No salão de banquetes reinava um calor sufocante, apesar dos aparelhos de ar-condicionado funcionando a toda força. O ar estava impregnado pelo cheiro gorduroso de pato assado e por uma mistura pesada de perfumes caros.
Meu sexagésimo aniversário não parecia uma celebração, mas sim uma reunião corporativa interminável, em que todos esperam o momento em que o chefe finalmente assine a lista de bônus para poderem ir embora.
Eu estava sentada à cabeceira da mesa, costas eretas, disciplinada. O vestido de gala me apertava, mas eu já estava acostumada — durante toda a vida nunca demonstrei quando algo me incomodava.
Sempre lidei com as dificuldades: primeiro com o temperamento do meu marido, depois com os caprichos das minhas filhas, mais tarde com as crises empresariais.
À minha direita estava Igor. Meu marido. Aos sessenta e cinco anos, parecia no máximo ter cinquenta: esportivo, bronzeado, com um corte de cabelo moderno.
O terno lhe caía perfeitamente — não é de se admirar, fui eu mesma quem escolheu o tecido na Itália. Ele girava nervosamente a haste da taça e olhava para o relógio a cada minuto.
À nossa frente estavam sentadas minhas filhas — Ela e Vika. Minhas princesas. Ela, a mais velha, bocejava ostensivamente, cobrindo a boca com a mão para exibir a manicure impecável.
Vika, a mais nova, digitava furiosamente no celular sem levantar os olhos. Minhas tortas de repolho, das quais eu tanto me orgulhava e que assei desde as cinco da manhã, permaneciam intactas diante delas. Preferiam ostras.
— Atenção, por favor! — Igor se levantou e bateu com o garfo na taça de cristal. O som cortou o ar de forma aguda.
Os convidados — parceiros de negócios, “pessoas importantes” da prefeitura, algumas amigas — se calaram.
Debaixo da mesa amassei o guardanapo. A intuição que por trinta anos me ajudara a conduzir os negócios agora disparava um alarme: algo estava muito errado.
— Amigos — começou meu marido, com uma voz excessivamente sonora. — Tamara, hoje é o seu dia. Você construiu um império. É uma mulher forte.
Ele fez uma pausa, tomou um gole de água.
— Mas estou cansado de ser apenas “o marido da Tamara”. Quero viver. Respirar livremente. Por isso… — seu olhar passou por cima da minha cabeça em direção à saída, onde uma jovem hostess estava parada — …vou pedir o divórcio.
Um silêncio petrificado caiu sobre o salão. Alguém deixou cair o garfo. Alguém se engasgou. Lentamente olhei para minhas filhas. Esperava indignação. Que elas me defendessem, a mãe que sacrificara tudo por elas.
Ouviu-se um estalo.
Ela abriu a garrafa de champanhe à sua frente. A rolha caiu dentro da salada Caesar.
— Finalmente, pai! — suspirou alto, aliviada, enquanto servia. — Achei que você nunca teria coragem!
— Parabéns! — acrescentou Vika, largando o telefone. — À liberdade! Mãe, não faça essa cara. Você sempre oprimiu todo mundo. O papai precisa de uma musa, não de uma fiscal.
— Já conversamos sobre tudo, Tamara — disse Igor apressadamente, vendo meu rosto. — As meninas me apoiam.
Vamos dividir o patrimônio conforme a lei. Metade da empresa, a casa, os apartamentos — tudo meio a meio. Eu mereço uma compensação pelos anos que passei à sua sombra.
Olhei para os três e vi estranhos. Durante trinta anos construí essa fortaleza e, ao mesmo tempo, criei estranhos dentro dela. Ela e Vika não me olhavam como mãe, mas como um obstáculo no caminho da herança.
— Então vocês apoiam? — perguntei em voz baixa.
— Mãe, seja realista — Ela fez um gesto de desdém. — O seu tempo acabou. Você está ultrapassada. Dê ao papai o que é dele e vá morar na dacha. Cuide das suas peônias. Vai ser mais fácil para você também.
Algo dentro de mim mudou para sempre. As emoções desapareceram. Restou apenas o cálculo. A mesma lógica fria e clara com que eu fechava negócios deficitários.
— Está bem — disse em voz alta.
Igor piscou, surpreso. Esperava gritos ou ameaças.
— Como assim, está bem?
— Você tem razão. Estou cansada. Sou uma mulher velha, marcada pela vida. Para que preciso desse império?
Inclinei-me para frente e tirei da bolsa uma pasta grossa e pesada.
— Eu me preparei para transferir os negócios. Planejava isso para mais tarde, mas já que surgiu uma ocasião tão apropriada… — coloquei a pasta sobre a mesa. — Aqui estão os documentos. Estou saindo do quadro de fundadores.
Transfiro cem por cento da empresa para vocês três — Igor, Ela e Vika. Levem tudo. Depósitos, lojas, contas.
