Natália estava limpando o parapeito quando ouviu que o intérprete estava mentindo.
Um jovem, com um blazer elegante e botões lindos, murmurava algo para um senhor árabe idoso. Vassili Sergueievitch, o diretor, recostou-se casualmente na cadeira e olhou para o seu relógio.
Sobre a mesa havia uma pasta grossa – especificações técnicas de tratores, que há dois anos não conseguiam vender.
O xeique perguntou em árabe: — Quanto consome o trator no calor?
O intérprete nem franziu a sobrancelha: — Ele quer saber se é possível pintar as máquinas de vermelho.
Vassili Sergueievitch resmungou: — Pode ser até rosa! Sem problema.
Natália ficou imóvel, com o pano na mão. O xeique assentiu, mas era visível que não entendia a resposta. Ele havia sido enganado, enquanto o intérprete sorria sentado.
Natália não deveria ter falado. Não deveria.
Há dez meses ela esfregava esses pisos por alguns trocados. O peso dos empréstimos pesava sobre ela – pela casa dos pais perdida, que já não existia. Se a expulsassem dali, não teria para onde ir.
Mas também não conseguia ficar em silêncio.
— O consumo é alto — disse em árabe, sem levantar o olhar do cesto. — É o dobro do que está no papel.
No calor, os motores superaquece. A garantia de um ano é insuficiente, esses tratores não são adequados para o clima de vocês.
Seguiu-se um silêncio ensurdecedor.
Vassili Sergueievitch saltou: — Você enlouqueceu?!
O xeique levantou a mão. O diretor silenciou, como se tivesse sido simplesmente apagado.
— Você está falando na minha língua? — olhou para Natália o idoso.
— Falo. Trabalhei cinco anos como intérprete na Argélia. Depois perdi a casa dos meus pais. Não havia dinheiro. Voltei e vim trabalhar aqui.
O xeique olhou para ela por muito tempo, então se voltou para o intérprete: — Você mentiu para mim.
O rapaz abriu a boca: — Eu… só… entendi errado…
— Saia. Agora.
O intérprete pegou sua pasta e saiu correndo sem se despedir. O xeique se voltou para o diretor:
— Vocês queriam me vender algo que não vale tanto dinheiro e nem tecnicamente é adequado. Achavam que eu era um velho tolo que não entendia nada.
Vassili Sergueievitch enxugou a testa: — Não, foi apenas um mal-entendido…
— Isso é fraude. Simples assim. Acabou.
O xeique se levantou. Natália ficou encostada na parede, sentindo que logo seria despejada dali. Por que tinha falado?
Mas o xeique olhou para ela: — Você vem comigo. Preciso de um intérprete honesto. Pago a quem não mente.
No corredor, Vassili Sergueievitch bloqueou o caminho deles: — Natália, você entende o que fez?! Arruinou o meu negócio!
Natália levantou a cabeça: — Vocês tentaram enganá-lo.
— Isso é negócio! Todo mundo faz assim!
— Nem todo mundo.
O rosto do diretor estava vermelho, os punhos cerrados. Natália pensou — agora ele vai bater. Mas o diretor se virou e foi embora, batendo a porta atrás de si.
Na segunda fábrica, o diretor era completamente diferente. Mostrou os documentos com sinceridade, sem embelezar nada. Natália traduziu, conferiu os números, fez perguntas sobre os motores. O xeique observava, assentia, tomava notas.
Quando saíram, o xeique disse: — Esta fábrica é boa. Vou encomendar um lote deles. E vou contratá-la. Abrirei uma representação. Preciso de alguém que entenda de máquinas e diga a verdade.
Natália ficou no estacionamento. Queria responder, mas não conseguia. A garganta estava apertada. Dez meses. Dez meses limpando o chão, comendo pão com chá, em pé no ônibus. Não tirava nada antes de dormir, porque não havia forças.
E este homem devolve a vida a ela.
