As lâmpadas estavam acesas em todas as janelas. Eu já podia ver desde o portão e corri pelo quintal, deixando minha bolsa para trás.
A porta não estava trancada. No corredor, quatro pares de tênis sujos. Pegadas no piso claro que eu havia lavado ontem. Casacos estranhos no cabide.
A televisão berrava no volume máximo. No sofá, dois adolescentes com bureks gordurosos. Migalhas e respingos de óleo no estofado italiano. Paguei por este sofá por seis meses.
— Anatolij!
Ele saiu do quarto, bocejando. Depois veio sua irmã, Tamara, com muito rímel borrado. No meu roupão novo, que eu ainda não havia usado nenhuma vez.
— Ah, você chegou. Esta é a Tamarka com os filhos dela, vão ficar conosco por enquanto.
— O que significa “ficar conosco”? Pelo menos você me perguntou?
Tamara foi até a cozinha, abriu a geladeira. Pegou meu iogurte, que eu guardava para o café da manhã. Bebeu direto do pote e depois limpou o rosto com as mãos.
— Escuta, Zina, não seja mão de vaca. A casa é enorme, eles podem ficar uma semana. Ou você se importa?
Fui até a varanda. Minhas orquídeas — que cuidei por quatro anos — estavam no chão. Os vasos quebrados, a terra espalhada pelo piso. Perto, uma bola de futebol.
— Quem fez isso?
— Os meninos estavam brincando. — Tamara deu de ombros. — Não grite, plante outras.
Eu tremia. Minha mão se fechou em punho.
— Saiam daqui. Agora.
Anatolij agarrou meus ombros e me virou para ele.
— Zinaida, do que você está falando? Esta é minha irmã!
— Sua irmã. Não é minha. E a casa é minha. Saiam daqui.
O rosto dele escureceu. Os dedos se enterraram nos meus ombros.
— Sabe de uma coisa? Chega desse papo de “minha casa”. Estamos juntos há oito anos, eu moro aqui, tenho direito!
— Que direito? Nos papéis só consta meu nome!
— Não me importo com papéis! — gritou bem no meu rosto. — Estou te dizendo, minha família vai ficar aqui. E ponto.
Na noite seguinte, voltei. No quintal havia um carro com um reboque — o velho “Žigulija” de Tamara. No reboque, caixas, sacos, alguma tralha.
Entrei — no corredor, mais sapatos. Sons estranhos da sala.
A mãe de Anatolij estava sentada na minha poltrona. Ao lado dela, dois homens, irmãos de Tamara.
— Ah, a dona da casa chegou. — A sogra me avaliou. — Zinaida, cadê seu pijama? Precisamos dormir.
— A senhora… o que estão fazendo aqui?
— Estamos vivendo. Anatolij disse que há muitos quartos. Ou é contra nós?
— Contra mim! Não podem simplesmente entrar aqui!
A sogra se levantou e se aproximou de mim.
— Estranha? Se meu filho mora aqui, eu também. Que você pensa?! Abra, a partir de agora moramos aqui! Achou que ficaria na rua? Eu aluguei meu apartamento, recebi o dinheiro adiantado! Então resolva a situação, e pronto!
Comecei a recuar.
— Não. Eu não dei permissão. Anatolij!
Ele saiu da cozinha com uma garrafa de cerveja.
— Mãe, por que grita? Zina, é só temporário, no máximo um mês.
— Um mês?!
— Ou dois. A mãe recebeu dinheiro pelo apartamento enquanto não encontra outro lugar, ela mora aqui. Normal, né?
Tamara esticou a cabeça da cozinha.
— Aliás, fizemos as contas. Se você pegar um empréstimo, vai dar certinho. Tem lugar no mercado, com certeza. Eu devolvo, sem problemas.
— Que empréstimo? Vocês todos combinaram isso?
— Não, nada de combinação. — Anatolij bebeu da garrafa. — Só queremos ajudar, você ajuda. Ou a família não é importante pra você?
— Que família? Estou vendo eles pela primeira vez na vida!
A sogra resfolegou.
