Na cozinha ainda pairava o aroma adocicado das batatas recém-cozidas quando a voz de Ilja rasgou o ar como um relâmpago inesperado em céu límpido.
Cada palavra que ele pronunciou despedaçou a frágil tranquilidade que, naquela manhã, ambos tentaram tecer ao redor de si.
– Sabe, querida, minha mãe tem razão. Você aqui não passa de uma parasita. Já passou da hora de ir trabalhar! – disparou, batendo o punho na mesa.
O estrondo foi tão brusco que até o ar pareceu estremecer. A colher saltou, ergueu-se num arco trêmulo e caiu no piso azulejado com um tinido metálico.
Durante longos segundos rodopiou pelo chão em círculos, como se buscasse atrasar o inevitável, até finalmente parar.
Svetlana ficou imóvel. Não apenas ela – o cômodo inteiro reteve o fôlego. O zumbido constante da geladeira soava exageradamente alto,
e o murmúrio da rua por trás da cortina chegava como se viesse de outro mundo, distante deste abrupto colapso de seu pequeno universo.
Dentro da mente dela fervilhavam raiva, mágoa e perplexidade, misturando-se como tintas despejadas num mesmo pote, que perdem suas cores próprias e viram uma massa pesada, amarga e densa.
Parasita. Ele disse isso sobre ela. Sobre ela. A mulher que bancava sozinha o financiamento do apartamento, todas as contas, e até o plano do celular caro de Ilja.
A mulher que cuidava dele, dele e da mãe dele – a sempre queixosa e exigente senhora – que ela acolhera em seu lar porque “pobrezinha se sentia tão só no interior”.
A mulher que outrora construíra uma carreira sólida, peça por peça, graças à inteligência, disciplina e coragem. Aos trinta e três anos, possuía mais economias do que grande parte das pessoas ousa imaginar.
E então Ilja apareceu – bonito, jovem, mas emocionalmente verde.
A leveza e o encanto juvenil dele tocaram algo dentro de Svetlana. E ela, como tantas outras antes dela, quis acreditar que ao lado dele seria finalmente feliz, que poderia descansar um pouco, que não precisaria viver eternamente atolada em trabalho.
Ela abandonou a carreira. Não de um dia para o outro – gradualmente, passo a passo, até abrir mão de tudo o que lhe servia de segurança. Acreditou que ao lado de Ilja teria um lar acolhedor, tranquilo. Acreditou que ele a valorizaria.
E agora esse mesmo homem, repetindo apenas as falas prontas da mãe, estava diante dela, chamando-a de parasita sem nem desviar o olhar.
Svetlana o encarou longamente. Sem lágrimas, sem gritos – apenas um silêncio cada vez mais gelado. O olhar dela era tão afiado que, se fosse lâmina, teria riscado o tampo de madeira da mesa.
Então ela sorriu devagar, quase com doçura. – Então, na sua opinião, eu sou a parasita? – murmurou.
Ilja deu de ombros, mas um arrepio frio percorreu-lhe a espinha. O instinto o alertou de que algo nela havia mudado de direção, como um animal acuado que subitamente se vira.
– Bom… estamos com pouco dinheiro – admitiu, menos firme. – Você passa o dia em casa, e eu trabalho… – Entendi – afirmou Svetlana. – Então vou ganhar dinheiro.
A frase era simples demais. Simples até demais.
Ela virou-se, tirou o telefone da bolsa e chamou um táxi. Ilja apenas abriu e fechou a boca, mudo, como um peixe à beira da morte.
– Aonde você vai? – perguntou enfim, percebendo no fundo que algo irreversível estava em andamento. – Vou ganhar dinheiro, Ilja – disse ela com calma. – Simplesmente dinheiro.
No banco traseiro do táxi, os dedos dela tamborilavam impacientes contra a tela. O motorista observava pelo retrovisor, mas manteve-se calado – aquele tipo de passageira não inspirava perguntas.
