A avó morreu em um novembro frio, quando Alla completou trinta e três anos. Estava doente há muito tempo — câncer de pulmão, estágio quatro.
Os médicos avisaram imediatamente — não havia cura, só poderiam dar analgésicos. Alla sentava-se ao lado de sua cama todas as noites depois do trabalho, segurava sua mão seca e quente, ouvia sua voz fraca.
— Vou deixar um apartamento para você — disse a avó uma semana antes de morrer. — Os papéis estão na parte inferior da cômoda, na gaveta de baixo. Lá está o testamento. Tudo será seu.
— Vovó, não fale assim — Alla enxugou a lágrima.
— O que não falar — a avó sorriu fraco. — Fatos são fatos. Em breve vou embora. E você vai ficar aqui. Um teto sobre sua cabeça. Não perca, querida.
Uma semana depois, a avó morreu silenciosamente, enquanto dormia. Não sofreu. Alla a encontrou de manhã, quando saiu para fazer compras. A avó estava deitada de costas, o rosto tranquilo. Parecia que dormia.
O funeral, os papéis, o cartório. Tudo era uma névoa. Alla fez mecanicamente o que precisava, sem pensar. Só um mês depois, quando recebeu o documento que comprovava o direito à herança, percebeu — o apartamento agora era dela.
Um “stalinka” de dois quartos em um prédio antigo, no centro da cidade, teto alto, piso de madeira. A avó tinha vivido ali toda a vida. Alla cresceu entre aquelas paredes — seus pais trabalhavam até tarde, e a menina ficava com a avó.
Todas as noites, todos os fins de semana. O apartamento se tornou sua segunda casa. Agora era a primeira e única.
Alla conheceu Timofeival dois anos após a morte da avó. Colega do departamento de logística. Alto, magro, de voz baixa, olhar atento.
Em frente ao prédio do escritório, eles se encontraram — Alla só saiu para respirar, estava entediada com o ar do escritório. Timofeival estava sentado no banco, olhando para a rua.
— Cansada? — perguntou, notando Alla.
— Não. Só que estava sufocante lá dentro.
— Entendi — ele assentiu. — Aqui também. O ar-condicionado está quebrado.
Começaram a conversar. Depois se encontraram ainda na lanchonete. Depois Timofeival acompanhou Alla até o metrô. Um mês depois, começaram a namorar oficialmente.
Timofeival parecia perfeito. Calmo, ponderado, não ambicioso, não barulhento.
Após um relacionamento anterior tumultuado — como ar fresco. Não exigia atenção constante, não tinha ciúmes, não fazia cenas. Apenas estava ali. Silencioso, cortês, confiável.
Um ano depois, Timofeival pediu Alla em casamento. Não de joelhos, nem com anel escondido em taça de champanhe. Simplesmente, à noite, na cozinha:
— Alla, vamos nos casar.
— Certo — Alla disse sim sem hesitar.
Casaram-se em um dia comum. Testemunhas do trabalho.
Não houve festa, apenas um pequeno almoço para quatro na cafeteria. Timofeival mudou-se para o apartamento da esposa — antes ele alugava um quarto na periferia, lá seria desconfortável viver. Alla concordou, mas esclareceu imediatamente:
— O apartamento é meu. Segundo o testamento da avó. Você mora aqui, mas a propriedade não é compartilhada.
— Entendi — Timofeival assentiu. — Não vou exigir nada.
— E enquanto eu não permitir, você não registra o endereço aqui — acrescentou Alla. — Este é meu território.
— Certo — o marido aceitou com leveza. — O importante é estarmos juntos.
Os primeiros anos foram tranquilos. Timofeival trabalhava, voltava para casa, assistia TV. Não exigia rearranjo, nem dava conselhos sobre a decoração.
O apartamento permaneceu como nos tempos da avó — móveis antigos, papel de parede desbotado, piso gasto. Alla não queria mudar nada. Cada objeto guardava uma memória.
A mãe de Timofeival, Elvíra Pavlovna, morava em uma pequena cidade a três horas da capital. A cidade era pequena, pouco trabalho, salários baixos.
Ela trabalhava como bibliotecária, ganhando quase nada, em um apartamento de um quarto. A cada dois meses visitava o filho, permanecendo uma semana.
Alla lembrava vagamente da primeira visita. Elvíra Pavlovna chegou com uma enorme bolsa cheia de conservas e picles. Olhou em volta do apartamento e apertou os lábios.
— Tudo antigo. Precisaria renovar.
— Eu gosto assim — respondeu Alla educadamente.
— Viver jovem em estilo antigo é inadequado — sacudiu a cabeça. — Precisa ser moderno.
Alla ouviu. Não explicaria à estranha sobre a avó, que todas as coisas gastas tinham valor.
