No Natal, sempre senti que cada segundo do ano ficava mais encantado.
O brilho das luzes, o cheiro do pão de mel, o aroma do pinheiro recém-cortado e, claro, a visão das meias cheias de presentes criavam um clima especial que me fascinava todos os anos. Mas neste ano, a magia simplesmente desapareceu.
Meu pai se casou novamente há alguns meses, e a nova esposa dele, Melanie, fez questão de me fazer sentir como uma estranha dentro da minha própria casa.
Ela não era abertamente cruel como as madrastas dos filmes, mas tinha um talento especial para destruir a autoestima de alguém com um sorriso doce demais.
“Ah, Anna, é isso mesmo que você vai vestir? Eu pensaria melhor…” ou “Tenho certeza de que seu pai está te mimando de novo. Ele sempre faz isso, não é? Mas um dia isso acaba.”
E o pior era o tom açucarado com que ela dizia tudo, capaz de embrulhar meu estômago instantaneamente.
Mesmo assim, eu ficava em silêncio, por causa do meu pai. Ele parecia tão feliz, e eu não queria estragar isso. Minha mãe morreu há dez anos, quando eu tinha apenas sete.
Prometi a mim mesma que suportaria Melanie, pelo menos por ele.
Durante anos fomos só nós dois, e se Melanie fazia com que ele se sentisse menos sozinho, talvez valesse a pena.
Foi isso que pensei, até uma semana antes do Natal. A partir dali, tudo mudou.
Numa noite, meu pai me chamou de lado, com uma expressão estranhamente séria e ao mesmo tempo leve.
“Anna”, disse ele, estendendo uma caixa embrulhada em papel dourado, com uma fita vermelha de veludo. “Este ano tem algo realmente especial para você.”
A caixa era linda, parecia saída de um filme natalino. Eu quis abrir na hora.
“O que é, pai?” perguntei, com os olhos arregalados.
Ele sorriu, mas havia algo diferente em seu olhar, algo difícil de definir.
“É uma surpresa, minha pequena”, respondeu. “Mas preciso que você me prometa uma coisa.”
“Tudo bem… o quê?”
“Não abra antes da manhã de Natal”, disse ele.
Entregou a caixa com cuidado, como se fosse frágil.
“Coloque debaixo da árvore e pense em mim quando olhar para ela. Vou viajar a trabalho, mas te ligo de manhã. E assim que puder, volto.”
Assenti.
“Prometo que vou esperar”, falei, sorrindo.
“Boa menina”, disse ele. “Isso é importante para mim.”
As palavras ficaram suspensas no ar. Por um instante, ele pareceu triste. Ou talvez inseguro. Depois, beijou minha testa, disse que me amava e subiu para arrumar as coisas.
Na manhã seguinte, dia de Natal, acordei cedo, pronta para começar o dia. Mas então lembrei que meu pai não estaria em casa. O café da manhã seria apenas eu e Melanie.
Ela estava sentada na cozinha, tomando café, raspando a colher no iogurte com granola de forma irritante.
“Vamos, Anna”, pensei, jogando o cobertor de lado. “O presente do papai está te esperando.”
A casa estava silenciosa, exceto pelos sons baixos vindos do andar de baixo.
“Ela já acordou”, murmurei.
Saí da cama com cuidado, as meias deslizando sem fazer barulho no chão. Não queria chamar atenção; Melanie certamente faria algum comentário ácido logo cedo.
E então vi: ajoelhada diante da árvore de Natal, como alguém em missão, estava Melanie. O meu presente, aquele que meu pai tinha pedido explicitamente para eu não tocar, estava nas mãos dela.
“Bom dia, Anna”, disse sem se virar, com uma voz doce e fria ao mesmo tempo. “Feliz Natal.”
“O que você está fazendo, Melanie?” Minha garganta apertou. “Esse presente é meu!”
Ela se virou, segurando a caixa como se fosse dela.
“Ah, querida”, falou com uma risadinha, embora o olhar fosse duro. “Seu pai sempre exagera com você. Vamos ver se desta vez ele comprou algo realmente útil. Útil para mim, entende? Você não se importa, certo? Acho que não.”
“Melanie, não!” gritei. “Por favor! O papai disse que era para eu abrir só no Natal, e eu… por favor! Isso é especial! É meu!”
“Ah, por favor”, respondeu, dispensando-me com a mão bem cuidada. “Você não merece nem metade das coisas que seu pai te dá, Anna. Finge ser um anjinho quando ele está por perto, mas no fundo é só uma menina mimada.”
As palavras me cortaram fundo, e antes que eu pudesse responder, ela puxou a fita vermelha. Meu ar sumiu.
“Melanie! Para! Por favor!”
Ela revirou os olhos e continuou, o som do papel rasgando ecoando pela sala silenciosa. Jogou o embrulho no chão como lixo e levantou a tampa da caixa.
Então, congelou.
O sorriso arrogante desapareceu, substituído por uma expressão pálida e assustada.