— Sempre é assim. Mulheres gananciosas contam o dinheiro, mas esquecem das pessoas. Tá bom, Tolik, venha, mostre o quarto. Não adianta falar com ela.
Eles passaram por mim. Se espalharam pelos quartos. Ligaram todas as TVs.
Fiquei no corredor da minha própria casa, sem entender nada.
Não dormi por três dias. À noite, seis pessoas roncavam na casa. Durante o dia, devoravam minha comida, sujavam os móveis, gritavam, fumavam na varanda. O filho de Tamara jogava no videogame até às três. A sogra cozinhava algo fedido de manhã, deixando as panelas no fogão.
No terceiro dia, voltando do mercado, encontrei Anatolij no meu escritório. Ele vasculhava meus papéis.
— O que você está fazendo?
— Procurando o contrato do terreno. Zina, escuta, sério. Tamara realmente precisa do dinheiro. Vamos ao cartório resolver o empréstimo.
— Não.
— Escuta, chega! — Levantou-se de repente, a cadeira caiu. — Estou com você há oito anos, tenho direito!
— Você não é proprietário. Nos papéis só consta meu nome.
— Não me importo com papéis! — O rosto vermelho, aproximou-se. — Eu moro aqui, tenho direito! E minha família também! E você, Zina, é simplesmente uma vadia gananciosa!
Ele me empurrou com o ombro e saiu. Bateu a porta tão forte que o quadro caiu da parede.
Peguei o quadro. O vidro quebrou.
À noite, levantei para ir ao banheiro. No caminho de volta, vi luz na sala. Espiei — Anatolij e Tamara estavam no sofá com o laptop.
— …digo, ela vai assinar. Zinka, mulher idiota, trabalha feito um cavalo, não entende nada de dinheiro.
— E se ela não assinar?
— Então de outro jeito. Todos já estão registrados aqui, a mãe alugou o apartamento. Mesmo que processe, não podem nos expulsar. Moramos aqui, todo mundo trabalha.
Tamara riu.
— Tolyan, você é um gênio. A mulher trabalha, e nós ficamos bem instalados.
Afastei-me da porta. Voltei para o quarto. Deitei na cama.
Minhas mãos tremiam. Um nó na garganta. Eu queria chorar, quebrar louça, expulsar todos imediatamente.
Mas fiquei em silêncio.
Peguei o celular de Anatolij do criado-mudo. Ele nem colocou senha. Entrei no chat da família.
Li. Rolei para cima. Estava tudo lá.
Como combinaram por três semanas para me enganar com o empréstimo. Como a mãe dele alugou intencionalmente o apartamento para se registrar na minha casa, depois reivindicar parte judicialmente.
Como calcularam quanto eu ganho. Dividiram meu dinheiro. Riram: “Ela nem imagina.”
A sogra escreveu: “Essa mulher idiota que trabalhe, nós vivemos bem.”
Anatolij: “Não aguento de jeito nenhum. Mas a casa seria uma pena perder.”
Tamara: “Força, mano. Mais um pouco, e será nossa.”
Devolvi o telefone.
Fui até a janela. Minha terra lá fora. Minhas estufas. A casa que construí por nove anos. Que comprei com empréstimo, juros loucos. Onde trabalhei dezesseis horas por dia. Pelo que renunciei a tudo.
E agora estranhos estavam dentro, dividindo tudo.
Não.
Isso não vai acontecer.
Acordei cedo. Fiz panquecas. Preparei café. Arrumei a mesa.
Quando Anatolij saiu, sorri.
— Oi. Sente-se, quero conversar.
Ele sentou com cuidado.
— Sobre o quê?
— Sobre o empréstimo. Pensei que poderíamos realmente ajudar Tamara.
Seus olhos se arregalaram.
— Sério?
— Sério. Mas tem um problema. Liguei para o banco, consultei. Por causa dos pagamentos atrasados antigos, não dariam o empréstimo. É necessário que o imóvel esteja apenas em meu nome. Aí eles concedem.
— Lógico… Certo, faça isso.
— Hoje vamos ao cartório. Só você comigo, sem Tamara, para ela não ver o caso. Certo?
