Alexandra estava no meio da sala, com as costas rígidas, e em sua voz havia uma determinação dura e incomum.
Léontiy, seu marido, estava deitado no sofá, segurando o tablet, os olhos fixos na tela, como se a realidade ao redor não existisse.
O ar estava carregado, quase vibrando, como se cada móvel e objeto da casa sussurrasse a tensão acumulada na alma de Alexandra ao longo de semanas, meses, anos.
A mãe do marido, Evdokija Markovna, sentada calmamente na poltrona, parecia que tudo estava em ordem, enquanto tricotava mais um cachecol lilás desnecessário.
Spyridon Vassilievich, o pai de Léontiy, cochilava diante da televisão, que transmitia um programa de pesca.
A sobrinha, Milolika, cujo nome fora escolhido com a maior originalidade pelos pais, pintava as unhas tranquilamente na mesa de centro antiga, no meio da sala.
O olhar de Alexandra percorreu o cômodo e parecia enxergar tudo: impaciência, frustração, raiva acumulada e uma determinação final emanavam dela.
— CHEGA! — gritou tão alto que Spyridon Vassilievich se sobressaltou, e Milolika borrara o esmalte nas mãos.
— Por que está gritando? — finalmente levantou os olhos da tela Léontiy. — Os vizinhos vão ouvir.
— Que ouçam! Que TODO MUNDO ouça! — Alexandra girou o olhar, encarando cada um.
— Há três anos suportando tudo! TRÊS ANOS! Vocês se mudaram “por uma semana”, enquanto o apartamento de vocês passava por reforma. Que reforma? Onde está esse tal apartamento mítico?
Evdokija Markovna colocou lentamente as agulhas de tricô de lado, com a expressão grave e lábios finos comprimidos.
— Alexandra, querida, você está cansada do trabalho. Sente-se, farei uma xícara de chá de camomila para você.
— NÃO QUERO seu chá! — Alexandra deu um passo à frente. — A presença de vocês transformou minha vida em pesadelo! Sou arquiteta-chefe, projeta edifícios, e quando volto para casa… o que acontece?
Evdokija Markovna dita o que devo cozinhar. Spyridon Vassilievich joga pontas de cigarro na varanda, mesmo que eu tenha pedido milhares de vezes para não fumar dentro de casa. Milolika rearranja minhas coisas sem permissão!
— Alexandra, são pequenos detalhes — Léontiy levantou-se do sofá e se aproximou da esposa. — Somos família.
— Família? FA-MÍ-LIA?! — Alexandra recuou, o rosto escurecido de raiva. — Sua mãe me lembra toda hora que sou “uma esposa ruim” porque não consigo fazer panquecas como ela.
Seu pai disse na semana passada aos meus colegas que arquitetura não é trabalho para mulher e que eu deveria estar engravidando!
— Seu pai estava brincando — Léontiy tentou segurar sua mão, mas Alexandra se afastou.
— E você? O que faz? Diz que procura emprego há seis meses, mas vejo seu histórico de navegação: jogos online, séries! Vive do meu dinheiro e ainda me critica por meu salário ser baixo!
Milolika suspirou, continuando a pintar as unhas.
— Não se preocupe, ele está procurando. Léontiy é homem, precisa de tempo para achar o trabalho “certo”.
— CERTO? — Alexandra olhou para a sobrinha. — Rejeitou cinco propostas! Sempre o salário era baixo, o escritório longe, ou o chefe não agradou!
— Não grite com minha filha! — Evdokija Markovna levantou-se da poltrona. — Milolika está certa. Você deveria apoiar o marido, não criticar. Eu, Spyridon, nunca…
— SILÊNCIO! — Alexandra bateu no chão. — TODOS SILÊNCIO E ATENÇÃO! Vocês parasitam minha vida há três anos!
Evdokija Markovna, supostamente doente, carrega sacolas pesadas do mercado para as amigas, com meu dinheiro!
Spyridon Vassilievich, você recebe aposentadoria, mas não contribui para despesas comuns, e ainda compra equipamentos de pesca caros toda semana, para usar uma vez por ano!
— Como ousa… — começou Spyridon, mas Alexandra não deixou terminar.
— E você, Milolika! Trinta e dois anos! Não trabalha, não estuda, vive às minhas custas! Compra cosméticos com meu cartão e ainda critica minhas roupas!
