Júlia ajeitou a alça do vestido verde-esmeralda diante do espelho, examinou criticamente o próprio reflexo e assentiu, satisfeita. Quarenta anos.
Para alguns, um número assustador; para Júlia, significava liberdade, dinheiro e, finalmente, a capacidade de dizer “não” com firmeza.
— Ju, o táxi está esperando — Boris, o marido, colocou a cabeça para fora do corredor. Olhou para a esposa com admiração aberta. — Hoje você está simplesmente um espetáculo. Tem certeza de que não quer chamar ninguém?
— Bori, isso já foi combinado — Júlia pegou a bolsa. — Sem convidados. Sem comida. Sem “corta uma saladinha” e “onde estão meus chinelos”.
Só você, eu, um restaurante caro e silêncio. Quero comer meu bife sem ouvir os conselhos da sua mãe sobre como mastigar corretamente.
Boris riu. Sabia que a relação entre Júlia e Larissa Semionovna lembrava uma guerra fria, em que períodos de silêncio gelado eram substituídos por ataques de artilharia em forma de conselhos não solicitados.
— Combinado. É o seu dia — suas regras.
O restaurante “Pavão Dourado” não foi escolhido por acaso. Era um lugar ostensivo, absurdamente caro, com estuque, cortinas de veludo e preços que causavam tiques nervosos em qualquer pessoa comum.
Exatamente o que era preciso para alguém se sentir a rainha da noite.
Entraram no salão esperando uma mesa aconchegante perto da janela. A recepcionista, com um sorriso largo, conduziu-os para dentro. Só que não até a janela.
— A mesa de vocês está pronta — gorjeou, apontando para o centro do salão.
Júlia parou. Em vez de uma mesa para dois, havia no meio do salão uma “pista de pouso” para doze pessoas. E ela não estava vazia.
Na cabeceira, como uma imperatriz exilada, estava Larissa Semionovna, vestida de lurex. Ao lado dela, o tio Viktor, um parente distante que Júlia via uma vez a cada cinco anos, enfiava caviar diretamente na boca com avidez.
Do outro lado, a cunhada Galya limpava a boca do filho menor com um guardanapo, enquanto o mais velho, um moleque de sete anos, já raspava o estofado da cadeira antiga com o garfo.
— Surpresaaaa! — bradou Larissa Semionovna ao ver o casal paralisado. A voz, treinada por anos de trabalho em repartições públicas, ecoou pelo salão.
O restaurante inteiro se virou. Boris empalideceu e olhou para a esposa. Júlia permaneceu em silêncio, mas em seus olhos brilhou aquela luz sinistra que normalmente significava que alguém iria sofrer em breve. Psicologicamente.
— Mãe? — Boris conseguiu dizer. — O que vocês estão fazendo aqui?
— Como assim o quê? — a mãe bateu palmas, quase derrubando a taça de vinho. — Minha querida nora faz aniversário redondo!
Você não achou que deixaríamos a pobre menina sozinha num dia desses, achou? Somos família! Venham, sentem-se! Já começamos um pouquinho enquanto esperávamos vocês.
Júlia aproximou-se lentamente da mesa. Ela estava abarrotada. Esturjão, iguarias de carne, uma fileira de conhaques caros, ostras que o tio Viktor olhava com desconfiança, mas devorava com o entusiasmo de uma escavadeira.
— Larissa Semionovna — a voz de Júlia estava reta como um monitor cardíaco desligado. — Nós reservamos uma mesa para duas pessoas.
— Ah, não seja ranzinza! — Galya fez um gesto com a mão, servindo-se de vinho. — Mamãe ligou para a recepcionista, disse que a reserva estava errada, que viriam mais pessoas.
Claro que deu um pouco de confusão, mas olha como nos acomodaram bem! Ju, por que você se arrumou tanto? O vestido é aberto nas costas, aos quarenta já convinha ser mais discreta, a pele não é mais pêssego.
— Galya, você tem maionese no queixo — comentou Júlia com um sorriso gelado. — E, ao que vejo, seu filho está prestes a derrubar a molheira no tapete do século XVIII.
O estrondo confirmou suas palavras. O filho de Galya varreu um vaso de flores da mesa.
— Não tem problema! — gritou Larissa Semionovna, abafando o barulho. — Prato quebrado dá sorte! Garçom! Limpem isso e tragam mais daquela salada de caranguejo, estava divina! E tragam também o prato principal!
