Aumenta a TV Mamãe Está Vendo a Novela Ele Gritou Naquela Noite Arranquei Mais do Que o Cabo

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

— Você perdeu completamente o juízo?! Minha mãe está doente, precisa de silêncio e tranquilidade! — a voz de Serguei, aguda e quase estridente, cortou o ar tenso do quarto como o golpe de um machado em madeira seca.

Olga permanecia no centro do cômodo, ereta, imóvel. As mãos não tremiam.

Pouco antes, ela havia arrancado o cabo da televisão da tomada e, agora, na sala além da parede, instalara-se um silêncio tão espesso e quase palpável que chegava a zunir nos ouvidos.

Devagar, de maneira controlada, ela se virou para o marido. O rosto de Serguei estava ruborizado, todo o corpo rígido de indignação, como se a raiva o inflasse por dentro.

— Peguei o meu telefone — disse Olga. A voz soava surpreendentemente calma, fria e lisa como o gelo sobre uma poça de novembro. — No meu próprio apartamento. Na minha própria sala.

— Você sabe muito bem que a mamãe estava assistindo à novela! É a única coisa que distrai ela da dor! — Serguei avançou um passo, cerrando os punhos.

O rosto que Olga conhecera durante sete anos de casamento como sereno e equilibrado agora lhe parecia estranho, deformado por uma fúria que ela nunca tinha visto antes.

— Eu também preciso de paz, Serguei — respondeu Olga em tom baixo. — Só que, por algum motivo, a minha nunca importa.

— Chega desse drama! — rosnou ele, apontando para a porta da sala. — Ligue a televisão de novo e peça desculpas à minha mãe!

Olga não se moveu. Fitou-o e, nesses poucos segundos de silêncio, estendidos entre os gritos dele e a resposta que não veio, passaram diante de seus olhos todas as semanas anteriores.

Era como rebobinar uma fita antiga. Tudo começara de forma tão comum que nenhum dos dois imaginava onde aquilo terminaria. Tudo por causa de uma ligação.

O dia, no fim de outubro, estava cinzento e chuvoso. Olga guardava as compras, alinhando novos potes de tempero na prateleira, quando o telefone de Serguei tocou. A voz dele soava abafada e inquieta.

— Aconteceu algo com a mamãe. Ela escorregou e caiu. Os médicos dizem que quebrou o tornozelo, vai ficar pelo menos um mês e meio de gesso. Sozinha, ela não dá conta, é impossível.

Olga ficou imóvel por um instante, segurando um frasco de orégano. O apartamento de dois quartos, comprado antes do casamento, era pequeno, mas acolhedor. A fortaleza dela, o seu mundo seguro.

À noite, tomavam chá na cozinha, viam filmes juntos, e o silêncio era compartilhado — não pesado, mas reconfortante.

— Onde foi isso? — perguntou com cuidado, tentando esconder a preocupação na voz.

— Na frente do prédio. Estava chovendo, tudo escorregadio. Já deram alta do hospital. Vou buscá-la e trazê-la para cá. Só por um tempo, até ela melhorar.

A expressão “só por um tempo” ficou suspensa no ar, incerta como a névoa de novembro do lado de fora da janela. Olga percorreu mentalmente o apartamento: o quarto, a sala com o sofá — aquele sofá.

— Tudo bem — disse por fim. — Venham.

Valentina Petrovna chegou no início da noite, apoiada em muletas. O rosto estava pálido, quase acinzentado pela dor e pelo cansaço. Olga ajudou-a a tirar o casaco, conduziu-a até a sala e acomodou-a no sofá.

Serguei andava de um lado para o outro, ajustando almofadas, cobrindo-a com um cobertor. O cuidado parecia tão sincero que Olga sentiu vergonha, por um instante, da própria relutância.

— Obrigada, meus filhos — murmurou a senhora, fechando os olhos. — Desculpem o incômodo. Não ficarei muito tempo, logo estarei melhor.

— Descanse — respondeu Olga. — Quer que eu prepare um chá?

Os primeiros dias foram suportáveis. Valentina Petrovna ficava deitada a maior parte do tempo e pedia desculpas por cada solicitação. Olga cozinhava, limpava, tentava adivinhar do que ela poderia precisar.

Serguei, ao chegar do trabalho, sentava-se imediatamente ao lado da mãe, e Olga começava a sentir, cada vez mais, que não havia lugar para ela naquele trio.

Com o passar do tempo, o tom mudou. Os pedidos transformaram-se em ordens.

— Olguinha, traga um pouco de água e coloque aqui mais perto — dizia Valentina Petrovna, sem tirar os olhos da novela.

Depois vieram os conselhos, que na verdade eram comandos: o que cozinhar, como lavar o chão, quando abrir as janelas. Serguei repetia apenas: “Minha mãe está doente, tenha paciência”. E Olga suportava, com os dentes cerrados.

A televisão passou a dominar o apartamento. Ligada do amanhecer à noite, alta e implacável. Olga foi sendo empurrada para fora da sala, do próprio espaço.

Naquela noite, entrou apenas para pegar o carregador do telefone. Serguei, irritado, mandou que saísse porque “estava na melhor parte”. Valentina Petrovna nem se mexeu. Foi ali que Olga percebeu, pela primeira vez, que não apenas fora deixada de lado — ela fora apagada.

No dia seguinte, tentou conversar, mas o marido dispensou o assunto com um gesto. A mãe vinha em primeiro lugar. Olga entendeu: naquele casamento, ela sempre seria a segunda opção.

Quando mais uma vez foi mandada sair da sala, caminhou até a televisão e puxou o plugue da tomada. Não por raiva, mas com clareza, de forma definitiva.

Após a discussão, ficou sozinha. Passou a noite em claro e, ao amanhecer, a decisão já estava tomada. Em silêncio, arrumou as coisas de Serguei. Não sentia ódio. Apenas tranquilidade.

Quando ele acordou, Olga disse que havia chamado um táxi. O apartamento era dela desde antes do casamento, e ela não queria continuar vivendo com alguém que não a respeitava.

Valentina Petrovna protestou, ofendeu-a, mas Olga manteve-se firme. Não os expulsou — devolveu o filho à mãe.

Quando o táxi partiu, o silêncio voltou. Um silêncio que não oprimia, mas libertava. Olga abriu as janelas, sentou-se no sofá e, finalmente, sentiu-se em casa outra vez.

O divórcio foi rápido e simples. Serguei tentou se justificar, mas Olga já não acreditava nele. Viu em seus olhos não arrependimento, mas medo.

Certa noite, um número desconhecido ligou. Uma antiga conhecida a convidou para tomar um café. Olga sorriu. Sentiu que sua vida não tinha acabado. Estava apenas começando. Ligou a música — alto, do jeito que ela gostava.

Porque aquele era o lar dela. As regras dela. A vida dela. E, pela primeira vez, não precisava se moldar a ninguém.

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