Raisa estava no meio da sala, olhando para Juri como se o visse pela primeira vez.
O homem com quem vivera por doze anos agora estava sentado no sofá, olhando para ela como se tivesse dito apenas que comprou pão, e não que pretendia tirar-lhe tudo o que tinham construído juntos.
Os raios de sol atravessavam as janelas, e cada objeto no cômodo carregava lembranças da vida compartilhada: as cortinas feitas à mão, as fileiras de livros nas prateleiras,
as pinturas nas paredes, adquiridas de artistas iniciantes, e o piano no canto, orgulho de Raisa, pelo qual economizou e pagou parcelas durante três anos.
— Tenho direito à metade do apartamento — disse Juri, ajustando a camisa. — Além disso, o apartamento está no nome da minha mãe, então tecnicamente…
— Tecnicamente? — Raisa riu amargamente. — Sua mãe nos deu este apartamento de presente pelo nosso casamento. Há contrato de doação, em nome dos dois.
— Bem… minha mãe mudou de ideia — encolheu os ombros Juri. — Ela acha que você não merece.
Raisa sentou-se na poltrona, e os últimos meses passaram como um filme em sua mente.
Como Juri começara a passar mais tempo no trabalho, evitando seu olhar, como o telefone parecia ter vida própria, sempre com mensagens e chamadas que ele atendia na varanda.
— Eu não mereço? — perguntou Raisa, com a voz fria e triste ao mesmo tempo.
— Depois de eu pagar seu financiamento do carro? De custear seus cursos? De sustentar nós dois, enquanto você passava um ano procurando algo que nem sabia definir?
— Você exagera… — começou Juri, mas ficou em silêncio diante do olhar firme de Raisa. — Está bem, decidi que é melhor nos separarmos. E o apartamento… será meu. Já tenho um plano.
— Seu plano? — Raisa inclinou-se para frente. — Que plano, Juri?
Juri se remexeu no sofá, e era visível sua dúvida.
— Conheci alguém. Alguém que realmente me entende. Não critica, não exige atenção. Alina — ela é diferente. Jovem, bonita, e não entediante como você.
Raisa assentiu lentamente. Alina. A jovem de vinte e dois anos que ele trouxe para a festa da empresa três meses atrás, pernas longas e olhar vazio, agora se apresentava como a futura “companheira”.
— E Alina vai morar no nosso “apartamento”? — perguntou Raisa, calma, mas com tensão na voz.
— No MEU apartamento — corrigiu Juri. — Já consultei. Minha mãe está pronta para contestar a doação. Pode dizer que foi enganada, que… não importa. O importante é que temos um plano.
— Vocês têm um plano — repetiu Raisa com amargura. — Maravilha. E eu, o que faço? Arrumo minhas coisas e saio para a rua?
— Bem, você tem emprego — Juri indicou. — Pode alugar algo. Ou voltar para seus pais. Sabe, eles têm muito espaço no campo.
Raisa se aproximou da janela. A luz da primavera preenchia o cômodo, crianças brincavam no jardim, suas risadas soavam claras.
Como se a vida continuasse lá fora, enquanto seu mundo interno estava coberto apenas de raiva, mágoa e desapontamento.
— Sabe, Juri — disse, virando-se para ele — perdoei muito. Sua preguiça, sua falta de ambição, os projetos que sempre acabavam em nada. Mas isso não vou perdoar.
— O que você pode fazer? — Juri levantou-se, a voz rígida. — Minha mãe já contratou um advogado. Bom, caro. E você? Salário de professora de música?
— Sou professora de conservatório — corrigiu Raisa. — E tenho salário, com o qual te sustentei durante anos.
— Não fale de dinheiro! — explodiu Juri. — Acha que não sei que você cochichava com suas amigas pelas minhas costas? Que sou inútil, fracassado? E agora se espanta que encontrei alguém que ME VALORIZA?
— Valoriza? — Raisa riu. — Ela valoriza o apartamento, Juri. A chance de vida fácil. Você não percebe?
— Cala a boca! — gritou. — Só está com inveja! Trinta e cinco anos, envelhecendo, engordando! Alina tem vinte e dois, é linda! E ME AMA!
Raisa apenas observava. Seu rosto, mãos trêmulas, olhos cheios de raiva e medo.
— Tudo bem — disse com calma. — Entre com o divórcio. E tente tirar o apartamento. Vamos ver até onde você chega.
— Vai dar certo! — Juri gritou. — Minha mãe vai resolver tudo! Eles me conhecem, têm dinheiro! E você não terá nada!
Juri saiu da sala. Raisa ficou sozinha, mas não com medo, e sim decidida. Olhou em volta do salão. Cada objeto fora escolhido por ela.
As cortinas, os tecidos feitos à mão, as pinturas, o piano, fruto de anos de economias e empréstimos, parte do coração da família.
Ela se aproximou do instrumento, abriu a tampa, e os dedos começaram a deslizar pelas teclas sozinhos. Uma melodia melancólica, mas bela, nasceu, como se toda dor e sacrifício se transformassem em música.
Uma semana depois, Juri trouxe Alina para “ver o futuro apartamento”. Raisa chegou em casa e os encontrou no hall.
— Oh — disse Alina, avaliando Raisa — vocês ainda estão aqui? Juri disse que já tinham saído.
— Juri se alegra cedo demais — respondeu Raisa calmamente, tirando o casaco.
— Vamos, não seja assim — Alina entrou na sala, como se fosse dona do lugar. — Por que se agarram ao passado? Juri não te ama mais. Aceitem.
— Alina — seguiu Raisa — tem certeza de que Juri é capaz de amar alguém? Além de si mesmo?
— Não ouse falar assim! — Juri a defendeu. — Alina, não escute. Só está sendo histérica.
— Histérica? — Raisa sentou-se. — Eu, que durante doze anos fiquei calada enquanto você gastava meu dinheiro com ideias absurdas? Quando passava semanas no sofá, reclamando das injustiças do mundo?
— Chega! — Juri pegou a mão de Alina. — Vamos sair daqui. Este apartamento logo será nosso, vamos jogar tudo fora.
— O piano também? — perguntou Raisa.
— Primeiro ele! — respondeu Alina. — Ocupa muito espaço! Melhor colocar uma TV gigante.
Raisa apenas balançou a cabeça. Depois que saíram, pegou o telefone e ligou para Marina.
— Marina? Oi. Lembra do seu irmão? Preciso da ajuda dele como advogado.