— Tudo bem — conseguiu dizer. — Tudo bem.
O xeique assentiu:
— Amanhã venha ao hotel. Vamos discutir os detalhes.
Natália pegou o ônibus. Chegou. Subiu ao quarto no quarto andar. Deitou-se na cama e começou a chorar. Silenciosamente, para que o vizinho não ouvisse.
Dois dias depois, chegou uma mensagem de Vassili Sergueievitch: “Natália, venha falar. Urgente.”
Ela foi. Com o novo conjunto comprado com o adiantamento do xeique. O segurança nem a reconheceu: — Natália?
— Oi, Mikhail. Deixe-me entrar.
A secretária, Olga, arregalou os olhos: — Mas você se casou?
— Vim trabalhar. Para o diretor.
— Ele… bem… disse para deixarem você entrar.
Natália entrou no escritório. Vassili Sergueievitch estava sentado à mesa. O rosto inchado, olheiras profundas.
— Sente-se.
— Prefiro ficar em pé.
Ele ficou em silêncio. Esfregou o dorso do nariz.
— Fui chamado de Moscou. O xeique reclamou. Contou como tentamos enganá-lo. Agora vão me demitir. Segunda-feira me chamam ao chefe.
Natália ficou em silêncio. Por dentro tudo ardia, mas manteve o olhar calmo.
— Entenda, não foi por maldade — continuou Vassili Sergueievitch. — O plano falhou. A diretoria pressionou. Precisávamos vender o lote. Pelo menos assim.
— Com fraude.
— Bem… um pouco embelezado… todo mundo faz assim…
— Pagaram-me dez meses por trocados — disse Natália baixinho. — Trabalhei doze horas. Lavei escritório, esfreguei o banheiro. E vocês queriam enriquecer às custas de um idoso que confiava em vocês.
O diretor permaneceu em silêncio.
— Eu também poderia ter mentido — continuou Natália. — Poderia ter ficado quieta. Para não perder meu trabalho. Mas não consegui. Vocês podiam. Agora vivam com isso.
Virou-se e saiu.
Na escada estava o intérprete. Sem blazer, camisa amassada.
— Natál, oi…
— Oi.
— Ouvi que você subiu na vida. Está indo bem. Eu… não consigo trabalho em lugar algum. Dizem que arruinei minha reputação.
Natália parou: — E o que você esperava?
— Bem… pensei… um extra… não achei que seria tão sério…
— Você mentiu para o cliente por dinheiro. Isso é sério.
O rapaz baixou a cabeça. Natália passou por ele.
À noite, estava na cozinha. Sobre a mesa estava o contrato do xeique. Salário. Natália olhou os números e fez as contas. Mais um mês — e o empréstimo estaria totalmente quitado.
O telefone vibrou. Mensagem de Olga, a secretária: “Vassili Sergueievitch foi demitido. Hoje. Não esperaram até segunda-feira. Vieram de Moscou e acertaram tudo imediatamente.
Dizem que o xeique não só reclamou, como enviou carta aos parceiros de toda a região. Agora ninguém quer fazer negócio com nossa fábrica.”
Natália leu a mensagem duas vezes. Levantou-se. Aproximou-se da janela.
Dez meses suportando. Dez meses achando que isso duraria para sempre. Que ela era ninguém. Que seu lugar era limpar o chão e ficar calada.
E bastou um minuto.
Uma única frase.
Para virar tudo de cabeça para baixo.
Abriu o armário. Pegou seu velho avental azul. Aquele que usava para esfregar o chão. Gastado, com mangas manchadas de cloro.
Natália olhou para ele. Então cuidadosamente o dobrou e colocou na caixa da prateleira de cima.
Nunca mais precisará dele.
Amanhã é o primeiro encontro com os parceiros. O primeiro contrato. O primeiro dia no novo emprego.
Não por sorte. Não porque o destino foi generoso.
Mas porque não ficou em silêncio quando viu maldade e fraude.







