Vera estava no corredor, segurando um saco de pão. Do outro lado da porta do quarto, a voz de Antonina Stepânovna ressoava, alegre — completamente diferente do habitual, quando resmungava e exigia a “xícara”.
— Kristina querida, você traz os papéis do cartório na quarta-feira. Está tudo pronto. O importante é que o caipira não descubra nada até lá. Deixe-o trabalhar mais um pouco, depois pode ir para a rua também.
O saco escapou das mãos de Vera. O pão rolou pelo chão. Ela não se abaixou para pegá-lo.
— Tia, você é um gênio! — riu Kristina ao telefone. — Conseguiram acreditar que você não conseguia andar!
— Pois não conseguia mesmo. Exatamente por dois meses. Depois comecei a me levantar — e daí? Por que me cansaria se posso ficar deitada? Deixe que Vera se canse, ela existe exatamente para isso.
Vera encostou-se à parede. O coração batia tão rápido que parecia pulsar nas têmporas.
Quinze anos em internato. Dois anos cuidando daquela mulher idosa. Banho, alimentação com colher, incontáveis trocas de lençóis. Tudo por causa do apartamento prometido.
E tudo era mentira.
Vera entrou no quarto. Antonina Stepânovna estava deitada na cama, com o telefone no ouvido, mas a postura era demasiado confortável. Ao ver a nora, estremeceu e rapidamente se despediu de Kristina.
— Por que você veio tão cedo? — sua voz ficou fraca, doente.
Vera não disse nada, aproximou-se da cama, agachou-se, enfiou a mão debaixo do colchão e puxou a bengala. Velha, de madeira, desgastada.
— Vera, o que você pensa que está fazendo…
— Cala a boca — disse Vera baixinho, colocando a bengala sobre a cama. — Levante-se. Sozinha.
Antonina Stepânovna empalideceu.
— Não consigo. Você enlouqueceu?
— Consegue. Já faz dois meses que consegue. Ouvi tudo. Sobre Kristina, sobre os presentes, sobre eu existir apenas para limpar seu traseiro.
A sogra comprimiu os lábios. Vera viu a luta entre raiva e medo em seu rosto. A raiva venceu.
— E daí? Esse é meu apartamento, dou para quem eu quiser. Pensou que deixaria algo para você, caipira? Você não é ninguém para mim.
— Ninguém — repetiu Vera, a voz calma, mas as mãos tremendo. — Há dois anos eu não era ninguém para você. Quando trocava os lençóis à noite.
Quando gritava comigo por causa da sopa fria. Quando comprava requeijão do meu bolso, só para agradá-la.
— Prometi a você o apartamento!
— Mentiu. Dois anos de mentiras. E eu acreditei, como uma tola.
Vera levantou-se, pegou o telefone e discou. Antonina Stepânovna tentou se sentar, mas Vera estava tão próxima que ela permaneceu imóvel.
— Kristina? Aqui é a Vera. Em uma hora, os pertences da sua tia estarão na frente do prédio, naquela casa velha que ela prometeu a você. E leve-a junto.
Vera desligou.
— O que está fazendo? — Antonina Stepânovna agarrou a bengala, tentando se levantar. Levantou-se, e suas pernas sustentaram-na. — Oleg vai me matar por isso!
— Que tente.
Vera abriu o armário, pegou a mala e começou a colocar os pertences da sogra. Roupões, chinelos, remédios. Tudo o que ela lavava, passava, organizava diariamente.
— Nada ficará com você! — gritou Antonina Stepânovna. — Para fora deste buraco, como uma pobre desgraçada!
— Mas sem você — respondeu Vera, fechando a mala. — Vista-se. Em meia hora você sai.
Antonina Stepânovna agarrou a bengala com as duas mãos.
— Vai se arrepender de ter me tocado.
— Já me arrependi. Devia ter mandado você embora há dois anos.
Vinte minutos depois, Oleg irrompeu. Com o rosto vermelho, a boca torcida. Algum vizinho havia telefonado.
— O que está acontecendo? Minha mãe disse que você a está expulsando!
Vera estava sentada na cama dobrável, olhando pela janela. A mala estava à porta. Antonina Stepânovna sentou-se na cadeira, bengala na mão — em silêncio, lábios apertados.
