— Tanuška, não fique chateada — disse a voz de Sása, ao mesmo tempo cansada e arrependida. — A locomotiva parou, sem mim eles não se viram. Vou ficar até tarde, talvez só chegue em casa no dia dois de janeiro.
Tania apoiou o telefone no ombro, enquanto continuava a embrulhar o carrinho de controle remoto em papel de presente brilhante. O presente para Semen, seu pequeno sobrinho, precisava parecer perfeito.
— Sása, o que podemos fazer, trabalho é trabalho — tentou Tania esconder sua decepção. — Então vamos saudar o Ano Novo por telefone.
— E mesmo assim você vai para a Rita, como combinaram, certo? — perguntou Sása.
— Claro. Ela já está se preparando há três dias, comprou comida para metade da casa.
Sása suspirou aliviado:
— Isso é bom. Você não ficará sozinha. Já avisei à minha mãe que passaremos as festas a sós, para ela não atrapalhar.
Tania sorriu enquanto cortava a ponta da fita com os dentes:
— Sua mãe sempre encontrará um jeito.
— Tudo bem, ela vai entender. Ela também está ocupada no armazém antes das festas.
Despediram-se, e Tania olhou para o relógio. Faltavam dez minutos para as oito. Amanhã seria o último dia de trabalho na agência, e então poderia ir tranquila para a casa da irmã.
Ela imaginou-se arrumando a mesa com Rita, Semen correndo pelo apartamento esperando a hora, e András contando mais histórias do trabalho. Um feriado calmo, em família, sem tensões.
O telefone tocou novamente. No visor piscava o nome “Uljána Sergueievna”.
Tania atendeu no terceiro toque:
— Boa noite.
— Oi, Tanuška — disse a sogra com uma voz exageradamente gentil, o que imediatamente deixou Tania alerta. — Como você está? Sása ligou?
— Sim, agora mesmo. Ele disse que vai se atrasar.
— Eu sei, ele também me ligou — fez uma pausa significativa Uljána Sergueievna. — Pensei, já que Sása está a caminho, você ficará sozinha durante as festas?
Tania percebeu a direção da conversa e tentou antecipar os acontecimentos:
— Não, vou para a Rita. Combinamos há muito tempo.
— Para a Rita? — no tom da sogra havia surpresa, como se fosse algo inacreditável. — Por quê? Como esposa, você deveria estar com a família do marido… Melhor eu ir, farei companhia.
— Obrigada, Uljána Sergueievna, mas não é necessário. Eles estão se preparando, prometi que ajudaria.
— Tanuška, que ajuda é essa? — a voz da sogra ficou mais firme. — Rita se vira com o marido. Você é esposa do Sása. Eu sou a mãe dele. Vamos nos encontrar nós três, mesmo que pelo telefone será divertido.
Tania cerrou os lábios. A conversa se desenrolou exatamente como ela temia.
— Não quero mudar meus planos. Vou passar as festas com minha irmã.
— Eu, porém, não sabia! — a voz de Uljána Sierguejevna ficou ainda mais rígida. — Se Sása não te contou, é óbvio que ele não gostou dessa ideia.
Tania contou lentamente até cinco em sua mente antes de responder:
— Uljána Siergueievna, essa é a minha decisão. Passarei as festas na casa da minha irmã.
— Vamos ver — lançou a sogra de forma enigmática e desligou o telefone.
Tania deixou o telefone sobre o sofá e esfregou as têmporas. Conhecia Uljána Siergueievna há quatro anos, desde que se casou com Sása, e sabia perfeitamente que “vamos ver” significava que a história não terminaria ali.
Na manhã seguinte, Tania correu para o último dia de trabalho na agência de turismo. Telefones tocavam sem parar, a impressora mal dava conta dos documentos, clientes tentavam conseguir as melhores ofertas no último minuto.
— Tanuška, para onde você vai nas festas? — perguntou a colega, Sveta, segurando uma xícara de café. — Nós, eu e Serguei, fugiremos para a Carélia por três dias. E você?
— Para minha irmã — respondeu Tania digitando um contrato, sem olhar para cima. — Sása está a caminho, não conseguirá voltar.