Elvíra Pavlovna passou a noite. Alla fez a cama na sala. No café da manhã, preparou a mesa, cozinhou mingau de aveia.
— Você não alimenta seu marido? — perguntou, quando Alla saiu para a cozinha.
— Alimenta — Alla franziu a testa. — Mas Timó gosta de omelete, não de mingau.
— O mingau é mais saudável — ofereceu Elvíra Pavlovna. — Precisa se alimentar direito.
Timofeival comeu o mingau silenciosamente, sem protestar. Alla olhou para ele, esperando que dissesse algo — “já estou acostumado com omelete, obrigada, mãe”. Mas ele permaneceu quieto, olhando para o prato.
Uma semana inteira a sogra viveu como se fosse a dona da casa. Cozinhava, limpava, dava conselhos. Alla suportou, contando os dias até sua partida. Quando Elvíra Pavlovna finalmente foi embora, suspirou aliviada.
— Sua mãe vai ficar muito tempo — comentou à noite para o marido.
— Ela se entedia em casa — Timofeival deu de ombros. — Mora sozinha.
— Entendo, mas uma semana — é muito.
— Alla, ela é minha mãe — franziu a testa. — Raramente vem.
— A cada dois meses — corrigiu Alla. — Isso não é raro.
— E daí? — Timofeival não entendia o problema. — Incomoda?
— Não — Alla recuou. — Só estou acostumada ao silêncio.
— Então aguente — o marido voltou à TV.
Alla ficou em silêncio. Não queria discutir.
Elvíra Pavlovna continuou a visitar regularmente. Sempre com bolsas, conservas, conselhos. Contava sobre vizinhos, trabalho, como era difícil viver no interior.
— A aposentadoria é pequena, o salário ridículo — reclamava durante o chá. — Os preços são como em Moscou, mas não há dinheiro.
— Deve ser difícil — Alla concordava educadamente.
— Muito — suspirava a sogra. — A filha de um vizinho mudou-se para Moscou. Levou a mãe junto. Moram juntas. Ela cuida das crianças, ajuda na casa.
— Que bom para ela — Alla respondeu brevemente.
— Outro vizinho registrou sua própria mãe em um lar — continuava a sogra. — Agora ela mora lá. Recebe aposentadoria maior, vários benefícios.
— Entendo — Alla tomava chá.
— Estou pensando nisso também — Elvíra Pavlovna olhou atentamente para a nora. — É bom quando os filhos cuidam dos pais.
Alla ouviu. Entendia a insinuação, mas fingia não entender.
Timofeival falava cada vez mais sobre a mãe. Não reclamava abertamente, mas mencionava problemas.
— Minha mãe foi ao hospital. Filas desde às cinco.
— Por quê? — perguntou Alla enquanto preparava o jantar.
— Precisa de especialista. Poucos horários. Quem chega primeiro, consegue.
— Brutal — Alla balançou a cabeça.
— É o que digo — suspirou Timofeival. — Em Moscou não é assim. Inscreveu online e conseguiu.
— Com endereço em Moscou — corrigiu Alla.
— Sim — assentiu o marido. — Localmente é mais difícil, mas possível.
Alla cortava legumes, em silêncio. Entendia o que ele queria dizer. Mas não respondeu diretamente.
Um mês depois, Timofeival trouxe o assunto novamente:
— Minha mãe recebe aposentadoria. Dez mil por mês.
— Pouco — concordou Alla.
— Muito pouco — assentiu o marido. — Em Moscou seria o dobro.
— Mas para aposentadoria de Moscou é preciso endereço em Moscou — Alla largou a faca e olhou para o marido. — Que ela não tem.
— Esse é o problema — Timofeival desviou o olhar.
— E o que você sugere? — Alla perguntou diretamente.
— Por enquanto, nada — ele deu de ombros. — Só estou dizendo.
Mas o “só falar” continuou. Toda semana uma nova história sobre as dificuldades de Elvíra Pavlovna. Medicamento caro, aumento de contas, atraso de salário. Alla ouvia, assentia, mas não sugeria nada. Esperava que o marido dissesse claramente.
Seis meses se passaram. Timofeival ficava cada vez mais irritado. Resmungava com pequenas coisas, batia portas, saía sem avisar. Alla sentia a tensão, mas ficava calada. Não queria iniciar a conversa.
Elvíra Pavlovna visitou novamente. Ficou agora duas semanas. Alla tentava indicar ao marido que era demais, mas Timofeival não reagia.
— Sua mãe está descansando — disse ele. — Deixe-a aqui.
— Duas semanas não é descanso, é mudança — defendeu Alla.
— Não exagere — o marido deu de ombros.
Elvíra Pavlovna estava na cozinha, bebendo chá, contando sobre conhecidos.