— Sua mãe me enganou por dois anos — disse Vera, sem se virar. — Fingia ser incapaz, mas já andava sozinha. E deu o apartamento para Kristina. Agora que cuide dela.
— Isso é assunto de família! Você não pode fazer isso!
Vera virou-se.
— Não posso? E quando ia à casa da sua mãe à noite — onde você estava? Quando gritava comigo pela sopa sem sal — o que você fez? Assistiu TV. Agora fique ocupado também.
— Este era meu quarto!
— Era. Agora é meu. Trabalhei aqui, enquanto você vivia sua vida como se não tivesse família.
Vera foi até o armário e jogou a bolsa esportiva para ela.
— Faça as malas. Ou vá embora.
Oleg olhou para a mãe. Antonina Stepânovna estava silenciosa — pela primeira vez em dois anos, não sabia o que dizer. Ele queria explicações, mas ela apenas apertava a bengala e olhava para o chão.
— Mãe, diga! Diga que não é verdade!
— Como? — Vera sorriu. — De outro jeito? Vai contar a ele sobre a bengala debaixo do colchão?
Sobre como você ia sozinha ao banheiro à noite, enquanto eu dormia? Sobre os planos de nos expulsar do apartamento que prometeu a mim?
Antonina Stepânovna levantou-se de repente.
— Vamos, Oleg. Não adianta discutir com essa mulher. Kristina nos levará.
Dez minutos depois, saíram. Vera ficou à janela, observando Oleg levar a mala até o carro que chegava.
Kristina saltou do carro, gritando, acenando. Antonina Stepânovna caminhava devagar, apoiando-se na bengala, mas de costas eretas.
Vera não sentiu nem pena, nem raiva. Apenas vazio, onde antes havia esperança.
Duas semanas depois, Kristina ligou. Vera não bloqueou o número — apenas não atendia. Na quinta chamada, finalmente respondeu.
— O que você quer?
— Precisamos conversar — a voz de Kristina estava tensa, trêmula. — Tia está muito debilitada. Os médicos dizem que teve um AVC real. Precisa de cuidados constantes, e eu não consigo, clientes, negócios…
— Contrate uma cuidadora.
— Não entende, é muito caro! Pagar remédios, médico… Também tenho dívidas…
— Venda o apartamento.
— Qual apartamento?
— Aquele que ela deu a você. Venda e contrate dez cuidadoras, se necessário.
Kristina ficou em silêncio. Depois suspirou.
— Não posso vender. Os papéis… complicados. A tia quer devolver para Oleg, mas o cartório exige sua assinatura, já que você é esposa…
— Não precisa — cortou Vera. — Entreguei o divórcio. Em um mês estará tudo resolvido. Nenhuma assinatura será dada.
— Vera, seja humana! Ela está morrendo!
— Há dois anos, quando a levava ao banheiro — eu também estava morrendo. Devagar. E você? Ocupado demais para me olhar. Agora fique ocupado também.
Vera desligou.
Um mês depois, recebeu os papéis do divórcio — Oleg não compareceu, assinou remotamente. Ela estava sentada no quarto, segurando o documento, observando o selo. Quinze anos de casamento encerrados com um carimbo.
E não se importou.
Guardou o papel na gaveta, pegou o casaco e saiu para a rua.
Não se apressou, caminhou sem rumo, apenas observando ao redor. A cidade cinzenta, fria, mas havia algo reconfortante nessa monotonia. Ninguém a esperava. Ninguém exigia nada. Ninguém mentia.
Na frente da loja próxima ao ponto de ônibus, encontrou Tamara.
— Vera! Você sumiu completamente. Como está?
— Bem.
— Ouvi que se divorciou.
— Sim.
Tamara fez uma pausa, olhando-a.
— E você não está… destruída. Pelo contrário.
— Estou apenas descansando agora.
— Certo. Aquele homem, na hora difícil, — nem era homem de verdade.
Ficaram mais um pouco conversando sobre trabalho, clima. Depois se despediram.
Vera caminhou para casa pensando que Tamara tinha razão. Oleg fugiu assim que a situação ficou desconfortável. Não protegeu, não ajudou, não tentou resolver. Simplesmente desapareceu.
Agora ela lidava com a mãe e Kristina sobre a herança que, na verdade, já não existia.
Uma semana depois, tarde da noite, alguém tocou a campainha. Vera olhou pelo olho mágico. Oleg estava na porta. Sozinho, abatido, ombros caídos.