— E a sogra? — Sveta sentou-se na beira da mesa. — Geralmente ela sempre quer se intrometer.
— Tentou — Tania deu um sorriso amargo. — Ontem ela ligou, ofereceu-se para vir. Recusei.
— E aceitou?
— Duvido — Tania deu de ombros.
— Força! E boas festas antecipadas!
Por volta das 12h30, o telefone do trabalho tocou. Tania esperava que fosse um cliente, mas a voz era familiar:
— Tanuška, sou eu.
— Boa tarde, Uljána Siergueievna — Tania recostou-se na cadeira. — O que aconteceu?
— Nada de grave. Só pensei nas festas… Talvez você mude de ideia? Venho com alguns biscoitos, vamos nos encontrar, será mais alegre.
— Não mudei de ideia — Tania tentou manter a calma. — Obrigada, mas vou para a Rita.
— Que mulher! — Uljána Siergueievna não escondia a irritação. — Você é esposa do Sása!
— Rita também faz parte da família — interrompeu Tania. — Sása sabe disso.
— Tanuška, você me decepcionou — a sogra mudou de tom, do raiva para a tristeza. — Achei que poderíamos conversar normalmente.
— E estamos conversando. Só que tenho meus planos.
— Bem, bem — disse a sogra desconfiada. — Está bem, trabalhe.
Tania desligou o telefone, sentindo ansiedade: Uljána Siergueievna não desistiria facilmente.
No dia 31 de dezembro, Tania acordou de bom humor. A manhã estava fria, mas ensolarada. Tomou café devagar e arrumou suas coisas:
presentes para Semen, um pote de salada Olivier feito na noite anterior, um suéter extra, nécessaire de maquiagem. Na mesa, colocou uma garrafa de champanhe — para Rita e András.
Por volta das 10h30, o telefone tocou. Era Uljána Siergueievna.
— Tanuška, estarei aí em uma hora — disse a sogra com firmeza. — Prepare algo, não tomei café, não houve tempo com os preparativos.
Tania ficou paralisada com os pacotes nas mãos:
— Uljána Siergueievna, disse ontem que vou para a Rita.
— Mesmo assim, vou — soou a resposta firme. — Eu ficaria entediada sozinha, vamos celebrar juntas.
— Não estarei em casa — disse Tania lentamente, mas com firmeza. — Não mudarei meus planos.
— Você está brincando?! — a sogra levantou a voz. — Já estou a caminho!
— Já disse duas vezes — Tania tentou manter a calma. — Dois dias atrás, ontem e hoje de manhã.
— Tanuška, não invente! — gritava Uljána Siergueievna. — Volte imediatamente!
Tania balançou a cabeça, Rita assentiu, András ergueu o polegar.
— Não — disse Tania com firmeza. — Não pedi para você vir. Feliz Ano Novo, Uljána Siergueievna.
Ela desligou o telefone, com as mãos levemente trêmulas.
— Você se saiu bem — colocou Rita a mão sobre a de Tania. — Está firme.
— Não vou ceder — disse Tania. — Agora Sása terá que explicar para ela.
— E é justo, que explique — concordou Rita.
Tania passou algumas horas ajudando nos preparativos, brincando com Semen e preparando a comida. O telefone não tocou mais. À noite, Sása ligou:
— Feliz Ano Novo, querida!
— Feliz Ano Novo! — Tania saiu para a varanda. — Sua mãe não ligou?
— Não. Eu também tentei, mas ela não respondeu.
Sása respirou aliviado e continuaram a conversa. Tania sentiu a tensão se dissipar. O feriado passou tranquilo, todos se divertiram.
No ano seguinte, Uljána Siergueievna permaneceu em silêncio, até que Tania recebeu dela um pacote com seu bolo de sementes de papoula favorito e uma mensagem:
“Como eu costumava assar. Se quiserem, venham passar as festas. U. S.”
Tania e Sása ficaram surpresos no início, depois compreenderam lentamente: a sogra deu o primeiro passo, talvez conseguissem construir uma nova base para o relacionamento.
Enquanto finalmente comemoravam o Ano Novo juntos, Tania sentiu-se tranquila: manteve sua decisão, suas palavras foram respeitadas, e isso era o mais importante.







