.
— Como você sabe disso?!
A porta se abriu. Nikolaj entrou. Devagar. Pálido, mas ereto.
Zsanna ficou paralisada. A caneta caiu da mão.
— Kola… você… como?
Nikolaj parou na porta.
— Ouvi tudo. Cada palavra. Por duas semanas. As câmeras gravaram tudo. Todas as conversas. Todas as ameaças contra meus filhos.
Makszim lançou-se em direção à porta. Dois policiais uniformizados bloquearam o caminho. O advogado levantou o telefone.
— A polícia já foi acionada. Falsificação de documentos, fraude, ameaça a menores.
Zsanna caiu no sofá. As mãos tremiam.
— Kola, espera… não foi ideia minha. O Makszim me forçou…
— Chega — disse Nikolaj, em voz baixa. — Você quis descartar meus filhos. Para mim, você não existe mais.
Levaram-nos embora. Ele gritava, ameaçando com advogados e injustiças. Nikolaj não prestou atenção.
Oksana estava parada na porta da cozinha. Ele foi até ela.
— Obrigado — disse. — Por não ficar em silêncio. Por me contar o que estava acontecendo com eles.
Oksana apenas assentiu.
— Onde estão as crianças?
— No jardim. Eu disse que viria um médico, para não assustá-las.
— Chame-as.
Sônia e Nikita entraram devagar. Sônia apertava uma pasta contra o peito, cheia de desenhos. Nikita vinha um passo atrás, com a cabeça baixa.
Quando viram o pai — sentado, vivo — pararam.
— Papai? — sussurrou Sônia. — Você… acordou?
Nikolaj ajoelhou-se e abriu os braços. Sônia correu até ele, enterrou o rosto em seu ombro e começou a soluçar. Nikita ficou parado por um tempo, com os punhos cerrados. Depois deu um passo. Mais um. E também abraçou o pai. Em silêncio.
— Eu não vou a lugar nenhum — disse Nikolaj, baixinho. — Estão ouvindo? A lugar nenhum. Vocês ficam comigo. Sempre.
Sônia chorava. Nikita se calava, mas os ombros tremiam.
Oksana estava encostada na parede, de costas, chorando em silêncio.
Zsanna foi condenada a pena suspensa, por três anos. Makszim pegou três anos de prisão. Nikolaj vendeu metade dos seus negócios. Manteve apenas o suficiente para uma vida tranquila.
As crianças voltaram a rir. Sônia desenhava à noite. Nikita, aos poucos, voltou a falar.
Oksana ficou. Já não como faxineira. Simplesmente ficou. Cuidava. Compreendia mesmo sem palavras.
Nikolaj não fez grandes gestos. Numa noite, quando as crianças já dormiam, disse apenas:
— Fique conosco. Para sempre. Não por gratidão. Só porque com você tudo está no lugar.
Oksana olhou para ele por um longo tempo. Depois assentiu.
Não houve casamento. Casaram-se em silêncio. Pegaram as crianças e viajaram para o mar.
Na casa, nunca mais houve frio. Não havia vozes estranhas. Só havia família. De verdade.