Ele assentiu enquanto enchia a panqueca na boca.
Ao meio-dia, estávamos no cartório. O escritório escolhido na periferia da cidade. A cartorária era uma senhora velha e rígida, leu o documento lentamente e com tédio.
— Anatolij Viktorovics, confirma que renuncia voluntariamente a qualquer reivindicação sobre o imóvel localizado em …, sobre o terreno e quaisquer construções anexas, sob quaisquer circunstâncias, incluindo divórcio, divisão do imóvel e outros…
Anatolij bocejou, olhou para o telefone.
— Sim, sim, entendi tudo. Onde assino?
— Aqui, e aqui, em todos os exemplares.
Assinou com amplitude. A cartorária carimbou. Entregou as cópias. Coloquei na bolsa e tranquei.
A caminho de casa, Anatolij falava sem parar.
— Zin, você foi esperta em concordar. Tamarka vai ver, vai se dar melhor. Talvez a gente abra um negócio também, mais um ponto…
Fiquei em silêncio. Olhando pela janela. Peguei o celular na luz do abajur e escrevi para Stepan:
“Hoje. Nove da noite. Com cachorro.”
Ele respondeu imediatamente: “Estarei lá.”
À noite, quando Anatolij foi à casa do amigo, chamei o chaveiro. Veio rápido, trocou todas as fechaduras. Porta da entrada, portão, porta da varanda. Paguei o dobro para que terminasse rápido.
Então recolhi as coisas. As de Anatolij — nos sacos de lixo. Todas as roupas, sapatos, isqueiros idiotas. As coisas de Tamara e da sogra. Os sacos dos irmãos.
Levei para fora da cerca. Trinta e dois sacos.
A sogra saiu da sala.
— O que você está fazendo?
— Recolhendo as coisas de vocês. Saíam.
— O que?! Você perdeu completamente a razão?!
— Saiam. Agora.
A sogra gritou:
— Tamara! Meninos! Venham! Quer me expulsar?!
Todos pularam dos quartos. Tamara nos meus chinelos, crianças com sanduíches nas mãos.
— Zina, do que você está falando? — Tentou sorrir Tamara. — Nós combinamos sobre o empréstimo…
— Não há empréstimo. Levem suas coisas e saiam da minha casa.
— Você não pode nos expulsar! — gritou a sogra. — Estamos registrados aqui! Para onde vamos?!
— É problema seu.
— Vai se ferrar! — A sogra se aproximou, apontou o dedo para mim. — Você vai se arrepender. Vai ficar sozinha. Não vai precisar de ninguém, Zina. Sem homem, você vai se ferrar nesta casa!
— Saia.
Ela cuspiu em mim e saiu.
Tranquei a porta. Encostei-me na nova fechadura.
Dez minutos depois, Anatolij chegou. Ouvi na rua ele gritar:
— Zina! Abra! O que está acontecendo?!
— Levem suas coisas, Anatolij. Aqui está a cópia do documento que você assinou hoje. Renunciou a todos os direitos. Vá embora.
— Eu… amei… estivemos juntos por oito anos!
— Você leu a conversa de vocês com a família? Vocês escreveram: “Não aguento. Mas seria uma pena perder a casa.” Isso não é amor.
— Zin…
— Vá embora, Anatolij.
Ele ficou parado, pegou os sacos e saiu. Stepan estava na rua com o cachorro.
— Se precisar, Zina Pavlovna, não estou longe. Ligue.
— Obrigada, Stepan.
Tranquei o portão. Entrei na casa.
Acendi todas as luzes. Abri as janelas — para ventilar. Recolhi a louça restante, lavei. Limpei as manchas do sofá. Levantei as orquídeas murchas — duas puderam ser salvas.
Percorri toda a casa. Minha casa, que dediquei nove anos.
Deitei na cama. Sozinha, ninguém roncava, ninguém puxava o cobertor.
Fechei os olhos.
Amanhã às seis, entrega. Depois clientes. À noite, rega.
Agora sou dona da minha própria vida.