— Léontiy, cale sua esposa! — gritou Milolika.
Léontiy olhou para a esposa, depois para a família, sem saber o que dizer.
— Alexandra, não faça isso… Podemos conversar…
— NÃO HÁ SOBRE O QUE CONVERSAR! — Alexandra tirou documentos da bolsa. — Este é meu apartamento. SOMENTE MEU! Paguei com a herança da minha avó. VOCÊS NÃO SÃO NADA! Saiam!
— Você não pode nos expulsar — disse Evdokija Markovna, cruzando os braços. — Estamos registrados…
— Não, não estão. Verifiquei. Léontiy prometeu registrá-los, mas não fez. Preguiçoso, não é, querido marido?
Léontiy ficou pálido.
— Alexandra, podemos conversar a sós…
— Não há conversa. Uma hora para arrumar suas coisas. UMA HORA! Depois chamo a segurança. Sim, contratei. Estão esperando lá embaixo.
— Você enlouqueceu! — Spyridon Vassilievich ficou vermelho. — Léontiy, deixa essa LOUCA nos tratar assim?
— Pai, não… — Léontiy tentou acalmar o pai.
— NÃO?! — Spyridon gesticulava. — Criamos você, ensinamos, e deixa que uma MENINA nos humilhe!
— MENINA? — Alexandra riu. — Esta “menina” sustenta a família há três anos! Paga contas, comida, roupas para seu filho adulto! E o que recebe em troca? Desrespeito, audácia, críticas constantes!
— Ajudamos nas tarefas de casa — protestou Evdokija Markovna.
— AJUDARAM? Mudaram todo o apartamento para o gosto de vocês! Jogaram minhas cortinas favoritas fora, colocaram panos laranja feios! Transformaram meu escritório em quarto da Milolika!
Eu trabalho na cozinha, enquanto sua filha assiste séries NO MEU ESCRITÓRIO!
— Preciso do meu espaço — disse Milolika.
— ESPAÇO PRÓPRIO É PARA QUEM TRABALHA! — Alexandra jogou os papéis na mesa. — Aqui estão seus gastos do último mês. Dezessete mil em cosméticos, Milolika.
Vinte e cinco mil em equipamento de pesca, Spyridon Vassilievich. Oito mil em novelos de lã, Evdokija Markovna — lã de caxemira! Léontiy… trinta mil em compras de jogos!
— De onde… — Léontiy segurou os papéis.
— Eu tinha acesso à conta da família. Mais precisamente, TINHA. Fechei há uma hora.
— Você não tem direito! — gritou Evdokija Markovna. — Esse é dinheiro compartilhado!
— COMPARTILHADO? Eu ganho, vocês só gastam! E sabe de uma coisa? Cansei de sustentar vocês, SEUS PARASITAS!
— Alexandra, pare! — Léontiy elevou a voz. — Você está magoando meus pais!
— E eles não me magoam? Quando sua mãe disse aos meus amigos que eu era “uma fria carreirista que não sabe fazer um lar”?
Ou quando seu pai contou ao meu chefe que eu engravidaria em breve, mesmo eu tendo dito mil vezes que não planejava filhos?
— Toda mulher deve ter filhos! — acrescentou Evdokija Markovna. — É a natureza!
— Minha natureza é arquitetura, não servir seu filho infantil!
— CHEGA! — Léontiy bateu na mesa. — Alexandra, você está exagerando! Acha que pode humilhar todos por ganhar dinheiro?
— Vocês acham que têm direito de viver com meu dinheiro e ainda dar palpites? — Alexandra pegou o celular. — O tempo começou. Cinquenta e cinco minutos.
— Não vamos a lugar nenhum — disse Spyridon Vassilievich. — Este também é nosso lar.
— NÃO, ESTE É MEU LAR! Vocês transformaram em via pública! Quantas vezes encontrei estranhos em casa? Seus amigos, conhecidos, parentes distantes! Todos vêm “para um chá” e levam meus livros, discos, joias!
— Ninguém levou nada! — protestou Milolika.
— Sério? E os brincos que minha mãe me deu?
— Pensei que fossem bijuteria…
— E vendeu para sua amiga por três mil? Sim, sei! Ela confessou quando descobriu que era ouro branco com diamantes, valendo duzentos mil!
