— O teu chá continua horrível, Svetlana. Parece erva seca. E ainda por cima nesses saquinhos baratos… igualzinho aos das cantinas de fábrica.
Marina Vitalievna pronunciou aquelas palavras do modo que só ela sabia: como se estivesse a declarar um facto incontestável e, ao mesmo tempo, a demonstrar uma piedade compassiva pela vida medíocre dos outros.
Estava sentada na cozinha de Svetlana, à mesa de vidro impecavelmente limpa, segurando a chávena de porcelana cara com dois dedos, o mindinho levantado, como se estivesse a fazer um enorme favor tanto à chávena quanto à anfitriã.
O raio de sol que entrava pela janela cintilava nos seus cabelos cuidadosamente moldados, tingidos de um tom de beringela.
Svetlana, em silêncio, encheu um copo de água do filtro. Sabia que o chá era apenas o começo. Sempre fora assim. Uma espécie de prelúdio, um ataque pequeno e disfarçado de inocência, antes de chegar ao ponto principal.
A sogra nunca aparecia sem motivo. Cada visita era uma missão, cujo objetivo era obter algum benefício: superioridade moral, vantagem financeira ou, na maioria das vezes, ambos ao mesmo tempo.
— Claro que não se compara ao vosso samovar e ao chá de folhas soltas — respondeu Svetlana com calma, sentando-se em frente dela. Não sorriu. Apenas observou.
— Pois é — concordou Marina Vitalievna, satisfeita, dando um gole naquela “erva”. — As tradições estão a desaparecer. Já ninguém valoriza o que é verdadeiro. Vês? Até o meu Lioshka mudou completamente.
Antes comia a comida da mãe — as sopas, o borscht. E agora? Encomendam pizza, e isso é o jantar. Está a arruinar o estômago.
Lançou um olhar acusador a Svetlana, como se fosse ela quem envenenasse pessoalmente o conteúdo de cada caixa de pizza. Svetlana permaneceu em silêncio.
Não era a primeira vez que ouvia aquela acusação sobre a suposta destruição culinária do marido. Aquela era a segunda parte obrigatória do ritual: uma enxurrada de queixas sobre como o filho vivia mal com aquela mulher.
Marina Vitalievna suspirou fundo, pousou a chávena e começou a examinar a sua manicure impecável.
— É difícil, Svetlochka, viver apenas com a pensão. A pessoa trabalha a vida inteira, dá o corpo ao manifesto, e o que sobra? Tostões. Dá apenas para medicamentos e contas.
Mas a gente ainda quer… viver. Como gente. Ver o mundo. A minha vizinha, Liudotchka, já vai pela terceira vez à Turquia. E eu sou menos do que ela em quê?
Svetlana sentiu o ar da cozinha ficar mais pesado. Aproximavam-se do clímax.
— A Turquia é um lugar bonito — comentou num tom neutro. — O clima é bom.
— Maravilhoso! — a sogra agarrou a deixa de imediato, inclinando-se para a frente. Um brilho ganancioso surgiu-lhe nos olhos.
— O hotel também é fabuloso, tudo incluído! As minhas amigas todas vão. Já estávamos quase prontas para fazer as malas… Só há um pequeno problema.
Fez uma pausa dramática.
— Falta um pouco de dinheiro. Não é muito. Cem mil. Tu és uma rapariga inteligente, Svetlochka. Ganhas bem, o meu Lioshka também não passa necessidades. Não vão negar ajuda a uma mãe, pois não? À mãe do teu marido?
Olhou para Svetlana com aquela mistura conhecida de súplica e exigência que Svetlana mais detestava nela. No olhar estava a mensagem implícita: “Diz que sim, e talvez te deixe em paz — por algum tempo”.
Svetlana bebeu um gole de água lentamente.
— Marina Vitalievna, eu compreendo-a. Mas neste momento não podemos ajudar. Temos despesas grandes à vista, todo o nosso dinheiro já está contado.
No rosto da sogra não se mexeu um único músculo. Lentamente, recostou-se na cadeira.
A máscara da velha frágil caiu de imediato. A gentileza queixosa evaporou-se, dando lugar a algo afiado, predador, que normalmente ela escondia atrás dos suspiros. Os olhos estreitaram-se, os lábios curvaram-se para baixo.