— Lidia Petrova, lembra? Trabalha na biblioteca. A filha se mudou para São Petersburgo, registrou a mãe lá. Agora recebe aposentadoria maior todo mês.
— Que bom para ela — respondeu Alla brevemente.
— Muito bom — assentiu a sogra. — A filha é eficiente. Cuida da mãe.
Alla se levantou e saiu da cozinha. Não queria continuar a conversa.
À noite, Timofeival entrou no quarto. Alla lia na cama.
— Alla, precisamos conversar.
— Sobre o quê? — disse a esposa sem tirar os olhos do livro.
— Sobre minha mãe.
— Sobre minha mãe? — Alla fechou o livro e olhou para ele.
— A vida no interior é difícil — Timofeival sentou-se na beira da cama. — Pouco dinheiro, péssimo atendimento médico, sem perspectivas.
— E o que você sugere? — Alla já sabia, mas queria ouvir.
— Registre-a aqui — disse rapidamente. — Formalmente. Ela pode morar aqui, mas não virá com frequência. E receberá aposentadoria maior.
— Não — Alla respondeu imediatamente.
— Por quê? — o marido franziu a testa.
— Porque este é meu apartamento. Não quero ninguém registrado aqui.
— Alla, ela é minha mãe — Timofeival levantou a voz. — Precisa de ajuda!
— Então ajude com dinheiro — sugeriu Alla. — Transfira todo mês. Ou chame-a aqui, se quiser.
— Aqui? — Timofeival não entendia. — Mas não há espaço suficiente.
— Se registrar, não haverá mais espaço — Alla observou logicamente.
— Mas o endereço é só formal — o marido se confundiu. — Ela não vai abusar.
— E como você sabe? — Alla cruzou os braços. — As pessoas mudam. As situações mudam.
— Minha mãe não é assim — Timofeival se ofendeu.
— Não sei como é sua mãe — Alla respondeu honestamente. — Mal a conheço. Não vou confiar.
— Você não confia em mim? — perguntou Timofeival.
— Nesta questão não há confiança — Alla respondeu firme.
O marido ficou em silêncio. Então de repente se virou e entrou no quarto. Alla ouviu portas de armário batendo, sacolas sendo mexidas. Ele saiu para o corredor com a bolsa.
— O que está fazendo?
— Indo embora — Timofeival não levantou a cabeça.
— Para onde?
— Para minha mãe. No interior.
— Para sempre? — Alla perguntou calmamente.
— Não sei — ele deu de ombros. — Lá vou pensar melhor.
— Certo — Alla assentiu. — Pense.
O marido terminou de arrumar a bolsa, fechou-a. Pegou o casaco, as chaves.
— Então você não vai mudar de ideia? — Alla perguntou na porta.
— Não — a esposa confirmou.
— Mesmo se eu for embora?
— Mesmo assim — Alla reafirmou.
Timofeival olhou longamente para Alla. Abriu a boca, fechou. Tentou falar algo, mas não saiu palavra. Finalmente suspirou e foi para a porta.
— Então agora vou — disse baixinho, mas firmemente.
Alla não se moveu. Apenas ficou na sala, olhando para o quarto escurecido, onde cada móvel guardava memória da avó. O marido saiu, e a porta fechou-se silenciosamente.
A primeira noite sem ele pareceu longa. Alla sentou-se no sofá e olhou pela janela escura para a cidade. Nem a TV nem o livro desviavam sua atenção.
O apartamento estava em silêncio, e agora isso não a oprimia, mas a acalmava.
Dias se passaram. Timofeival não ligou, não mandou mensagem. Alla pagou contas, cozinhou, organizou-se e tentou voltar à rotina habitual.
Tudo estava no lugar, como a avó havia deixado. O apartamento estava silencioso, e isso agora a tranquilizava.
Duas semanas depois, o marido voltou. Não disse nada, apenas deixou as chaves no apartamento e entrou silenciosamente. Alla estava na sala, com o livro na mão. Olhou para ele.
— Pensei melhor — disse Timofeival finalmente. — A vida no interior não é para mim.
— Entendo — Alla assentiu calmamente. — E então?
— Fico aqui. — O homem sentou-se lentamente no sofá. — Com condições.
— Quais? — Alla perguntou.
— Minha mãe não mora aqui e não será registrada — Timofeival foi direto.
— Certo — Alla levantou a mão, como se selasse a decisão. — Então podemos recomeçar.
O marido sorriu levemente. Não houve comemoração barulhenta, nem champanhe, apenas um alívio silencioso. Alla sentiu que o apartamento, a herança da avó e sua decisão firme agora protegiam seu futuro.
E o apartamento voltou a ser o que sempre foi: lar.







