— Galina Petrovna, mas do que está a falar? É uma mulher moderna, e ainda assim argumenta como se estivéssemos na época da servidão — disse Vadim, ajustando os óculos de sol e sem vontade de se levantar da espreguiçadeira.
O polegar grande deslizava preguiçosamente pelo ecrã do telemóvel: para cima, para baixo, likes, scroll.
— Vadim, só é preciso cavar três metros. Depois das conservas de ontem, as minhas costas já não se dobram, mas o alho precisa ser plantado enquanto a lua está na fase certa — respondeu Galina, pressionando a testa com o lenço desbotado por inúmeras lavagens, decorado com girassóis.
— Lua na fase certa — riu-se o genro, ainda a olhar para o telemóvel. — Vamos fazer umas contas. Uma hora do meu trabalho, mesmo num dia livre, custa cinco mil rublos.
Se eu agora me levantar, me trocar, pegar na pá… no mínimo uma hora. Esses três quilos de alho custariam-lhe cinco mil. Não compensa. Seria mais barato contratar o tio Vitya local por uma garrafa. Isso é delegar.
Galina Petrovna silenciosamente limpou as mãos no avental. Os girassóis já estavam desbotados de tantas lavagens, mas os padrões ainda permaneciam como lembranças: verões passados de trabalho árduo na cozinha e no jardim.
— O tio Vitya está bêbado há três dias — murmurou. — E a dor nas costas ainda não dá para delegar.
Virou-se e dirigiu-se ao celeiro. A pá era pesada, com restos pegajosos de lama. Aos sessenta e dois anos, tendo sido enfermeira-chefe no serviço de cirurgia, Galina conhecia a anatomia humana como ninguém.
Agora o seu próprio corpo gritava: a terceira vértebra lombar sustentava-se apenas com honra e pomada analgésica.
Este era o terceiro verão consecutivo assim. Galina antes pensava que “a casa de campo para os netos” era alegria; agora percebia que era uma espécie de serviço militar: preparação, compras, cozinhar, lavar, e repetir todos os dias.
Os preparativos para a chegada dos “queridos hóspedes” começavam uma semana antes.
A pensão de Galina Petrovna, vinte e um mil e quatrocentos rublos, tornava-se em junho um recurso estratégico, mas limitado. Para alimentar a filha, o genro e os gémeos de duas semanas, era necessária verdadeira acrobacia financeira.
Na terça-feira anterior, retirou quinze mil da conta poupança. “Para a despedida”, brincava a vizinha. “Fundo de reserva”, corrigia-se Galina.
A lista de compras parecia o orçamento de um pequeno restaurante:
— Iogurtes para os meninos (sem açúcar, por causa de predisposições);
— Bifes para Vadim (“Galina Petrovna, nada de porco, colesterol!”);
— Uma garrafa de vinho tinto para Lena (mínimo mil rublos, senão dói a cabeça);
— Queijo fresco, natas, leite — apenas do mercado, o da loja eles não comem.
“Vamos buscar vitaminas à mãe!” — gritava Lena pelo telefone há uma semana. — “As crianças precisam de ar fresco e Vadim de descanso. Ele está exausto do trabalho.”
Galina suspirou, cravando a pá na terra seca. “Exausto.” Que palavra bonita. No seu serviço, os cirurgiões permaneciam doze horas em pé nas mesas de operação quando chegavam casos graves.
Não ficavam exaustos. Apenas ficavam grisalhos antes dos quarenta e fumavam silenciosamente na escada de incêndio. Vadim, porém, exauria-se com o ar condicionado e reuniões pelo Zoom.
— Avó! — gritou Artem, com voz aguda. — Estamos com fome! Onde estão as panquecas? A mamã disse que eras tu!
Galina Petrovna cravou a pá, endireitou-se, colocando a mão nas costas como de costume, e olhou para o relógio. Onze horas. Os “citadinos” levantaram-se.
Na cozinha reinava o caos, como se tivesse havido uma pequena batalha. No balcão manchas de café, migalhas, manteiga aberta e endurecida. Lena estava sentada no pijama de seda, mexendo com a colher o chá frio.
— Mãe, por que temos que cavar tão cedo? — bocejou a filha, sem tapar a boca. — Levantámo-nos e a mesa está vazia. Sabe, o Vadik gosta de omelete com tomate direto da frigideira.
— Bom dia, querida. Estou de pé desde as seis. Reguei os tomates, colhi os pepinos, abri a estufa.
— Ah, lá vem mais uma das tuas heroínas descobridoras — fez uma careta Lena. — Pedimos: não te esforces. Descansa. Viemos conversar, mas tu sempre… com as costas no jardim.
Galina foi para o fogão. Com o movimento habitual, quebrou quatro ovos.
— Lena, se queres que os tomates estejam “direto do jardim” na mesa, é preciso estar no jardim. Sozinhos eles apodrecem.
— Então não plantes! — zangou-se Lena, afastando a chávena. — Mãe, século XXI. Tudo se compra. Até o VkusVill entrega aqui.
— Entrega — respondeu Galina calmamente, fatiando tomates perfumados pelo sol. — Mas lá é 400 rublos por quilo. Eu tenho três baldes por semana. E três vezes mais saborosos. Faz as contas da diferença.
Lena revirou os olhos — gesto herdado da adolescência, que significava: “os mais velhos são tolos”, agora: “envelhecer não é divertido”.
— Transformas tudo em dinheiro. Nós não ajudamos o suficiente? Vadim pagou a tua internet por um ano.
— Pagou — assentiu Galina. — Para poder trabalhar na pérgola.
Vadim entrou na cozinha. De calções, descalço, toalha ao pescoço. Parecia, indiscutivelmente, muito bem — três treinos por semana davam resultado.
— Oh, pequeno-almoço! — esfregou as mãos. — Galina Petrovna, há café? Só não instantâneo, por favor. Turco, com cardamomo, como gosto.
Galina retirou em silêncio a cafeteira turca. Não era criada. Era anfitriã. Mas os dias das férias de duas semanas fundiam-se numa linha contínua.
Os dias tornaram-se uma fita infinita.
Manhã: pequeno-almoço para cinco (papas para os meninos, omelete para o genro, torradas para a filha). Lavar loiça.
Tarde: sopa, prato principal, salada, compota. Três litros desapareciam em uma hora. Lavar loiça.
Noite: grelhados. Aqui, naturalmente, Vadim era o chefe.
— Mulheres, afastem-se do fogo! — gritava, regando o carvão. — A carne não é para mãos femininas.
Era a sua hora de glória. Ele estava com os espetos como maestro. Enquanto Galina na cozinha:
— lavava os legumes;
— picava ervas;
— cozinhava batatas novas;
— preparava molhos;
— punha a mesa na pérgola;
— limpava sucos derramados pelos gémeos.
Quando todos se sentavam à mesa, Vadim colocava solenemente a carne nos pratos:
— Ora, provem! O molho é criação minha.
— Divinal, querido! — exclamou Lena. — Mãe, ele tem talento?
— Talento — concordou Galina, discretamente massageando o joelho debaixo da mesa. — Muito saboroso.
Depois do jantar, todos relaxavam nas cadeiras. Os rouxinóis cantavam, os mosquitos zumbiam.
— Que bom estar no campo — suspirou Vadim, a limpar os dentes com palito. — Isto é vida. Silêncio, ar puro. Nada de trânsito ou prazos. Galina Petrovna, és uma pessoa de sorte. Vives aqui como se estivesses nos braços de Deus.
— Sim — murmurou Galina, olhando para a pilha de pratos sujos na ponta da mesa. — Um verdadeiro refúgio.