Aproximei-me para ver o que havia ali dentro.
Uma caixinha de veludo preto para anel e um envelope dobrado. O nome dela estava escrito na frente, com a letra do meu pai.
As mãos dela tremiam enquanto pegava o envelope. Rasgou o lacre e puxou a carta. Observei enquanto lia, os lábios trêmulos.
“Melanie”, leu em voz alta, com a voz instável. “Se você está lendo isto, significa que fez exatamente o que eu temia. Ouvi sua conversa com minha irmã na semana passada.
Sobre ficar com o presente da Anna. Pensei em confrontá-la, mas quis te dar uma chance de provar que eu estava errado. Em vez disso, confirmou todos os meus medos.”
Ela ergueu o olhar para mim, o rosto sem cor.
“É só isso?” perguntei, sem perceber que falava em voz alta.
Os olhos dela voltaram para a carta, e ela assentiu.
“Você machucou minha filha e agora cruzou o limite. Considere esta carta como minha despedida. Feliz Natal.”
Ela deixou o papel cair, como se queimasse. Com mãos trêmulas, abriu a caixinha de veludo. Dentro estava o anel de noivado. O mesmo com o qual meu pai pediu Melanie em casamento.
Mas aquele anel nunca foi realmente dela. Pertenceu à minha avó, e sempre foi algo que eu amei. Só que, depois que meu pai o deu a Melanie, achei que nunca seria meu.
Nunca, até agora.
A sala ficou em silêncio; as músicas de Natal pareciam ter sumido. Eu permaneci parada, em choque e com uma estranha sensação de alívio.
Então, a porta se abriu.
Melanie se virou.
“Greg?”
“Pai!”
Meu pai estava na entrada, segurando uma bolsa. Parecia calmo demais. Como se soubesse exatamente o que encontraria.
Como se tudo tivesse sido planejado. E tinha sido. Ele escreveu a carta. Mas quando começou a perceber como Melanie me tratava? Eu tentei tanto esconder isso.
“Pensei que você estivesse viajando”, balbuciou ela.
“Não estava”, respondeu simplesmente.
Entrou e fechou a porta atrás de si.
“Eu quis ver pessoalmente. Sabia que Anna se sentia diminuída por você. Observei e ouvi você por um tempo, Melanie. Pensei que talvez melhorasse. Que você só estivesse se adaptando.”
“Greg, não é o que parece…” tentou justificar-se.
“É exatamente o que parece”, interrompeu ele. “Eu te dei uma chance. Quis acreditar em você. Mas você errou.”
“Por favor”, sussurrou. “Eu não quis… Greg, eu amo esse anel…”
“Eu sei. Mas Anna também ama. Falei com minha mãe, e ela me contou que Anna sempre sonhou com ele. Chega. Confiei em você para ser minha parceira, para ser uma madrasta de verdade.
Em vez disso, vi apenas egoísmo e crueldade. Este foi o último teste, e você falhou.”
Melanie me lançou um olhar como se tudo fosse culpa minha. Tentou falar, mas meu pai já tinha se virado.
“Arrume suas coisas. Você vai embora hoje”, disse com firmeza.
À tarde, Melanie deixou a casa, arrastando a mala como uma nuvem pesada se afastando. Murmurava sobre mal-entendidos e dizia que meu pai estava cometendo um grande erro.
“Isso vai ser sua ruína, Greg. Ninguém consegue amar você e tolerar sua filha ao mesmo tempo.”
“Apenas vá”, respondeu ele.
Eu não disse nada. Queria que a decisão fosse totalmente dele.
A casa ficou silenciosa novamente, e pela primeira vez em meses senti paz.
Passei o Natal com meu pai. Só nós dois. Fizemos panquecas enormes com bacon bem crocante, bebemos chocolate quente, assistimos a filmes antigos de Natal,
e rimos lembrando das vezes em que eu espionava os presentes quando era criança.
No fim da noite, com a lareira quase apagada e a casa novamente acolhedora, meu pai me entregou outro presente embrulhado.
Era outra caixa dourada. Dentro, a caixinha do anel e uma nova carta, desta vez com meu nome.
Abri com cuidado.
“Anna, você é a pessoa mais importante da minha vida. Espero que este Natal marque um novo começo para nós. Eu te amo mais do que tudo. – Papai.”
“Desculpa, pai”, eu disse.
“Por quê?” perguntou ele, olhando para mim do sofá.
“Por tudo o que aconteceu com a Melanie. Eu pensei que indo para a faculdade em breve, você não precisaria lidar com isso. Só queria que fosse feliz.”
“Eu sou feliz, minha filha”, respondeu. “E esse anel é seu. Um dia alguém vai colocá-lo no seu dedo, e sua própria história vai começar. Melanie não era meu final.”
Aquele Natal foi calmo, quente e cheio de paz. E eu entendi que o verdadeiro milagre não estava nos presentes, mas no fato de que meu pai e eu podíamos ser, outra vez, apenas nós dois.







