Não Slava A Tua Filha do Primeiro Casamento Nunca Vai Viver no Meu Apartamento

ENTRETENIMENTO

O telefone na mesa tocou pela terceira vez nos últimos cinco minutos. Irina sabia quem ligava sem olhar para a tela. Sua sogra nunca desistia após o primeiro toque.

Atendeu ao telefone.

— Irinácska, querida, onde você está? — A voz de Tamara Petrovna soava doce demais, como se xarope de açúcar escorresse pelo telefone. — Já estamos esperando há meia hora com Misha no cartório! Você se lembra, hoje vamos assinar os papéis do apartamento?

Irina soltou o ar lentamente. Claro que ela lembrava. Como esquecer o dia em que tentaram tirá-la de sua própria casa?

— Tamara Petrovna, eu disse ontem que não vou.

Houve uma pausa momentânea. Curta, mas significativa. Então a voz da sogra se tornou mais dura, como se metal tivesse passado pelo açúcar.

— Irina, não brinque. Isso é para o seu bem! O apartamento vai para o Misha, meu filho, e vocês vão morar juntos. Qual é o problema?

— O problema é que ELE É MEU, — disse Irina calmamente, mas com firmeza. — Foi deixado para mim pelos meus pais. E eu não vou entregar para ninguém.

Ela desligou o telefone sem esperar resposta.

Tudo começou três meses atrás.

Misha voltou de mais uma visita à casa da mãe e sentou-se no sofá. Obviamente queria dizer algo, mas não conseguia. Mexia, ligava e desligava a TV, folheava o celular.

— Queria dizer algo? — perguntou Irina, entrando na sala com uma xícara de chá na mão.

— Nada demais, minha mãe ligou — deu de ombros, sem olhar para ela. — Está preocupada conosco.

— Que gentil da parte dela.

— Sim. Ela disse que deveríamos nos proteger. Só por segurança.

Irina sentiu uma tensão nele. Quando a sogra «se preocupava», nada de bom acontecia.

— Proteger em quê?

Misha finalmente olhou para ela. Seus olhos refletiam culpa e teimosia ao mesmo tempo.

— Bem… quem sabe o que pode acontecer na vida. Divórcios, por exemplo. Minha mãe acha melhor colocar tudo em ordem legal. Para não haver problemas depois.

— Colocar em ordem o quê?

— O apartamento. Passar para meu nome. Afinal, somos casados, qual é a diferença? Assim estará legalmente certo.

Irina colocou a xícara sobre a mesa. Sua mão quase não tremia.

— Então sua mãe está sugerindo que eu te entregue o apartamento que meus pais deixaram para mim. Assim, só para garantir.

— Bem, não exatamente assim… — Misha ficou nervoso. — Afinal, somos família! Este é o nosso apartamento comum. Apenas legalmente será meu. Colocaremos tudo em ordem.

— Que ordem, Misha?

— Ordem normal! — gritou, provavelmente sentindo que a conversa tomava um rumo ruim.

— Minha mãe tem razão! Quem sabe o que pode acontecer! Se você tiver dívidas, pode perder o apartamento! Estarei segura se colocarmos em meu nome!

Irina ficou em silêncio. Pela primeira vez em cinco anos de casamento, ela viu seu marido de verdade. Fraco. Dependente. Manipulável.

— Não — disse baixinho.

— Não o quê?

— Não vou transferir o apartamento.

Ele saltou do sofá.

— Você não confia em mim? Eu sou seu marido!

— Exatamente por isso confio em você, Misha. Mas não arrisco meu próprio apartamento.

Ele saiu, batendo a porta. No dia seguinte começou o verdadeiro ataque.

Tamara Petrovna apareceu todos os dias. Sem avisar. Entrava com suas próprias chaves, como se estivesse em casa, e iniciava o ataque.

— Irinácska, tive uma ideia — disse, ocupando o lugar na cozinha como se fosse a dona da casa. — Você é esperta. Sério, você não entende como a estabilidade é importante para um casal jovem?

