Um dia decidi não tomar o comprimido para dormir que minha esposa e meu irmão me davam, para descobrir o que eles faziam enquanto eu dormia — e o que vi realmente me assustou.

HISTÓRIAS DE FAMÍLIA

Tenho sessenta e cinco anos, e nos últimos meses comecei a sentir como se uma teia invisível se tivesse enrolado à minha volta. Há anos não durmo bem, mas ultimamente a situação se tornou insuportável: à noite eu apenas me virava de um lado para o outro, pensamentos batendo como martelos, o corpo exausto e, mesmo assim, a mente obstinadamente desperta.

O médico acabou receitando um sedativo forte, um daqueles que derrubam a consciência como se arrancassem o chão sob os pés. E de manhã eu despertava com a estranha sensação de que alguém me havia acordado horas antes, e só depois devolvia minhas memórias, uma a uma, dentro da cabeça. Movia-me devagar, raciocinava com lentidão, e às vezes até as palavras mais simples pareciam fugir do meu alcance.

Minha esposa deixava todas as noites um copo d’água e o comprimido ao lado do criado-mudo. Só sossegava quando me via engolir. Meu irmão — que se mudou para nossa casa depois da morte da esposa — também estava sempre por perto, quase sufocante na preocupação exagerada. Ambos repetiam que eu precisava de um “sono profundo e curativo”, mas depois de um tempo aquilo soava mais como imposição do que cuidado.

Eu não sabia explicar exatamente o que me incomodava, só sentia que algo ali não batia certo. Seus olhares eram por demais atentos, avaliadores, como se vigiassem cada gesto meu, cada passo, cada bocejo, cada momento em que meus olhos se fechavam.

De dia, às vezes cochichavam na cozinha; quando eu entrava, o silêncio caía pesado no ar. Perguntei o que havia, e disseram apenas: “Nada, só estamos preocupados contigo.” Mas o sorriso deles era largo demais, tenso demais, falso demais.

Uma noite, simplesmente esqueci de levar água para o quarto. Não pensei que fosse grande coisa: levantei-me, segui para a cozinha e, quando entrei, os dois se afastaram tão abruptamente um do outro que parecia que eu os tinha flagrado num ato proibido. O rosto da minha esposa estava lívido.

– Por que você não está dormindo? – perguntou rápido demais, agudo demais.

– Esqueci de pegar água – respondi, tentando parecer calmo, mas dentro de mim a suspeita já começava a se mexer, inquieta.

Voltei para o quarto, mas por mais que tentasse, as pálpebras não fechavam. Os pensamentos corriam soltos, desordenados. A reação dos dois não havia sido natural. Não era simples susto — era medo. Mas medo de quê? De mim? Ou de eu descobrir alguma coisa? Algo que não deveria ver?

Na noite seguinte, decidi que descobriria a verdade. Meu coração batia descompassado quando coloquei o comprimido sob a língua e, no instante em que minha esposa virou o rosto, cuspi cuidadosamente o remédio em um lenço de papel, escondendo-o depois debaixo do travesseiro.

Bebi a água para que parecesse convincente, então me deitei devagar. Ela me observou por longos segundos, esperando o efeito. Só saiu do quarto quando eu já respirava de maneira pesada, como se estivesse mergulhando num sono profundo.

Quando os passos deles sumiram pelo corredor, esperei mais uns dez minutos. Meu corpo tremia de tensão. Sentei devagar, sem fazer ruído, e caminhei descalço até o corredor. A casa estava tão silenciosa que parecia que até os móveis prendiam o fôlego. Da cozinha vinham vozes abafadas.

Aproximei-me furtivamente, milímetro por milímetro. A luz escapava por uma fresta da porta. Quando cheguei perto o suficiente, vi.

Estavam sentados um diante do outro à mesa. Não tomavam chá, não falavam de trivialidades. Sobre a mesa havia um envelope grosso, com um rótulo impossível de interpretar de outra forma.

Ao lado, pilhas de papéis, folhas puxadas às pressas, anotações, documentos. Minha esposa folheava tudo com mãos trêmulas, enquanto meu irmão apontava linhas específicas, analisando como quem confere um cálculo perigoso.

– Até quando você acha que ele aguenta? – perguntou minha esposa, a voz tremendo. – Tem certeza de que esses remédios enfraquecem, em vez de ajudar?

Meu irmão encolheu os ombros, frio, técnico, distante.

– Absoluta. De manhã ele mal consegue acordar. Está cada vez mais lento. Se continuarmos assim, não vai suspeitar de nada. Precisamos encerrar tudo antes que ele perceba o que está acontecendo.

Meu coração quase parou. Que “tudo”? O que era para ser encerrado?

Minha esposa então abriu outra pasta. Uma folha escorregou para fora — e eu a reconheci na mesma hora: meu testamento. Assinado anos atrás. Mas ao lado havia uma segunda versão — falsificada. A letra era parecida com a minha, mas não era minha: era tensa, apressada, copiada às pressas.

– Amanhã levamos a versão nova ao tabelião – disse meu irmão, como se comentasse uma ida ao supermercado. – Ele vai acreditar. Diremos que o estado dele piorou, que me pediu para assumir as decisões.

– Só espero que ele não reaja – murmurou minha esposa. – Ontem, quando ele desceu, tive certeza de que tinha percebido algo. Ele nos olhou de um jeito…

Minhas pernas quase cederam. A revelação me golpeou como um soco no peito: os dois — minha esposa e meu irmão — não cuidavam de mim por amor. Para eles, minha vida era um obstáculo. Um obstáculo que pretendiam remover.

E então veio a frase que fez meu sangue congelar de vez.

– Você tem certeza de que o coração dele aguenta a dose dobrada? – sussurrou minha esposa, quase inaudível.

Meu irmão respondeu devagar, um sussurro cheio de significado.

– Esse não é o objetivo. Se ele resistiu até agora, é por sorte. Está na hora de terminar.

O chão pareceu inclinar-se sob meus pés. Pensei que fosse desmaiar, mas sabia que não podia. Precisava voltar ao quarto antes que notassem minha ausência.

Retornei cambaleando, leve como ar, e me deitei de novo. Apenas alguns minutos depois ouvi passos se aproximando. Minha esposa entrou com um copo d’água. Vi que o líquido estava levemente turvo — o comprimido já tinha dissolvido ali dentro. Ela pousou o copo com cuidado.

– Durma bem fundo – murmurou, com uma frieza calculada que me cortou por dentro. – Não falta muito agora.

Minha respiração continuou lenta, fingidamente serena, mas dentro de mim tudo rugia. Eu sabia que aquela noite tinha mudado meu destino — ou melhor: o tinha salvado.

Porque se eu tivesse tomado aquele comprimido, talvez dentro de poucos dias eu já não estivesse vivo.

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