— Por que você ainda está de roupão? — a voz de Oleg cortou o ar como metal raspando vidro. — Minha mãe ligou há cinco minutos.
Os vidros já estavam esterilizados, os tomates murchando. Já deveríamos ter saído há meia hora.
Sveta não se virou. Sentou-se à mesa da cozinha, olhando para a superfície escura do café frio.
Nos raios de sol que passavam pelas persianas, partículas de pó dançavam em um vórtice caótico, e aquela visão parecia muito mais significativa para ela do que a pressa do marido.
Oleg estava encostado na porta, em traje de “comando”: jeans desbotado com os joelhos gastos, camiseta velha e a expressão que Sveta chamava de “modo supervisor”.
Ele agitava nervosamente as chaves do carro na mão suada, e o som atingia seus nervos como uma broca de dentista.
— Não vou a lugar nenhum, Oleg — disse Sveta baixinho, mas firme. Finalmente ergueu a cabeça e olhou para o nariz dele. — Fico em casa.
Oleg congelou. As chaves silenciaram. Por um instante, ele parecia confuso, como se a torradeira começasse a falar em chinês.
No mundo dele, onde ele era o capitão e Sveta a marinheira silenciosa, esse tipo de erro não acontecia.
— Como assim? — perguntou, avançando. — “Em casa”? Há três caixas de tomates lá, minha mãe não consegue sozinha. Levante-se e vista-se. Agora.
— Sua mãe não está sozinha — disse Sveta, tomando um gole do café frio e fazendo careta com o amargo. — O marido dela está lá. A filha também. Lenka, se não me engano?
Que ela vá e prepare os tomates. De qualquer forma, os conservas são para ela. E para o marido, que há cinco anos não comprou um vidro, mas sabe apreciar os picles.
O rosto de Oleg ficou roxo de raiva. Ele odiava quando Sveta falava assim da irmã.
Lenka era a vaca sagrada da família: sempre cansada, sempre necessitada, sempre com dois filhos como escudo contra qualquer obrigação.
— Cala a boca — sibiu Oleg, dando um passo até a mesa. O cheiro de desodorante barato e álcool pairava ao redor. — Lenka cuida das crianças. Ela não tem tempo para o jardim.
E você é saudável, não tem filhos, trabalha no escritório e só fica sentada. É difícil ajudar minha mãe? Uma vez por ano, Sveta! Uma vez por ano!
— Uma vez por ano? — Sveta riu, seu sorriso era amargo e cortante. — Em maio plantamos batatas. Em junho, capinei morangos enquanto sua Lenka se bronzeava na espreguiçadeira, porque “tinha pressão alta”.
Em julho, colhemos groselhas. Agora é agosto, e lá estão os tomates. Não assinei contrato para ser trabalhadora na plantação dos seus pais, Oleg. No meu dia de folga, quero deitar. Olhar para o teto. Quero ser deixada em paz.
Oleg bateu a mão na mesa. A xícara pulou, café escuro respingou no pano.
— Você enlouqueceu?! — gritou. — Mora nesta casa! Meus pais deram dinheiro para a entrada! E agora me apresenta uma conta? Eu disse, levante-se!
— Deram? — Sveta se levantou, a cadeira rangeu. O medo que normalmente a paralisava diante da raiva do marido desapareceu, substituído por um peso frio e cansado. — Há cinco anos deram cem mil.
Eu trabalhei dez vezes esse dinheiro na propriedade deles. Lenka ganhou um carro. Só assim. Porque “coitada da Lenuska, é difícil levar as crianças para a escola”. Chega, Oleg. Não vou. Vá sozinho. Faça os vidros você.
Ela tentou sair da cozinha, mas Oleg bloqueou o caminho. Ele era maior, mais pesado, e agora quase preenchia o espaço com sua raiva. Os olhos dele escureceram. Ele estava acostumado a que sua palavra fosse lei.
A pressão podia ser sufocante, mas hoje não funcionava, e isso o desequilibrou. Ele recorreu à única ferramenta que restava: a força física.
Ele segurou o braço de Sveta, apertando firme.
— Não entendeu, idiota?! — rosnou, aproximando-a. — Acha que estou brincando? Minha mãe espera. Meu pai espera. Não vou me explicar que minha esposa enlouqueceu.
— Solta, dói! — ela protestou, tentando puxar o braço.
— Vai doer se eu tiver que te “ensinar” — disse Oleg, encarando seu rosto. Sveta viu a raiva nos olhos dele. — Agora se veste, entra no carro e sorri para minha mãe. Entendeu?
— Não — murmurou.
O “não” acionou algo. Oleg a empurrou para a mesa; Sveta gritou, mas não chorou.
Algo selvagem brilhou nos olhos dele. Ele se aproximou, e gritou tão alto que os vidros tremeram.
— Não me interessa que você não queira ir! Arrume suas coisas e saia agora!
Não era brincadeira. Ele estava sério.
Sveta viu seus punhos fechados — os mesmos que antes instalavam torneiras, agora prontos para “corrigir comportamento errado”. O ar ficou pesado, tenso.
— Você está doente… — sussurrou, recuando.
— Eu disse, agora! — gritou Oleg.
Isso já não era ameaça. Era pressão direta. Sveta instintivamente correu para o corredor, desviando do confronto. Precisava de abrigo. O único lugar com fechadura: o banheiro.
Ela correu, quase escorregou nos azulejos, e fechou a porta. Os dedos estavam desajeitados, mas conseguiu travar o trinco fraco. A porta tremeu sob a força.
— Abra, sua…! — gritou Oleg, mas sem violência direta.
Sveta se encostou na parede fria. Respirava rápido. A maçaneta balançava.
— Oleg, acalma-se! — gritou com voz trêmula. — O que você está fazendo?!
— Estou sóbrio! — gritou novamente, batendo na porta. — Conto até um. Se não sair, não me responsabilizo. Um!
Sveta sabia: ele não estava blefando. A porta podia ceder. Então… ela pegou o telefone no bolso do roupão. A tela acendeu: “Artyom”.
— Dois! — a porta se moveu levemente.
A chamada tocou. Parecia interminável.
— Alô? — a voz do irmão.
— Situação… vem… — ela disse, ofegante. — Oleg enlouqueceu. Quer me levar à força. Tenho medo.
— Trancou-se? — a voz mudou imediatamente.
— Sim. Mas a porta é fraca.
— Entendi. Estou perto. Três minutos. Não abra. Estou indo.
Oleg ouviu.
— Com quem você está falando, idiota?! — gritou. — Que venham então!
A porta cedeu. A dobradiça superior saiu. Oleg ficou no vão.
— Acabou — rosnou.
Ele tentou segurá-la, mas Artyom entrou e a tensão se dissipou, impedindo mais confrontos.
— Entra no carro! — disse Artyom, firme.
Sveta pegou apenas seus documentos. Deixou o anel.
— Você realmente vai? — Oleg gemeu. — Por causa dos tomates?
— Por causa da sua ameaça — ela respondeu.
O telefone da mãe tocava sem parar.
Sveta largou as chaves.
— Faça você. Junto com sua vida.
Eles saíram.
O sol brilhava.
— Para onde? — perguntou Artyom.
— Não sei — disse Sveta. — Mas vamos tomar café. Não terminei o café da manhã.
O carro partiu.
E um tirano ficou para trás, com os malditos tomates.