Os olhos de Igor brilharam. Vika finalmente largou o telefone por completo.
— Tudo? — perguntou Ela, lambendo os lábios. — Inclusive o complexo da rua Lenin?
— Claro — assenti. — Com uma condição. Fazemos isso agora mesmo. O tabelião, Arkádi Lvovitch, está aqui, um velho amigo meu. Ele autentica tudo. Quero sair livremente deste banquete.
— Claro! — Igor já acenava. — Arkasha, venha cá!
Assinaram os papéis ali mesmo na mesa, afastando os pratos. As mãos tremiam de excitação. Viram os títulos: “Contrato de doação de participação societária”,
“Transferência de direito de propriedade”, “Procuração ampla”. Não leram. A ganância embotava a cautela de forma mais eficaz do que qualquer bebida.
— Você também vai transferir o apartamento de três quartos no centro? — perguntou Vika enquanto assinava.
— Está no balanço da empresa — menti sem piscar. — Agora é de vocês.
Quando a última assinatura foi colocada, guardei minha via e me levantei.
— Obrigada, meus queridos. Vocês me libertaram.
— Vai embora, mãe — Ela fez um gesto, brindando com o pai. — Não estrague a festa. Nós vamos discutir aqui o plano de desenvolvimento.
Saí do restaurante. O vento de outono bateu no meu rosto, mas não senti frio. Peguei o telefone, removi o chip. Um clique — e o pequeno pedaço de plástico caiu no lixo.
O trem “Moscou–Adler” seguia em ritmo constante. Eu estava sentada no vagão-leito, bebendo chá no copo com suporte metálico, observando as florestas passarem. Sobre a mesa havia um telefone novo, com um número novo.
Pontualmente às dez horas, ele tocou. Era Igor. Só a ele eu tinha dado o número — “para emergências”.
— Tamara! — ele gritava, de modo que até o fiscal no corredor podia ouvir. — Tamara, o que é tudo isso?!
— Bom dia, Igor. Como está a cabeça? O champanhe estava gelado?
— Que champanhe?! Estamos no banco! As contas foram bloqueadas! Tem uma dívida aqui… doze milhões! E juros!
— Quinze — corrigi calmamente, mordendo um chocolate. — Com os juros já são quinze. Eu disse, Igor, negócios são coisa dura.
— Você nos armou uma cilada! — Ela gritava ao fundo. — Vamos vender os ativos!
— Não vai funcionar — respondi suavemente. — Os ativos estão dados em garantia ao banco. Peguei o empréstimo há meio ano para salvar a empresa depois dos seus investimentos arriscados, Igor.
Lembra? Você disse para eu não me meter. Eu me virei. O empréstimo foi feito com aval dos fundadores.
— Mas a fiadora era você! — ele rosnou.
— Era. Até ontem à noite. Vocês também assinaram a transferência integral das responsabilidades. Letra miúda, cláusula 8.4. Agora a dívida é de vocês.
Solidária. Isso significa que o banco leva não só a empresa, mas também seus carros, a casa de veraneio e o apartamento da Vika.
Silêncio pesado. Só se ouvia a respiração ofegante.
— Por quê? — Igor perguntou em voz baixa. — Somos uma família…
— Família? — sorri amargamente. — Família é quem estende a mão num momento difícil, não quem estoura champanhe para celebrar o divórcio.
— Mamãe… — Vika soluçava. — Vamos desfazer tudo! Volta para casa!
— Não dá, querida. O registro já foi atualizado. E mais uma coisa. A mais importante.
Fiz uma pausa, olhando meu próprio reflexo na janela escura.
— Lembra de 1995? Quando você voltou do trabalho e eu te esperava com um carrinho de bebê?
— E daí? — ele resmungou, desconfiado.
— Eu não dei à luz naquela época. Minha saúde colapsou, os médicos deram um diagnóstico definitivo. Foi uma gravidez psicológica. Busquei as meninas em um abrigo próximo. A mãe delas abriu mão por uma caixa de vodka.
— Você está mentindo… — sussurrou.
— Os documentos estão no cofre. Enviarei a chave pelo correio. Herança importa, Igor. Ontem olhei para vocês: a mesma ganância, o mesmo desejo de tudo de graça. Eu queria criar pessoas. Não consegui. Vocês voltaram à origem.
— Você… você não é humana…
— Sou, sim. Só cansei de sustentar quem apenas desfruta do fruto do trabalho alheio. Alegrem-se, meninas. Agora o negócio é de vocês. Sobrevivam.
Desliguei e bloqueei o número.
Lá fora o sol brilhava. Pela primeira vez em quarenta anos, eu não estava indo a uma viagem de negócios, nem para negociar, nem para cobrar dívidas.
Eu estava indo viver. Para uma pequena casa à beira-mar, em meu nome de solteira — um nome do qual eles já nem se lembravam.







