Não Vou Dar Mais Dinheiro Nem A Você Nem Ao Seu Filho Ela Cortou

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Marina fechou o laptop e se espreguiçou, tentando soltar os ombros enrijecidos. Eram quase onze da noite, e ela acabara de terminar os relatórios.

O cargo de diretora financeira em uma empresa de TI em rápido crescimento não era fácil, mas o salário compensava tudo. Dois anos atrás, quando foi promovida, sentiu-se no topo do mundo.

Sua carreira estava florescendo, o marido era carinhoso, o apartamento no centro da cidade — tudo que ela sempre sonhou.

Andrej estava deitado no sofá, o rosto enterrado no telefone.

— Quer comer algo para o jantar? — perguntou Marina, indo para a cozinha.

— Ah… — resmungou Andrej, sem levantar o olhar.

Ela parou na porta e observou suas costas curvadas. Há seis meses, Andrej havia deixado a agência de marketing. Disse que estava cansado de chefes tóxicos e prazos intermináveis, que queria algo mais significativo.

Marina o apoiou: nos últimos meses ele realmente estava esgotado, constantemente nervoso. “Deixe-o descansar, organizar os pensamentos, encontrar um emprego adequado”, pensou.

Mas a busca não deu resultado. No começo, enviava currículos, participava de entrevistas. Depois, com menos frequência. Nos últimos dois meses parecia ter desistido completamente.

Em vez disso, surgiram jogos de computador, séries e rolagem infinita nas redes sociais.

Marina abriu a geladeira e pegou algumas refeições prontas. Após o trabalho, não tinha energia para cozinhar, então resolvia com delivery de comida saudável. Caro, mas conveniente.

— Marina — Andrej apareceu na cozinha, coçando a nuca.

— Minha mãe ligou hoje. Os canos do banheiro estão em péssimo estado, o encanador disse que é melhor trocar tudo, incluindo os azulejos, que estão muito antigos.

— E quanto isso vai custar?

— Bem, com material e mão de obra… cerca de duzentos e trinta mil, acho.

Marina colocou o prato no micro-ondas com um pouco mais de força do que pretendia.

— Duzentos e trinta mil por um banheiro?

— Mãe, você sabe como os canos dela são antigos. Se quebrar, vai alagar o vizinho e depois custará ainda mais. Melhor fazer direito agora.

Ela respirou fundo. Sua sogra, Lyudmila Petrovna, morava sozinha em um apartamento de dois quartos na zona sudoeste.

A aposentadoria dela era realmente baixa, e Marina frequentemente ajudava: remédios, alimentos. Mas nos últimos meses os gastos pareciam quase impossíveis de controlar.

— Está bem — disse ela, cansada. — Amanhã verifico a conta e transfiro.

— Você é a melhor! — Andrej a beijou na bochecha e voltou para o sofá.

Marina comeu em silêncio a refeição aquecida, sozinha, como vinha acontecendo ultimamente.

No sábado de manhã, chegou a notificação do banco: “Foram debitados 180.000 rublos. Wildberries”. Marina olhou para a tela do telefone, sem acreditar.

— Andrej! — gritou, saindo do quarto.

Ele estava sentado no laptop, com uma xícara de café meio vazia à frente.

— O que aconteceu?

— O que você comprou por 180.000 na Wildberries?

Andrej nem se incomodou em parecer surpreso.

— Ah, isso. Comprei um casaco de pele para minha mãe. O antigo estava totalmente destruído, era um constrangimento que alguém o visse. Achei um belo casaco de vison em promoção. E algumas coisinhas para mim também.

— Coisinhas por 180.000?

— Não fique nervosa, Marina. Você ganha bem, não se importa, certo? É minha mãe. Ou você quer que ela ande nua na velhice?

— Não é disso que estou falando! Pelo menos poderia ter perguntado!

— Perguntar? — levantou a voz. — É minha família! Além disso, eu também trabalhei, também contribuí para este apartamento enquanto você era estagiária!

Não era verdade. Marina comprou o apartamento antes do casamento, com financiamento. Andrej se mudou depois e ajudou na reforma, mas nem sempre.

Agora, ela não queria discutir. Virou-se e foi para o quarto, fechando a porta atrás de si. Sentou-se na cama, abraçando os joelhos. O coração apertou-se de raiva e impotência.

