Ele Achava Que Eu Iria Reclamar E Aceitar Mas Não Fazia Ideia Do Que Viria

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

— Gáli, agora você é rica! — gritou o primo do outro lado da linha. — A tia Rája deixou para vocês o apartamento de três quartos no centro!

Gáli desligou o telefone, completamente atônita. Apartamento. Próprio. Três quartos. Olhou para o marido. Zsenián, que até então mexia preguiçosamente nos dentes, agora se sentou ereto.

Um brilho assustador, oleoso, acendeu em seus olhos, e Gáli sentiu um arrepio ruim.

E foi esse brilho que ela compreendeu ainda naquela noite.

Mal se sentaram para jantar, o telefone de Zsenián tocou. No viva-voz, ouvia-se a voz da mãe, Júlia Semyonovna: “Zsenián, meu filho! Dê os parabéns à tia Gáli! Oh, você conseguiu! Então amanhã nós, com a Vera e o Tóli, vamos dar uma passada!”

Gáli se afastou um pouco. — Aonde? —

— Aonde mais? No seu apartamento de três quartos! — riu alto a sogra no telefone. — Vamos deixar vazio? Nós dois, eu e Vera, estamos apertados no apartamento de dois quartos.

Tóli vai estudar no centro, Vera trabalha. Vocês usam o quarto pequeno, qual é o problema? Somos família, não somos?”

Zsenián assentiu como um boneco, sorrindo feliz. — Mãe, claro! Só apoiamos! Gáli, o que há de errado? Mãe não dá conselho ruim!

Gáli mal conseguia falar quando os “parentes” apareceram no sábado. Nenhum trouxe nada, apenas “para conferir”. Júlia Semyonovna imediatamente tirou a fita métrica da bolsa e começou a medir as paredes da sala de estar.

— Esta parede sai. Aqui será o quarto do Tóli. Ele vai ser programador, precisa de espaço.

Vera, com os lábios franzidos, já estava junto da janela no quarto. — Eu quero isso. Boa vista. Gáli, tire essas cortinas feias, vou colocar as minhas em bege.

Gáli apenas ficou de boca aberta assistindo ao circo. Dividiram o apartamento dela.

Aquele apartamento do qual ainda se podia sentir o cheiro dos remédios da tia Rája. Zsenián ficou ao lado da mãe, segurando respeitosamente a outra ponta da fita métrica.

— Zsenián! — segurou Gáli o braço dele. — Você enlouqueceu? Este é o meu apartamento! Herança!

Zsenián balançou a mão impacientemente. — Gáli, para. Claro, é seu, mas por que seríamos estranhos aqui? Mãe fala certo, é preciso organizar bem. Por que ficaríamos apertados num alugado pequeno, se há… em você… um apartamento tão grande?

À noite, Gáli ouviu Zsenián se gabando para um amigo: — Sim, três quartos! Centro! Agora sou o chefe da família. Vou colocar a mãe, a Vera, o Tóli. Vamos viver bem! Gáli? Ei, Gáli? Só resmunga, depois se acalma. Para onde ela iria?

— Para onde iria? — essa frase foi a gota d’água. Gáli compreendeu de repente que, para eles, ela não era humana. Ela era uma função. Um aplicativo gratuito de medição de metros quadrados.

A “mudança” estava marcada para o fim de semana seguinte. Gáli ficou calada a semana inteira.

Foi trabalhar, assentiu quando Zsenián descrevia animadamente o tamanho do sofá que comprariam para a sala e como Tóli já havia escolhido sua mesa de computador.

Zsenián e a mãe achavam que “Gáli cedeu, aceitou a vontade deles”.

No sábado, exatamente às dez horas, uma pequena caminhonete parou em frente ao apartamento alugado deles. Dela saíram orgulhosamente Júlia Semyonovna, Vera com uma mala, e Tóli com seu computador.

— Gáli, bem-vinda! Vamos lá! — comandou alto a sogra.

Zsenián, brilhando como um samovar polido, carregou as duas malas escada abaixo. — Gáli, por que está aí parada? Ajuda! Traga as coisas!

Gáli aproximou-se devagar. Estava surpreendentemente calma. — Zsenián. E você, quem é de verdade?

O marido se surpreendeu. — O que há, Gáli? Sou seu marido!

— E o apartamento, de quem é? — perguntou com a mesma voz calma.

— Bem, é seu… — começou inseguro.

— COMUM! — gritou Júlia Semyonovna. — Conquistado no casamento! Pode ser dividido!

— Herança, Júlia Semyonovna, não é patrimônio adquirido. Não pode ser dividido. — Gáli olhou para eles com o sorriso mais frio possível. — E agora, Zsenián, preste atenção. Aqui estão as chaves do apartamento alugado.

Ela tirou o chaveiro do bolso. Zsenián olhou sem entender.

— Acabei de ligar para o dono, Ivan Petrovich — Gáli falou alto, para que todos ouvissem no pátio. — Disse a ele que estamos saindo. Agora mesmo. Não moramos mais aqui.

O rosto de Zsenián começou a mudar lentamente. O sorriso brilhante escorreu dele, como um batom barato.

— O que… o que você está dizendo?

— A verdade, Zsenián. Sua mãe é uma gênio. Acabou de nos tirar não só do nosso futuro apartamento de três quartos, mas também do nosso atual de um quarto. — Gáli jogou as chaves em direção à caminhonete, direto na poeira.

— As coisas no carro? Perfeito. Queriam morar juntos? Espaço apertado, mas sem raiva. Tóli tem computador, Vera tem mala, sua mãe tem fita métrica. Vai ser confortável.

— Gáli! — gritou Zsenián, percebendo a dimensão do desastre. — O que você está fazendo?! Para onde você vai?!

— Eu? Tomar um café. — Gáli estalou os dedos, e cinco minutos depois um táxi amarelo vivo parou ao lado. — Depois vou para o meu próprio apartamento. Entrarei com divórcio. E trocarei as fechaduras.

— Você… você… — Júlia Semyonovna olhou furiosa, engasgando, o rosto púrpura. — Você está destruindo a família!

— A família vocês destruíram. Com a sua fita métrica.

Gáli entrou no carro. A última coisa que viu: Zsenián parado, confuso, entre a mãe, a irmã chorando e os carregadores mal-humorados e sem pagamento.

O divórcio foi rápido. Os amigos de Zsenián zombaram dele por muito tempo: — E aí, chefe da família? Todos vocês caberam no apartamento da mãe?

Gáli fez uma reforma maravilhosa no apartamento de três quartos. Um ano depois, em seu novo apartamento, apareceu um homem elegante com um Mercedes preto.

Quando a amiga perguntou sobre Zsenián, Gáli, ajeitando o cabelo, respondeu com um sorriso sarcástico:

— Ele deve estar feliz. Afinal, ouviu a mãe. E mamãe nunca dá conselho ruim.

Porque, como disse Confúcio: a ganância gera pobreza. No caso de Zsenián, ainda gera um “apartamento-corrido” vitalício.

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