Irina lavava a louça em silêncio.

— Veja só. O apartamento é seu. Deus nos livre que algo aconteça com você. Misha ficaria na rua! Seu próprio filho! E tão indefeso! Sabe, sem mim, ele se perderia!

— Tamara Petrovna, se algo acontecesse comigo, de acordo com a lei o apartamento passaria para meu marido — disse Irina, virando-se após lavar a louça. — Então sua preocupação é desnecessária.

A sogra estreitou os lábios.

— De acordo com a lei, de acordo com a lei. Mas e se não for assim? Se aparecerem parentes? Melhor garantir antes!

— Não tenho outros parentes. Você sabe disso.

— Ainda bem! — levantou a mão a sogra. — Pra que você precisa dessa propriedade? Você não é empresária, não é rica. Uma mulher comum. Misha, por outro lado, precisa de garantia para o futuro. Ele é o marido, o chefe da família!

Irina sorriu.

— Um marido que precisa da mãe para assuntos do apartamento? Desculpe, não me convenceu.

O rosto de Tamara Petrovna endureceu.

— Escute, Irina. Digo com boa intenção. Ainda dá para resolver normalmente. Depois já será tarde.

— Isso é uma ameaça?

— Que ameaça? — sorriu doce a sogra. — Só quero o seu bem!

Ela foi embora, mas os ataques não pararam. Agora Misha também entrou na jogada.

Todas as noites começava a mesma canção. Apartamento. Transferência. Estabilidade. Futuro. Filhos que ainda não existiam. Qualquer argumento era usado.

— Afinal, estamos planejando filhos — disse ele deitado no sofá, olhando para o teto. — O que você vai dizer a eles quando crescerem? Que não confiou no pai deles?

— Estou dizendo a verdade. Guardei o que meus pais me deixaram.

— Mas este já não é mais o apartamento dos seus pais! — gritou. — É nosso! Vivemos aqui há cinco anos! Eu fiz a reforma!

— Você colocou apenas dois ganchos no banheiro — respondeu Irina friamente. — Eu paguei a reforma. Com meu próprio dinheiro.

Fez-se silêncio. Mas não por muito tempo.

Uma semana depois, a sogra voltou, agora com uma mulher de terno de negócios.

— Irinácska, conheça! — tagarelou Tamara Petrovna. — Esta é Larisza Vlagyimirovna, advogada. Muito competente! Vai nos explicar todos os papéis da transferência!

Irina ficou na porta do apartamento, observando a dupla. A advogada com um sorriso profissional e papéis na mão.

— Boa tarde. Realmente posso ajudar a preencher os papéis corretamente. Levará pouco tempo — começou a mulher.

— Eu não chamei você — interrompeu Irina. — E não vou fazer nada. Tchau.

Ela fechou a porta na frente delas. A voz indignada da sogra soou dentro, mas Irina apenas foi para a cozinha. Suas mãos tremiam. A ousadia tinha atingido o auge.

À noite, Misha fez um escândalo.

— Você realmente entende que humilhou minha mãe? Ela tentou ajudar, trouxe uma advogada para que tudo ficasse certo!

— Ajudar a tirar meu apartamento.

— Não tirar, mas organizar corretamente!

— Misha, ouça. Sua mãe quer que eu transfira o apartamento para você. Por quê? Fale claramente. Sem histórias sobre estabilidade.

Ele hesitou, confuso.

— Bem, minha mãe acha certo. O homem deve ser o proprietário.

— Por quê?

— Porque… é costume!

— De quem é o costume? Em qual família? Este apartamento foi deixado para mim pelos meus pais! Não por você! Não pela sua mãe! Para mim!

— Mas somos família!

— Família — repetiu Irina. — Certo. Então responda. Por que sua mãe não sugere transferir o apartamento dela para mim? Pela estabilidade da família?

Misha abriu a boca, depois fechou. Obviamente não esperava essa pergunta.

— É diferente — murmurou.

— Diferente em quê?

— Bem, o apartamento dela… ela trabalhou a vida toda por ele!

