Quando Alisa ouviu a voz da sogra ao telefone, já percebeu pelo tom excessivamente alegre que algo estava errado.
Ela segurou o aparelho entre o ombro e a orelha, enquanto girava a chave e desligava o motor do carro. Eram oito horas da noite, tarde demais para alguém estar tão animado.
– Alisa, é verdade que compraste um carro? Miron disse ontem – tilintou a voz de Valéria Vitalievna.
Alisa fechou os olhos por um instante. O interior do carro ainda cheirava a novo, os assentos estavam cobertos com capas recém-compradas, escolhidas por ela com muito cuidado e reflexão.
Aquele carro não era um presente nem sorte do destino – era o resultado de três anos de sacrifícios.
– Sim, Valéria Vitalievna – respondeu baixinho. – Peguei ontem.
– Que ótimo! Então no Réveillon você vai nos levar pela cidade. Minha irmã e eu queremos visitar todas as amigas e cumprimentar todo mundo. A partir de agora, você é a motorista da família.
Alisa abriu a boca, mas as palavras não saíram. Olhou para o volante, e os dedos apertaram-no lentamente. Lembrou-se de quantas vezes abriu mão de férias, roupas novas, cafés com Kira, só para poupar um pouco mais.
– Valéria Vitalievna, Miron e eu já temos planos para o Réveillon – disse finalmente. – Íamos para o interior, na casa de um amigo, Lesha.
– Que Lesha? – a voz da sogra ficou de repente mais dura. – As amigas são mais importantes. Já contei para todos que vamos nos encontrar. A decisão está tomada.
– Mas eu não posso…
– Alisa, não invente desculpas. É só uma noite. Ou você tem pena de nós?
A ligação caiu. A sogra desligou sem esperar resposta.
Alisa ficou alguns minutos sentada no carro, olhando a rua escura. As luzes refletiam no asfalto molhado. Era meados de dezembro, e ainda não havia neve. Um calor de raiva contida começou a subir dentro dela, um sentimento que conhecia bem demais.
Quando subiu para o apartamento, Miron estava na cozinha, tirando do micro-ondas um prato de pelmeni de ontem.
– Oi – sorriu para ela. – E então? O carro está bom?
– Sua mãe ligou – disse Alisa, jogando as chaves na cômoda mais alto do que devia.
O sorriso de Miron vacilou.
– O que ela queria?
– Disse que no Réveillon eu vou levá-la e a tia Galina pela cidade. Não perguntou, deu ordens.
Miron colocou o prato lentamente sobre a mesa.
– Minha mãe às vezes exagera. Vamos falar com ela amanhã. Ela só deve estar feliz que você tem um carro.
– Miron, precisamos resolver isso agora. Você conversou com Lesha duas semanas atrás.
– Alisa, ela provavelmente já está dormindo. Ligo amanhã. Uma noite não importa. Podemos ir à Lesha outra hora.
Alisa tirou o casaco. As mãos tremiam. Casados há três anos, e sempre era a mesma história. O que a mãe dizia era lei.
– Não é indiferente – disse baixinho. – Este é o meu carro. Com meu dinheiro. E eu também tenho planos.
– Não faça drama – disse Miron, dando de ombros. – Ela é minha mãe. Fez tanto por mim.
Ela se sentou para comer, sem olhá-lo. Alisa ficou na porta da cozinha, observando os movimentos familiares. Depois, virou-se silenciosamente, entrou no quarto e sentou-se na beira da cama. Pegou o celular e escreveu para Kira.
No dia seguinte acordou cedo. Miron já tinha saído, deixando apenas um bilhete: “Desculpe por ontem. Te amo.” Alisa amarrotou-o e jogou fora.
No trabalho, Kira já a esperava.
– Se você ceder agora, acabou – disse com firmeza. – Hoje amigas, amanhã compras, depois consulta médica. Você vai ser apenas a motorista.
– Não quero confusão – suspirou Alisa.
– Então o problema não é sua sogra, é seu marido – respondeu Kira.
Alguns dias depois, Valéria Vitalievna apareceu pessoalmente, segurando um pacote. Um novo casaco de pele, cabelo perfeitamente arrumado, batom chamativo.
– Comprei tapetes para o carro – anunciou. – Para não sujar quando você nos levar.
Colocou-os sobre a mesa e depois puxou uma folha cheia de endereços e horários. Quatro horas de percurso, cada minuto planejado.
– Não posso levar vocês – disse Alisa. – Vamos viajar.
O sorriso da sogra congelou. Tornou-se frio como gelo.
– Miron! – gritou.
Miron saiu, perdido, parado entre elas.
– Vê? – disse a sogra triunfante para Alisa. – Ela entende o que é família.
Alisa ficou em silêncio. Sabia que se falasse algo agora, não haveria volta.
Quando a sogra se foi, Miron começou a implorar.
– Só desta vez, Alis…
– Não é só desta vez – interrompeu. – É sempre.
À noite, Alisa saiu para caminhar, voltou e disse algo que nunca tinha dito antes.
– Não vou. E você vai ligar para sua mãe.
Miron estava com medo. Com medo da mãe.
No dia seguinte ligou, mas contornava a verdade. Buscava um compromisso. Então Alisa entendeu: Miron nunca realmente ficaria do lado dela.
Em 24 de dezembro, a sogra irrompeu furiosa.
– Está me tirando meu filho! – gritou.
Alisa não sentiu medo.
– Não sou sua motorista. Não sou sua empregada. Se quer se relacionar com seu filho, aprenda a respeitar.
A porta se fechou. O silêncio permaneceu.
No Réveillon, Miron foi para a casa da mãe. Alisa ficou sozinha. Não chorou. Simplesmente sentou-se e pela primeira vez sentiu-se livre.
No dia 1º de janeiro, fez as malas. Jogou fora os tapetes do carro. Saiu.
Mais tarde, Miron percebeu o que perdeu. Mas já era tarde demais.
Alisa encontrou um novo apartamento. Pequeno, vazio, mas dela. Na primeira noite, sentou-se no chão, olhando a cidade e sorriu.
Perdeu um casamento, mas recuperou a si mesma.
E isso valia mais do que tudo.