Milolika empalideceu. — Eu… não sabia… — Claro que não sabia! Não sabe nada, só gasta o dinheiro alheio!
— Léontiy, faça algo! — implorou Evdokija Markovna.
Léontiy aproximou-se de Alexandra, tentando abraçá-la. — Querida, acalme-se. Está cansada. Vamos conversar…
— NÃO TOQUE! — Alexandra afastou a mão. — “Querido”! Só sou “querida” quando você PRECISA DE DINHEIRO! Caso contrário, só sou “rígida”, “entediante” e “workaholic”!
— Eu não disse isso…
— Disse! Ontem, no telefone com Elisei! Ouvi tudo! Sobre como “você se irrita com tantas exigências” e que “logo me colocaria no meu lugar”!
— Você ouviu?
— Moro na MINHA casa! Tenho direito de saber o que acontece entre MINHAS paredes!
— Sabe de uma coisa? — Léontiy endireitou-se. — Sim, minha família não é perfeita. Mas ELES SÃO MINHA FAMÍLIA! E você… só pensa em carreira e dinheiro!
— Se eu não pensasse no dinheiro, vocês passariam fome! — Alexandra disse com fogo, e imediatamente se calou.
O silêncio caiu. Spyridon Vassilievich ficou vermelho, Evdokija Markovna segurou o peito, Milolika ficou de boca aberta.
— Entendi… — disse Léontiy lentamente. — Então é assim que nos vê.
— Sim! Exatamente! — Alexandra não conseguiu se conter. — Vocês parasitaram minha vida! Pegaram minhas mãos para meu dinheiro, tempo, energia!
Não posso convidar amigos — Evdokija Markovna critica! Não posso trabalhar em paz — Spyridon Vassilievich aumenta a TV! Não posso descansar — Milolika faz festas para amigas!
— Vamos embora — disse Léontiy de repente. — Mas você vai se arrepender, Alexandra. Vai se arrepender muito.
— Está me ameaçando?
— Apenas dizendo a verdade. Você ficará sozinha. Completamente sozinha. Com sua carreira e dinheiro.
— Melhor sozinha do que com PARASITAS!
— Vamos, mãe — Léontiy ajudou Evdokija Markovna a levantar. — Arrumem as coisas. Estamos indo.
Os quarenta minutos seguintes se passaram em silêncio. A família arrumou as malas, batendo forte, Alexandra observava cada movimento da janela.
Quando saíram, Evdokija Markovna parou na soleira.
— Lembre-se deste dia, Alexandra. Você expulsou sua família. Isso voltará para você.
— Adeus, Evdokija Markovna.
Léontiy ficou por último.
— Alexandra, ainda podemos consertar tudo. Peça desculpas e tudo será esquecido…
— SAIA!
Ele saiu, batendo a porta atrás de si.
Alexandra ficou sozinha no apartamento silencioso. Caminhou lentamente pelos cômodos, vendo os vestígios de três anos de parasitismo: o sofá queimado, o piso arranhado, a cozinha manchada.
Deitou-se no meio da sala e começou a chorar. Não de tristeza, mas de alívio. Finalmente… FINALMENTE podia ficar sozinha.
Passou uma semana. Alexandra desfrutava da tranquilidade. Reorganizou o apartamento, restaurou seu escritório, o trabalho avançava sem interrupções: o projeto do shopping foi concluído antes do prazo e recebeu bônus.
Numa sexta-feira à noite, o toque da campainha interrompeu. Léontiy estava na porta, cansado, com barba por fazer, olhos vermelhos. Perguntou se poderiam conversar.
Alexandra deixou entrar, mas quando ele pediu para reatar, ela negou, riu e afirmou com firmeza que o passado estava encerrado.
Léontiy enfrentou problemas financeiros, caiu em dívidas, perdeu a saúde, enquanto a carreira de Alexandra floresceu; ela estava feliz, praticava esportes, encontrava amigos e conheceu Rodion, que respeitava suas decisões.
Um dia, caminhando pelo parque, o carteiro trouxe uma carta da Suíça. Uma herança inesperada: uma villa à beira do lago, milhões de euros, totalmente dela. Alexandra sorriu, sabendo por dentro: finalmente tinha o controle total da sua vida.
Todas as sombras do passado, todos os abusos antigos desapareceram. Ela comandava sua vida, agora completamente livre.