Quando isso aconteceu? Quando o relacionamento deles se tornou assim? Antigamente, Andrej era atencioso, cuidadoso. Planejavam o futuro juntos, sonhavam com filhos, viagens. O que se quebrou?

As semanas seguintes passaram em um ritmo insano de trabalho. Marina mergulhou completamente na otimização financeira da empresa, trabalhando até tarde, voltando exausta. Isso ajudava a não pensar em nada.

Enquanto isso, Andrej adotou de vez o papel de “urso doméstico”. O apartamento estava cheio de louça suja, pacotes de snacks e roupas espalhadas. Uma vez por semana, uma equipe de limpeza vinha — mais uma despesa que Marina arcava.

Certa noite, Marina voltou mais cedo, a reunião foi antecipada, e às sete abriu a porta do apartamento. Andrej estava no telefone no quarto, a voz mal audível.

Marina tirou os sapatos e foi até a cozinha pegar água, quando ouviu:

— Não se preocupe, mãe. Já disse — não há problema com o dinheiro. Marina ganha bem, vamos conseguir.

Seguiu-se alguns segundos de silêncio.

— Sanatório? Claro, você pode ir. Vai se recuperar, descansar. Eu já estou vendo opções. Três semanas de programa, com tratamentos e alimentação. Duzentos mil, mas tranquilo.

Mais alguns segundos de pausa. Marina encostou-se na geladeira, com medo de se mexer.

— Mãe, ela é como uma vaca leiteira — se há leite, precisa ordenhar. É só saber apresentar. Estou dizendo que você realmente precisa, os médicos recomendam, ela vai aceitar imediatamente. Não é insensível.

Andrej riu, satisfeito consigo mesmo.

Marina sentiu tudo congelar dentro de si. Vaca leiteira. Manipulação. O tom frio da voz do homem que ela amou, com quem dormiu.

Colocou o copo na pia silenciosamente e saiu do apartamento, sem fechar a porta. Elevador, rua. O vento de novembro bateu no rosto, mas ela quase não sentiu o frio.

Caminhou. Um, dois, três quarteirões. Lojas, cafés onde costumavam sair. O parque onde ele pediu sua mão. Tudo parecia estranho, irreal.

O telefone vibrou no bolso. Andrej. Ela rejeitou a chamada. Outra, e mais outra. Finalmente enviou mensagem: “Onde você está? Estou preocupado.”

Está preocupado. Que comovente.

Marina parou em uma cafeteria, entrou e pediu um café. Sentou-se perto da janela, observando os poucos pedestres. Na cabeça havia um vazio estranho. Sem histeria, sem lágrimas, sem raiva. Apenas um vazio frio e cristalino.

Abriu o aplicativo do banco, revisando os extratos dos últimos seis meses. Os números mostravam uma imagem esmagadora: reforma do banheiro para a mãe — 250.000;

casaco de pele e coisinhas — 180.000; novo jogo de computador para Andrej — 150.000; empréstimo do carro que há três meses quebrou — 80.000; pequenas transferências para a mãe, remédios, alimentação, contas.

Seis meses — quase um milhão de rublos. Um milhão que ela ganhou e eles gastaram sem perguntar.

Marina tomou um gole do café frio e ligou para a amiga, Oksana, advogada de família.

— Oi, Marina! O que aconteceu? — Oksana percebeu imediatamente o problema na voz dela.

— Oksana, preciso de conselho. Divórcio.

As duas semanas seguintes passaram para Marina como um sonho nebuloso. Trabalho, conversas diárias com Andrej sobre pequenas coisas. Andrej não suspeitava de nada — Marina mantinha sempre sua máscara, útil também nas negociações.

Oksana explicou claramente as opções. O apartamento é propriedade de Marina, comprado antes do casamento. Poucos bens em comum — o carro está no nome de Andrej e já está quebrado. O divórcio seria simples, se Andrej não resistisse.

Marina abriu uma conta separada, transferiu a maior parte das economias. Mudou todas as senhas dos cartões. Reuniu documentos e esperou.

A oportunidade não demorou a aparecer.

No sábado à noite, tocaram a campainha. Andrej abriu, e no hall estava Lyudmila Petrovna. Parecia tensa, rosto abatido, olheiras escuras.

— Oi, Marina — entrou sem tirar o casaco.

