Durante muito tempo, as doenças cardíacas foram vistas como um problema de saúde tipicamente masculino, como se as mulheres estivessem quase imunes a essa condição grave e frequentemente letal.
No entanto, a realidade é alarmante: em todo o mundo, as enfermidades cardiovasculares também são a principal causa de
morte entre as mulheres, e mesmo assim muitos sinais são reconhecidos tardiamente – ou nem chegam a ser levados a sério.
O risco cresce de forma significativa especialmente após os 40 anos de idade.
As alterações hormonais, a queda nos níveis de estrogênio com a chegada da menopausa, e os hábitos cotidianos – como o sedentarismo, a falta de atividade física,
o tabagismo ou a alimentação desequilibrada – somados aos efeitos naturais do envelhecimento, contribuem diretamente para a sobrecarga do coração e o surgimento de doenças.
O mais preocupante é que os sintomas nem sempre são óbvios – muitas vezes são discretos e enganosos.
A clássica cena de ataque cardíaco retratada nos filmes – alguém agarrando o peito e caindo no chão – raramente reflete o que acontece com as mulheres.
Nelas, os sinais surgem de forma mais sutil, silenciosa e traiçoeira.
Pode começar com uma fadiga repentina e incomum. Não é aquele cansaço rotineiro após um dia intenso ou uma noite mal dormida.
É um esgotamento mais profundo, quase incapacitante, que não melhora nem com o repouso.
É como se o corpo carregasse um peso invisível, que dificulta os movimentos mais simples e transforma as tarefas do dia a dia em desafios físicos.
Muitas mulheres relataram que, dias ou até semanas antes do infarto, já sentiam dificuldade para carregar sacolas de compras ou ficavam ofegantes ao subir um único lance de escadas.
A dor no peito também pode ocorrer, mas de maneira diferente da que é comum nos homens. Nem sempre é intensa ou opressiva.
Pode ser percebida como uma pressão leve, sensação de aperto, queimação discreta no centro do tórax, com duração variável – às vezes intermitente, às vezes persistente –, mas raramente parece grave o suficiente para gerar alarme.
Por isso, muitas vezes é confundida com azia ou atribuída ao estresse.
A falta de ar é outro sintoma revelador. Pode surgir mesmo em repouso, ou durante atividades mínimas – como caminhar dentro de casa – causando cansaço excessivo.
Isso ocorre quando o coração já não consegue bombear o sangue de forma eficiente, provocando deficiência de oxigênio.
A dor irradiada também é frequente, mas nem sempre se limita ao braço esquerdo, como se costuma imaginar. Nas mulheres, é comum atingir o pescoço, a mandíbula, a parte superior das costas, os ombros ou até a parte alta do abdômen.
Essas dores podem ser surdas, latejantes ou agudas, mas geralmente são interpretadas como tensão muscular, problema de coluna ou desconforto digestivo.
A situação se agrava ainda mais porque muitas mulheres apresentam sintomas semelhantes aos da gripe nos dias que antecedem o infarto: náusea, tontura, suor frio, fraqueza generalizada, palidez.
Sinais fáceis de ignorar – afinal, quem pensaria que um enjoo poderia esconder uma ameaça tão séria?
Pesquisas também indicam que diversas mulheres enfrentam dificuldades para dormir antes de um evento cardíaco.
Elas custam a pegar no sono, acordam várias vezes durante a noite, ou simplesmente não conseguem descansar adequadamente e acordam exaustas.
Esse padrão costuma vir acompanhado de uma ansiedade sem explicação aparente, uma inquietação interna, a sensação de que “algo está errado”, mesmo sem motivo claro.
Infelizmente, muitas mulheres ainda negligenciam esses sinais. Costumam colocar as necessidades da família e do trabalho à frente de sua própria saúde.
Acreditam que não têm tempo para procurar um médico, ou consideram que os sintomas são banais demais para justificarem preocupação.
Além disso, os estereótipos sociais – que associam o infarto ao universo masculino – reforçam essa visão perigosa.
Mas o fator tempo é essencial. Quanto mais cedo os sintomas forem reconhecidos e tratados, maiores são as chances de sobrevivência e menores os danos ao coração.
Se qualquer um dos sinais mencionados aparecer – especialmente se surgirem combinados –, não se deve hesitar. É fundamental buscar ajuda médica imediata.
Prevenir é igualmente vital.
Exames regulares, controle da pressão arterial e do colesterol, abandono do cigarro,
uma dieta equilibrada, prática constante de atividades físicas e estratégias para lidar com o estresse são atitudes que fazem toda a diferença para a saúde cardiovascular.
O coração nem sempre grita – às vezes ele apenas sussurra. Mas, se aprendermos a escutá-lo, podemos evitar que o pior aconteça.