— Meu apartamento caiu do céu? Meus pais também trabalharam a vida toda! E deixaram para mim! Não para você! Não para sua mãe! Para mim!

Ele não encontrou palavras. Apenas se levantou e foi embora. Naturalmente, para a casa da mãe, onde sempre o compreendiam e o consolavam.

Duas semanas se passaram. Os ataques continuaram. A sogra ligava vinte a trinta vezes por dia. Mandava mensagens. Exigia encontros.

Irina ignorou tudo.

E hoje chegou a mensagem: “Amanhã às dez no cartório. Venha. Resolveremos a questão do apartamento de vez. Misha já concordou.”

Irina não foi. Em vez disso, sentou-se e escreveu uma longa mensagem para o marido.

“Misha. Amo você. Há cinco anos amo você. Mas não vou entregar o apartamento que meus pais deixaram para mim. É a última coisa que me resta. Minha segurança. Minha garantia.

Se você e sua mãe não entendem isso, então não somos família. Família é baseada em confiança. E vocês exigem que eu entregue tudo e fique sem nada. Pense bem. Decida. Mas saiba: minha decisão é final.”

A resposta chegou em uma hora.

“Minha mãe acha que você é egoísta. Uma esposa deve confiar no marido. Não sei quem está certo.”

Irina sorriu. Tudo estava claro.

Ligou para um bom advogado, recomendado por uma amiga. Marcou uma consulta para divórcio. Então pegou todos os documentos do apartamento e os colocou em uma pasta separada.

À noite, Misha apareceu. Com um enorme buquê de rosas e expressão arrependida.

— Desculpe — disse da porta. — Não deveria. Minha mãe exagerou. Vamos esquecer.

Irina olhou para as flores e depois para ele.

— Esquecer? O quê? Que você tentou tirar meu apartamento? Que sua mãe planejou o divórcio adiantado? Ou que você ficou em silêncio enquanto isso acontecia?

— Não fiquei em silêncio! Só… fiquei confuso!

— Confuso depois de cinco anos de casamento, quando teve que escolher entre a mãe e a esposa.

Ela abaixou a mão com o buquê.

— O que você quer de mim?

— Honestidade. Diga claramente. Você veio porque percebeu que estava errado? Ou porque sua mãe disse para tentarmos de novo?

Misha ficou em silêncio. Esse silêncio foi suficiente.

— Vá embora — disse Irina, cansada. — Pegue suas coisas e vá. Para a casa da sua mãe. Onde sempre o compreenderam.

— Sério?

— Totalmente.

Ele ficou parado. Então jogou as flores no chão.

— Você vai se arrepender! Sem mim, você se perde! Fica sozinho com seu precioso apartamento!

— Melhor sozinho no meu próprio apartamento do que com vocês e sua mãe sem nada — respondeu Irina calmamente. — Vá, Misha. Não temos mais nada a dizer.

Ela bateu a porta. Tão forte que o vidro tremeu.

Irina pegou as rosas do chão. O vaso se encheu. Sentou-se à janela com uma xícara de chá.

Uma nova mensagem apareceu no celular, da sogra: “Você vai se arrepender. Meu filho não é como você!”

Irina sorriu e apagou o número. Bloqueou. Definitivamente.

Então pegou a pasta com os documentos do apartamento. Tudo estava no lugar. Certo. Seus pais cuidaram disso. E ela também cuidará da herança deles.

Lá fora, o sol se pôs. O apartamento se encheu de silêncio. Tranquilo. Seu. Seguro.

Irina tomou um gole de chá e, pela primeira vez em três meses, sentiu que podia realmente respirar.

O apartamento permaneceu dela. Como deveria ser.

E de manhã, ela ligará para o advogado e começará sua nova vida. Sua própria vida. Sem manipulações, chantagens ou exigências alheias sobre o que é dela.

A sogra estava certa em uma coisa: ela ficaria sozinha.

Mas essa solidão era melhor do que o medo de perder o último que restava de seus pais.

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