Svetlana murmurou quase inaudivelmente: – Parasita… eu, que acolhi sua mãe… eu, que pago tudo… eu?
A ira dentro dela não se dissipou; ao contrário, tomou forma. Transformou-se numa determinação fria e calculada.
Dez minutos depois, ela estava numa imobiliária. Acima da porta, um letreiro um pouco desbotado dizia: “Seu lar – nossa responsabilidade”.
A recepcionista, sorridente, exalava aquela falsa segurança de quem resolve qualquer problema desde que o papel seja assinado no lugar certo.
– Preciso de inquilinos com urgência – anunciou Svetlana. – De preferência estudantes ou donos de gatos. Importa que paguem adiantado. Meses adiantados.
A jovem assentiu, como se aquilo fosse rotina. – O Igor cuida disso. Quinta sala à esquerda.
Igor era um homem rechonchudo, calvo, com um sorriso largo demais para ser confiável – mas justamente por isso eficiente. – Posso ajudar, senhora – disse, empurrando os formulários.
Svetlana assinou tudo com firmeza. – Podem se mudar amanhã? – perguntou. – Certamente. Garanto isso. – Ótimo.
Ela saiu. O sorriso nos lábios não tinha nada de gentil.
Meia hora depois, Svetlana estava diante da própria porta. O apartamento estava sendo ocupado pela mãe de Ilja, Irina Arnoldovna, com bobes no cabelo e um avental manchado de beterraba. Ao abrir a porta, a mulher sorriu, confusa mas cordial.
– Svetlana! Por que não avisou? Está tão pálida! O borsch já está quase pronto… – Obrigada, Irina Arnoldovna – respondeu Svetlana baixinho. – Mas, por favor, comece a arrumar suas coisas. Seu período aqui terminou.
A mulher piscou, como se tivesse levado um tapa. – Como? Mas você disse que podíamos ficar o tempo que quiséssemos!
– Lembro – sorriu Svetlana. – Mas hoje seu filho comentou que estamos sem dinheiro. Decidi resolver isso. Amanhã chegam novos moradores.
Antes que Irina pudesse reagir, Svetlana já jogava as roupas dela dentro de sacos. Exatamente dez minutos depois, o chaveiro chegou. – Vim trocar a fechadura – anunciou.
– Entre, por favor – disse Svetlana.
O metal rangeu, a voz de Irina subiu uma oitava. – Svetlana, querida, o que está fazendo?! – Otimizando nosso orçamento doméstico – respondeu sem emoção.
– E minhas begônias? O borsch?! – Vêm conosco. O porta-malas dá conta.
O táxi levou Irina de volta ao vilarejo, abarrotado de malas, plantas e uma sogra profundamente ofendida, telefonando desesperada para cada parente:
“Luba, me recebe! Como assim não tem espaço?! Aliona? Vai viajar pra praia? Pois que maravilha!”
Quando Svetlana retornou à noite, Ilja estava sentado no sofá, pálido, com o olhar esvaziado. – Onde você estava? – sussurrou.
– Fui conseguir dinheiro – disse ela. – Tirei sua mãe daqui. Vou alugar o apartamento. Vamos economizar. Nada de cerveja, nada de cafés. Comemos em casa. Mingau.
Ilja saltou de pé. – Você expulsou minha mãe?! – No interior o ar é mais puro – declarou Svetlana. – E o custo de vida é menor.
Ele tombou de volta para o sofá, sem forças.
Aguentou uma semana. Uma semana de mingau, regras e lógica gelada. Depois desapareceu. Sem despedida. Apenas deixou um bilhete:
“Por quê, Svetlana?”
Ela respondeu para si mesma, com serenidade: – Porque não é sábio provocar uma mulher.
E isso dizia tudo. O silêncio que ocupou o apartamento depois disso não trouxe dor. Trouxe liberdade. E ninguém jamais voltou a chamá-la de parasita.







