— Escuta bem, Lena. Tens uma hora. Junta os teus trapos e quero que não reste nenhum vestígio de que alguma vez exististe aqui.
Serguei estava parado no meio da nossa sala alugada, com os braços cruzados sobre o peito. Não gritava. Falava num tom cotidiano, como se estivesse a pedir uma pizza, e não a reduzir a pó sete anos de casamento.
— Seriója, o que te deu? — o saco das compras escorregou-me das mãos. Os ovos partiram-se, a gema espalhou-se pelo chão laminado. — Nós… nós falávamos de um empréstimo imobiliário. Tínhamos planos juntos.
— Falávamos, — assentiu ele, passando com nojo por cima da poça. — Enquanto tu eras uma noiva promissora com uma avó no centro da cidade. E agora quem és tu? A dona de uma choupana a cair aos pedaços no Vale do Lobo?
Aproximou-se, olhando-me de cima. Nos seus olhos não havia raiva, apenas o cálculo frio de uma folha de Excel.
— A tua avó, Varvara Ilínitchna, passou todos para trás. Para o Oleg, um palácio na Avenida Nevsky; para ti, lenha? Ela sabia muito bem quanto valias. Não és nada, Lenka. E eu não sou uma instituição de caridade para sustentar fracassadas.
— Mas eu trabalhei… fiz tudo por esta casa…
— As tuas migalhas só dão para alfinetes, — cortou ele. — Portanto é assim. “Volta para o teu barraco, mendiga!” Hoje vou buscar a Vika da logística. Ela, ao contrário de ti, tem dote.
Quarenta minutos depois eu estava na rua, debaixo de uma chuva miúda. Ao meu lado, uma mala com a roda partida e uma caixa com botas de inverno. Eu tinha trinta e quatro anos.
Não tinha marido, não tinha casa, e no bolso só levava um testamento de uma casa em ruínas a trezentos quilómetros da cidade e um bilhete eletrónico para o próximo comboio.
Oleg, o meu irmão mais velho, nem sequer ligou. Na leitura do testamento estava sentado, satisfeito como um gato empanturrado de natas.
Para ele, um apartamento de três quartos com vista para a catedral; para mim, uma casa no fim do mundo, onde ninguém morava há dez anos.
— Não fiques ressentida, maninha, — atirou ele na altura, rodando as chaves do carro. — Cada um com o seu caminho. O ar puro vai-te fazer bem, e eu preciso de escala. Negócios, percebes?
Os “negócios” do Oleg eram dívidas intermináveis e esquemas que acabavam sempre em desastre. A avó sabia disso. E mesmo assim fez assim. Porquê? Essa pergunta perfurava-me o cérebro enquanto eu sacudia no vagão de terceira classe.
O Vale do Lobo recebeu-me com latidos de cães e o cheiro de folhas apodrecidas. A casa número oito da Rua Zarechnaya parecia um cenário de filme de terror.
O alpendre estava torto, as janelas tapadas com tábuas, a tinta descascada até à madeira cinzenta.
Puxei a porta — abriu-se com um rangido, quase um gemido.
Dentro estava um frio de gelar os ossos. Cheirava a ratos e a papel velho. Acendi a lanterna. No meio do quarto havia uma mesa coberta por uma grossa camada de pó e, ao lado, uma cadeira vienense com o assento afundado.
Sentei-me sem tirar o casaco e chorei. Em silêncio, sem som, deixando apenas que as lágrimas corressem pelo rosto. Avó, porquê? Eu amava-te.
Passei noites ao teu lado quando estavas mal. E o Oleg? Apareceu bêbedo até no velório e perguntou logo pelos documentos do apartamento.
Dormia com o casaco acolchoado, coberta com um cobertor velho.
De manhã, a raiva expulsou a autocomiseração. Não. Eu vou sobreviver. Apesar do Serguei. Apesar do Oleg.
Encontrei um balde enferrujado e um pano no barracão. Tive de ir buscar água ao poço da rua ao lado. Esfregava o chão com fúria, como se estivesse a tentar apagar anos de sujidade da minha vida.
No quarto, uma tábua do chão debaixo da cama parecia estranha. Mexia-se. Fiz alavanca com um pé-de-cabra. Saltou com um estalo.
Por baixo não havia terra, mas um nicho revestido a tijolo. E dentro dele — uma caixa de ferro.