— Boa noite, Lyudmila Petrovna — respondeu Marina calmamente.

— Querida, tenho um pedido. Os médicos dizem que preciso ir para uma clínica. Exames, infusões, meu coração não está bem, pressão oscilante. Clínica privada, programa completo, 85.000.

Olhou suplicante e inocente para Andrej, que estava ao lado, mostrando o “cuidado de filho”.

— Não vou dar mais dinheiro — disse Marina firmemente. — Nem para você, nem para seu filho.

Silêncio absoluto. Lyudmila Petrovna abriu a boca, mas nada saiu.

— O quê? Marina, você está brincando?

— Não, não estou. Sei de tudo — olhou para Andrej. — Conversa de duas semanas atrás: vaca leiteira, como me manipular por dinheiro. Conversa muito sincera.

— Marina, posso explicar… — Andrej se aproximou, mas Marina levantou a mão.

— Não precisa. Tudo está claro. Você não me serve mais. Tornou-se apenas um fardo. Fica em casa, não faz nada, apenas come e gasta meu dinheiro.

— Mas nós nos amamos!

— Você ama o dinheiro — disse Marina firmemente. — O homem que eu amei não existe mais. Ou talvez nunca tenha existido.

Ela passou por eles.

— Agora vou. Ficarei em um hotel, não quero ver seus rostos. Você se muda. Três dias. Se ficar, chamo a polícia, eles vão tirá-lo.

— Marina! Marina, espere!

Mas ela já havia fechado a porta, deixando mãe e filho confusos, irritados e impotentes.

A primeira noite no hotel ela chorou de alívio. Não de auto piedade — de alívio. Como se tivesse deixado cair um peso que nem sabia o quanto a esmagava.

Andrej ligou, mandou mensagens. Primeiro com raiva, depois implorando, depois novamente com raiva. Marina não respondeu.

Dois dias depois, Andrej se mudou. Levou suas coisas e deixou a chave na portaria. Marina contratou a equipe de limpeza para higienizar o apartamento completamente.

O divórcio ocorreu de forma rápida e sem problemas. Andrej tentou reivindicar direitos, pedir indenização, mas a advogada rapidamente colocou tudo em ordem. Ele saiu de mãos vazias, como entrou.

Três meses se passaram. Marina estava em um café com a colega Lena, aproveitando o sol de fevereiro, tomando um latte.

— Sabe, vi recentemente seu Andrej — disse Lena casualmente. — Perto do metrô, com uma jovem. Totalmente apaixonado.

— Nova vítima — respondeu Marina calmamente. — A pobre garota não sabe em que se meteu.

— Você não sente raiva?

— Sabe, de jeito nenhum. Estou feliz sozinha. Posso gastar meu próprio dinheiro, ninguém suga minha energia. Nunca imaginei que seria tão fácil.

— E a mãe dele?

— Não faço ideia. E não quero saber. Agora os problemas dela são resolvidos pela nova namorada do filho.

Lena sorriu.

— Muito esperta em se deter a tempo. Muitas pessoas esperam até o fim e destroem a própria vida.

— Eu quase não consegui — admitiu Marina. — Mais um pouco, e teria me submetido totalmente. Mas trabalhei a vida toda para garantir minha liberdade e independência.

E dar isso a alguém que nem me tratava como pessoa? Não, obrigada.

Conversaram mais um pouco sobre trabalho e planos. Marina contou que viajaria sozinha para a Itália — três semanas, explorando cidades, museus, apenas para si.

Sonhou com isso por muito tempo, mas sempre adiava, por causa do dinheiro, por causa de Andrej.

Agora estava livre. Quem quisesse, que a chamasse de vaca leiteira, mas ninguém mais poderia impor nada a ela.

À noite, sentada na varanda com um livro e um copo de vinho, às vezes sentia uma leve melancolia. Não por Andrej — pela antiga Marina, ingênua, que acreditava no amor e na eternidade. Que achava que se se esforçasse, conquistaria tudo.

Mas a melancolia desaparecia rapidamente. A antiga Marina já não existia. À sua frente, estava uma nova mulher, forte, independente, que não permitiria que ninguém se aproveitasse dela.

Esta Marina estava feliz. Abriu o laptop e começou a planejar a viagem. Roma, Florença, Veneza. Três semanas, só para si.

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