Ela abriu, sem retirar a corrente.
— O que quer?
— Precisamos conversar.
— Não há o que falar.
— Sua mãe está muito mal. Kristina não quer cuidar. Não consigo. Vera, ajuda…
— Não.
— Entendo, você está com raiva. Mas ela é minha mãe. Idosa, doente…
— Há dois anos não era doente o suficiente para não me enganar. E você não estava ocupado demais para nem olhar para mim? Vão para Kristina. Ela agora é filha e nora de vocês dois.
— Kristina se mudou. Disse que não assinou.
Vera sorriu.
— Ótimo. Então agora vocês dois estão com a mãe. Como eu estive por quinze anos no internato. Apenas eu tinha esperança. Com vocês, nada.
Vera fechou a porta. Oleg ficou parado, depois foi embora lentamente. Seus passos se perderam.
Vera encostou-se à porta, fechou os olhos. Suas mãos tremiam — não de medo, mas de tensão acumulada em dois anos. Lentamente relaxou os dedos, suspirou.
Entrou no quarto, acendeu a luz. Poltrona junto à janela, mesa, cama dobrável.
Tudo igual. O pequeno quarto do internato onde viveu quinze anos. Nada mudara — nem o papel de parede, nem o chão rangente, nem a vista do pátio cinzento.
Mas algo dentro dela mudara.
Vera foi até a janela. Lá embaixo, luzes acesas, janelas vizinhas iluminadas. Em algum lugar preparavam o jantar, em outro assistiam TV, em outro brigavam ou riam. A vida seguia — promessas, mentiras e falsas esperanças ausentes.
No parapeito, um velho ficus em vaso rachado — o mesmo que comprou quinze anos atrás. Folhas verdes, vivas. Crescia naquele espaço apertado, sem reclamar.
Vera passou a mão em uma folha, sorriu.
— Está tudo bem — disse em voz alta. — Vamos sobreviver.
De manhã, o silêncio a despertou. Nem resmungos, nem xícaras pedidas. Apenas silêncio, denso, quase físico.
Vera levantou, lavou-se, vestiu-se. Olhou no espelho. Rosto pálido, fios grisalhos, rugas profundas. Quarenta e dois anos, parecendo mais velha. Dois anos de vida roubada por mentiras.
Mas aqueles dois anos haviam terminado.
Pegou a bolsa, saiu do quarto. Trancou a porta — simples, sem olhar para trás.
Desceu os degraus, saiu para a rua. O vento de novembro bateu no rosto, mas não se abalou. Seguiu até o ponto de ônibus, entrou no coletivo, olhou pela janela.
A cidade despertava. Pessoas apressadas em seus afazeres. Ninguém sabia pelo que ela passou. Ninguém sabia o que perdeu em dois anos, por um apartamento que nunca lhe pertenceu.
Mas isso já não importava.
Vera ia à cantina cuidar do próprio sustento. Um dia comum: panelas, vapor, centenas de porções. Trabalho pesado, dores nas costas, pernas latejando.
Mas era seu trabalho.
À noite, em casa, Vera pegou a gaveta e tirou os papéis do divórcio. Olhou o selo, a data. Depois guardou novamente.
Ninguém bateu à porta. O telefone silencioso. Lá fora, as luzes acesas.
Vera sentou-se na poltrona, abriu seu livro. As páginas sussurravam suavemente. A sala estava quente. O vento lá fora uivava, mas não chegava até ela.
Leu, sentindo a tensão deixar seus ombros, seu pescoço, sua mandíbula. Pela primeira vez em dois anos, simplesmente sentou e não teve que fazer nada. Não precisava escutar resmungos. Não precisava levantar para buscar xícara, remédio, comida.
Apenas vivia.
Lá, na casa velha, Oleg trocava a roupa de cama da mãe e talvez amaldiçoasse o dia em que não protegeu a esposa. Em outro lugar, Kristina calculava gastos de cuidadores e lamentava se envolver com herança alheia.
Em algum canto, Antonina Stepânovna estava na cama, percebendo que ficara completamente sozinha.
E Vera, no apertado quarto do internato, lia seu livro, sem se arrepender de nada.
Dois anos de ganância e mentiras.
Mas o resto da vida era só dela.