O coração batia tão forte que pulsava nas têmporas. Um tesouro? Ouro?
A caixa não estava trancada. Dentro havia uma pasta com documentos, um caderno grosso de capa de imitação de couro — o diário da avó — e uma carta.
“Minha Lenochka, minha neta querida. Perdoa esta velha intrigante. Sei que agora me amaldiçoas. Mas não havia outro caminho. Oleg é um tolo, teria bebido tudo e arruinado a tua vida também.
E o teu marido… eu vi como ele olhava para o meu apartamento. Como para um pedaço de carne. Se eu o tivesse deixado abertamente para ti, ele teria tirado de ti, ou forçado a vender, e ficado com o dinheiro. Eu queria que visses quem é quem.”
No topo da pasta estava um contrato de doação.
“Doadora: Vasnetsova Varvara Ilínitchna. Donatária: Morozova Elena Aleksandrovna.” O endereço do imóvel estava ali, em preto e branco.
A data era de um mês antes da morte da avó. Registado, carimbado. Abaixo, um extrato bancário. Uma conta em meu nome. Ao ver o valor, sentei-me no chão sujo. Daria para outro apartamento igual e para viver tranquilamente durante dez anos.
— Avó… — sussurrei, apertando os papéis contra o peito.
Ela tinha passado o apartamento para o meu nome ainda em vida. O testamento era só encenação. Uma armadilha para o Oleg. E uma prova para o Serguei.
Nesse momento ouvi o ronco de um motor. Um jipe preto entrou no pátio. Oleg saiu dele, pálido, seguido de dois homens de casacos de couro.
Voltei a esconder a caixa, coloquei a tábua no lugar e empurrei o tapete por cima.
A porta foi arrombada.
— Onde é que ela está?! — berrou Oleg. — Lenka!
Ele tremia à minha frente. Os outros dois varriam o quarto em silêncio.
— Ajuda-me, mana… isto é grave… — gaguejou.
— Os documentos, — disse um dos homens em voz baixa. — O teu irmão pediu-nos uma soma muito grande. Deu a herança como garantia. Só que ela não é dele.
Oleg caiu de joelhos.
— Lenka! Se o apartamento é teu, passa para mim! Eu pago, eu trabalho!
— O apartamento é meu, — disse calmamente.
Fez-se silêncio.
— Então vamos dividir, — um deles deu um passo na minha direção.
— Nem mais um passo, — respondi. — O meu advogado sabe que estou aqui. Se eu desaparecer, as provas vão para as autoridades.
Era um bluff. Mas funcionou.
— És uma mulher dura, — disse finalmente o homem. — Não como o teu irmão.
Levaram o Oleg. A porta do carro bateu, a poeira levantou-se.
Passaram-se três meses.
Não vendi a casa. Pelo contrário, renovei-a. Telhado novo, cerca. O apartamento em São Petersburgo aluguei-o — dava um ótimo rendimento. Fiquei aqui. Em silêncio. A reconstruir-me.
Um dia estava a plantar flores no jardim quando um táxi parou junto ao portão. Serguei saiu, amarrotado, com um ramo de rosas baratas.
— Lenuska! — abriu um sorriso nojento. — Encontrei-te!
— O que queres?
— Voltei para casa. Sei do apartamento. Eu perdoo-te.
Ri-me.
Nesse momento saiu de casa o Mikhail — o meu vizinho, um homem forte, ex-militar, com quem fiz amizade nesses meses. Pousou a mão pesada no meu ombro.
Serguei engoliu em seco.
— Quem é este?
— Esta é a minha vida, Serguei. E tu és o passado.
— Nós não nos divorciámos!
— O apartamento é doação, não entra em partilhas. O dinheiro é herança. Também não se divide. E esta casa é aquele “barraco podre” que tanto desprezaste. Portanto, aqui não tens nada. Nem sequer o direito de estar junto à minha cerca.
Mikhail deu um passo em frente, e Serguei recuou instintivamente.
— Vai-te embora, — disse eu em voz baixa, repetindo a sua entoação de três meses antes. — Esmolas dão-se às sextas-feiras. Hoje é terça-feira.
Enquanto eu entrava em casa, fui recebida pelo cheiro de bolos acabados de fazer e de madeira renovada. Eu sabia: tinha vencido.
A minha avó não me deixou apenas paredes. Deu-me visão.