— Entendo — sibilou. — Era exatamente isso que eu esperava de ti. És mesquinha. Sempre foste. Pensas que o Lioshka não vai saber como humilhaste a mãe dele?
Por causa de uma ninharia dessas! Ele não vai permitir que maltratem a mãe. Vamos ver como vais cantar quando ele tiver de escolher.
A ameaça pairou na cozinha, densa e venenosa. Svetlana esperava por aquilo. Sabia que, por trás da máscara de lamentações, estava aquele mecanismo simples, mas aperfeiçoado ao longo dos anos: a chantagem.
Outra pessoa talvez se assustasse, tentasse justificar-se ou negociar. Svetlana, porém, apenas esboçou um leve sorriso. Um sorriso frio e cortante.
— Escolher? — perguntou com tranquilidade. — A senhora acha mesmo, Marina Vitalievna, que nesta situação será o Aleksêi a decidir?
A sogra franziu a testa. Não esperava por aquilo.
— Quem mais? — retrucou, irritada. — Ele é meu filho! Ama-me e respeita-me! Quando eu lhe contar que tipo de esposa sem coração ele tem, que deixaria a mãe na miséria, ele vai refletir. Vou abrir-lhe os olhos.
Vou dizer-lhe o quanto tu não o valorizas, o quanto a família dele não significa nada para ti. Ele nunca abandonou a mãe.
Svetlana ouviu tudo até ao fim. Não interrompeu. Quando Marina Vitalievna terminou, Svetlana levantou-se devagar. Já não estava sentada à frente dela. Estava de pé, acima dela. Essa pequena mudança alterou tudo.
— Se precisa de dinheiro, vá e ganhe-o — disse em voz baixa, mas firme.
— Não me chantageie dizendo que vai virar o seu filho contra mim. Se o Aleksêi é tão facilmente manipulável, então eu não preciso de um marido assim.
As palavras atingiram o alvo com precisão. Não era uma discussão. Era uma sentença. Marina Vitalievna ficou imóvel. No mundo dela, aquilo não podia acontecer. As pessoas tinham medo dela; não lhe diziam não.
Svetlana não esperou resposta. Foi até ao hall de entrada, abriu a porta e escancarou-a.
— Pode começar agora mesmo — acrescentou friamente. — Ligue ao Aleksêi. Conte-lhe tudo. Adeus.
Marina Vitalievna passou por ela com o rosto vermelho. Já na escada do prédio, virou-se uma última vez.
— Ainda te vais arrepender — sussurrou com veneno.
Svetlana fechou a porta. O clique suave da fechadura tornou a decisão definitiva.
Marina Vitalievna ficou do lado de fora, com a mão trémula, tirou o telefone e ligou para o filho. Aleksêi estava no trabalho e, ao ouvir a voz da mãe, embargada de choro, partiu imediatamente. Não perguntou nada. Não refletiu.
Quando entrou abruptamente no apartamento, o rosto mostrava raiva e ofensa. Svetlana estava sentada na sala, com um livro no colo. Levantou os olhos. Não tinha medo.
— Como pudeste fazer isso? — perguntou Aleksêi. — À minha mãe! Expulsaste-a!
Svetlana ficou em silêncio.
— Vais ligar para ela agora mesmo e pedir desculpas — ordenou. — Agora mesmo!
Svetlana pousou o livro devagar.
— Não perguntaste o que aconteceu — disse em voz baixa. — Já decidiste.
— Porque a mãe contou a verdade!
— A verdade dela — respondeu Svetlana. — E tu escolheste-a.
Levantou-se e olhou para ele. Nos seus olhos não havia raiva. Apenas definitividade.
— Ela exigiu dinheiro, ameaçando a nossa família. Disse-lhe que, se tu fosses cúmplice disso, não haveria mais conversa. Eu tinha razão.
Aleksêi não encontrou palavras.
Svetlana trouxe uma pequena mala.
— A chave fica em cima da mesa. Adeus, Aleksêi.
Saiu. A porta fechou-se. Desta vez, para sempre.
Aleksêi ficou sozinho no silêncio e só então percebeu que tinha vencido a batalha ao lado da mãe — e, ao mesmo tempo, perdido tudo.