Júlia sentou-se. Encostou-se em Boris, tentando encolher-se ao tamanho de um átomo. Ele conhecia aquele olhar. Era o olhar do atirador de elite calculando a direção do vento.
— Então vocês queriam uma surpresa — disse Júlia, abrindo o guardanapo.
— Claro! — Larissa Semionovna já estendia a mão para a terceira porção de esturjão.
— Sabemos que você é econômica, quer fazer tudo sozinha. Mas aqui é festa! A família toda reunida! O tio Viktor veio até da região, até pediu folga no trabalho.
— Sou carregador, minhas costas arrebentaram, preciso descansar — mastigou Viktor. — Mas o conhaque aqui é bom, Ju. Não é como aquela porcaria que você serviu no Ano-Novo.
A falta de noção dos convidados crescia exponencialmente. Galya começou a discursar em voz alta sobre como já era hora de Júlia ter filhos,
“porque o relógio não está ticando, já está cucando”, e que carreira é coisa de homem, mulher tem que cozinhar borscht. Larissa Semionovna assentia, enquanto pedia em sequência os itens mais caros do cardápio.
— Eu quero lagosta — declarou ao garçom. — Nunca comi. Para Galya também. E para as crianças, sobremesa, a maior!
— Mãe, isso é muito caro — sussurrou Boris.
— Psiu! — ela o silenciou. — Sua esposa faz jubileu, você tem o direito de abrir a carteira pela sua mãe e sua irmã. Não é todo dia que a gente festeja.
O clímax veio uma hora depois. Larissa Semionovna, corada pelo álcool, levantou-se para brindar. Bateu com o garfo no copo, pedindo silêncio.
— Então, Julinha — começou com uma voz melosa, que tinha mais veneno que a mordida de uma cobra. — Você fez quarenta anos. Sabe, a idade feminina é curta.
Desejo que finalmente você pense não só em si mesma. Olhe para a Galya — três filhos, o marido bebe, é verdade, mas pelo menos é dela, casa, família. E você? Escritórios, academias.
Você é egoísta, Júlia. Mas mesmo assim nós a amamos, porque somos generosos. À família!
— À família! — berrou o tio Viktor.
Galya gargalhou. Boris fechou a mão em punho, prestes a dizer algo, mas Júlia pousou a mão sobre a dele.
Levantou-se devagar. O salão ficou em silêncio. Júlia sorriu, mas foi um sorriso que fez o garçom mais próximo dar um passo instintivo para trás.
— Obrigada, Larissa Semionovna — disse Júlia em voz alta e clara.
— A senhora abriu meus olhos. Eu realmente fui egoísta. Achei que meu aniversário fosse a minha festa. Mas a senhora mostrou que o mais importante é a família.
A sogra assentiu satisfeita, tomando aquilo como capitulação.
— E já que estamos falando de generosidade e surpresas… — Júlia fez uma pausa. — Garçom!
O jovem apareceu imediatamente.
— Por favor, feche a conta.
— Já? — Galya se espantou, enquanto comia a segunda lagosta. — Nem chegamos à sobremesa!
— Comam, meus queridos, comam — disse Júlia gentilmente.
O garçom trouxe uma pasta de couro. Júlia abriu, passou os olhos pela conta. O valor era respeitável — dava para comprar um carro importado usado. Os parentes tinham comido e bebido, em duas horas, o orçamento anual de um pequeno país africano.
— Uau! — Larissa Semionovna inclinou-se sobre a conta e assobiou. — Bom, Bori, tira o cartão. Se é pra festejar, vamos festejar direito!
Júlia fechou a pasta e devolveu ao garçom.
— Meu jovem — disse em voz alta, para que as mesas vizinhas também ouvissem.
— Meu marido e eu temos um orçamento separado deste grupo. Por favor, calcule à parte: duas saladas Caesar, dois steaks ribeye e uma garrafa de água mineral. Isso foi o nosso pedido.
Um silêncio sepulcral caiu sobre a mesa. Dava para ouvir uma mosca zumbindo sobre a carne em gelatina.
— Como assim? — o rosto de Larissa Semionovna ficou manchado de vermelho. — Júlia, você está brincando?
— Nenhuma brincadeira — Júlia tirou o cartão e encostou no terminal que o garçom esperto lhe estendeu. — Bip. Pago.
