Vivi por quinze anos com um homem com quem nunca dormi. Não por raiva, nem por repulsa, mas por algo muito mais silencioso, quase impossível de nomear.
Até hoje não sei dizer quando a distância começou, só sei que ela nunca diminuiu.
As pessoas ao nosso redor – o zelador, o entregador de gás, a faxineira, os vizinhos – sempre acharam que éramos o casal modelo.
Todas as manhãs saíamos juntos do nosso apartamento no nono andar em Gurgaon, e voltávamos juntos ao anoitecer.
Levávamos o lixo na hora certa, regávamos as plantas da varanda, e nos domingos pedíamos macarrão masala bem apimentado.
Nossos sapatos alinhados com perfeição na porta, as escovas de dente num ângulo exato dentro do copo.
Para o mundo, tudo era harmonia. Ninguém sabia que, na nossa cama, duas almofadas passaram quinze anos sem jamais se tocarem.
Nossa porta não trancava – nem a da cozinha, nem a da varanda. Mas na cama, havia uma fronteira invisível que nenhum de nós jamais atravessou.
Ele dormia virado para a parede, sob a luz fria e direta de sua luminária. Eu, do outro lado, com minha luz amarela, coberta por um tecido fino, ouvindo o som da chuva martelar o telhado de zinco durante o monção.
Meu corpo instintivamente se curvava para a esquerda, se afastando dele. Às vezes, de madrugada, ouvia-o se mexer, mas ele nunca vinha na minha direção.
Dentro de casa, tudo era meticulosamente organizado. Dobrei suas camisas com cuidado, pendurei-as em ordem, juntei meias em pares. A família dele me adorava.
Quando minha mãe faleceu, foi ele quem cuidou dos remédios, quem lembrou da data antes de mim.
Diziam que eu era uma mulher de sorte. E eu pensava em silêncio: sorte… para quem?
Na noite do casamento, enquanto uma chuva suave tocava as janelas, a mãe dele me disse: “É a nora quem mantém o fogo do lar aceso.”
Naquela noite, ele colocou meu livro preferido no criado-mudo, me cobriu com o edredom e sussurrou: “Você está cansada, descanse.” Virou-se de costas. Meu grampo caiu no chão – foi o único som. Nosso mundo já era mudo.
Achei que no dia seguinte ele se aproximaria. Depois, no terceiro.
Dez dias depois, já não esperava. Cem dias depois, nem lágrimas eu conseguia derramar. Quando tentei chegar perto, ele recuou suavemente, como quem evita uma pedra que já conhece bem.
O tempo passou. Depois de dez anos, escrevi um pedido de divórcio, com o nome *der\_late.docx*. Deletei. Reescrevi. Após treze anos, imprimi e coloquei diante dele.
Ele apenas disse: “Me dá um tempo.” Até quando? perguntei. “Depois desta estação.” Mas qual? A estação da espera? Ou da desistência?
Fomos à terapia. O terapeuta perguntou: você sente desejo? Ele assentiu. Tem outra orientação? Assentiu de novo. Trauma? Silêncio.
Um dia, cheguei mais cedo. A chuva despencava sobre Delhi quando abri a porta.
Ouvi vozes vindas do escritório. A dele e de alguém que conhecia bem: Aarav – seu melhor amigo, com quem tomava cerveja todo sábado. Sempre gostei dele.
“Ela pediu o divórcio de novo,” disse ele, cansado.
“E agora?” perguntou Aarav.
“Não vou me divorciar. Fiz uma promessa.”
“Para quem? Para mim ou para ele?”
“Para os dois.”
A voz dele falhou: “Ainda ouço os freios gritando.”
Congelei. Continuei ouvindo. “Ambos somos culpados. Meu dever é deixá-la dormir. O seu, me sustentar.”
Naquela noite, perguntei: “Você ama Aarav?”
Ele respondeu: “Eu amo promessas. Fiz a você. E a ele.”
No dia seguinte, encontrei na gaveta os documentos do seguro. Se o estado civil mudasse em dois anos, seria inválido. Data da assinatura: 23 de setembro, dois anos atrás.
Junto, recibos hospitalares. Uma foto antiga: eu com um rapaz diante do portão da Universidade de Delhi. Rohan – meu primeiro amor. No verso, escrito por mim: “Rohan, as chuvas chegaram cedo este ano.” Ao lado, um bilhete: “Desculpe. – V.”
Depois, Aarav me entregou uma carta. Dentro, toda a verdade. Vikram atropelou a moto de Rohan naquela noite.
Rohan sobreviveu, mas com o rosto desfigurado. Pediu a Vikram que se casasse comigo – mas que nunca me tocasse. Ele sumiu, adotou outro nome. Aarav era Rohan.
Quando confrontei Vikram, ele apenas disse: “Cumpri a promessa. Esperei só até o seguro ser válido.”
Ele assinou o divórcio. Entregou-me os papéis. “Assine se quiser. Se não, tudo bem.” Esperei. Um mês depois, assinei.
Fui embora. Comprei uma cama nova. Coloquei nela apenas um travesseiro.
Rohan ligou. Um dia atendi. Disse: “Ele só pediu que eu dissesse: ‘Sou Rohan. O covarde que fugiu.’”
Respondi: “Agora me chamo Aarav. Acostume-se. E aprenda também o seu novo nome – o seu verdadeiro.”
Nos encontramos à beira do rio Yamuna. Falei: “Não sei se ainda existe amor. Mas quero aprender a dormir no meio da cama.”
Ele respondeu: “Desta vez, eu espero. Fico aqui.”
Vikram enfim se mudou, deixando um comprovante de aluguel e uma carta:
“Fiz a minha parte: soltei o freio, soltei o ar. Faça a sua: queime os papéis do divórcio, compre flores, coloque um travesseiro no meio da cama.
Se algum dia precisar de alguém para pendurar as cortinas, me chame – como vizinho.
Vikram – o homem que não te tocou, não por falta de amor, mas por medo de amar da forma errada.”
Naquela noite, acendi a luz amarela. E pela primeira vez na vida – não escolhi ele, nem Rohan – escolhi a mim mesma.