— Você não pode fazer isso! — gritou Galya. — É o seu aniversário! Você nos convidou!
— Eu? — Júlia arqueou a sobrancelha. — Eu não convidei vocês. Vocês disseram: “Surpresa!”.
Ela se levantou, ajeitou o vestido e olhou de cima para baixo para a sogra.
— Vocês invadiram minha festa sem convite. Pediram pratos que eu não escolhi.
Me humilharam e me ofenderam no meu próprio aniversário. Pois bem, meus queridos. Surpresa é uma coisa maravilhosa. Mas anotem a regra: a surpresa é paga por quem a organiza.
— Bori! — berrou Larissa Semionovna, levando a mão ao coração (truque que praticava havia anos). — Sua esposa enlouqueceu! Vai deixar a própria mãe endividada! Faça alguma coisa! Minha pressão subiu!
Boris levantou-se devagar. Olhou para a mãe, para o tio Viktor, que tentava esconder a garrafa de conhaque meio vazia debaixo da mesa, e para a irmã com as crianças sujas.
— Mãe — disse calmamente. — Júlia está certa. Vocês queriam festa — organizaram. Aproveitem. Nós vamos embora. Parece que ainda temos planos para a noite.
Entrelaçou o braço no de Júlia.
— Ingratos miseráveis! — gritou a sogra, esquecendo a pressão. — Eu amaldiçoo vocês! Que nunca tenham dinheiro! Galya, chama a polícia!
— Não vale a pena chamar a polícia — interrompeu o administrador que se aproximava, um homem imponente com headset no ouvido. Atrás dele, dois seguranças fortes. — Mas a conta precisa ser paga. Integralmente. Agora.
Júlia e Boris seguiram em direção à saída sob gritos e discussões.
— Eu não tenho esse dinheiro! — gritava Galya. — Que o Viktor pague, ele comeu mais!
— Eu?! — indignou-se o tio Viktor. — Eu só provei uma saladinha! Isso tudo foi pedido da sua mãe!
— Como assim, sua mãe?! — urrava Larissa Semionovna.
Ao sair para o ar fresco da noite, Júlia respirou fundo.
— Você está bem? — perguntou Boris, passando o braço por seus ombros.
— Sabe — Júlia sorriu, desta vez sinceramente. — Esse foi o melhor presente de aniversário. Como se eu tivesse tirado uma mochila cheia de tijolos que carregava há dez anos.
— Eles não vão perdoar isso — observou Boris, com meio sorriso.
— Espero muito que não — respondeu Júlia. — Pelo menos agora sabem que a “surpresa” pode voltar.
O telefone de Larissa Semionovna estava na lista negra, mas as notícias chegaram por conhecidos em comum. A retaliação alcançou os “convidados” de forma imediata e cruel. Dinheiro, claro, eles não tinham consigo. O escândalo durou duas horas.
O administrador mostrou-se um homem de princípios. No fim, o tio Viktor teve de deixar seu relógio de ouro como penhor (uma relíquia de família da qual se orgulhava) e assinar uma promissória.
Galya teve de ligar para o marido, que chegou furioso como um demônio e fez um escândalo no estacionamento ao descobrir o valor da dívida.
Descobriu-se que ele juntava esse dinheiro para pneus de inverno e para consertar a transmissão. Agora, Galya teria pela frente um longo e triste período de economia rigorosa.
E Larissa Semionovna? A sogra tentou simular um ataque cardíaco, mas os paramédicos chamados pelo restaurante diagnosticaram apenas intoxicação alcoólica aguda e excesso de comida.
Foi obrigada a esvaziar o “cofrinho” que guardava para um novo casaco de pele.
Mas o mais doce nem foi isso. O mais doce foi que os parentes começaram a se atacar entre si. Galya acusava a mãe de ter incitado todo mundo. A mãe culpava Viktor por ter bebido demais.
Viktor exigia seu relógio de volta. A coalizão “contra Júlia” se desfez e passou a devorar a si mesma.
Júlia estava sentada na cozinha, tomando café e lendo um livro. Em silêncio. O telefone permanecia quieto. Ninguém pedia dinheiro, ninguém dava lições, ninguém exigia amor.
A justiça é um prato que se serve frio. E, de preferência — com conta separada.







