Dr. Carter corria ofegante rumo ao portão de embarque, lançando olhares ansiosos ao relógio enquanto se apressava até o guichê do aeroporto.
O tempo escorria como areia entre os dedos, e o coração dela batia acelerado de ansiedade — estava a caminho de uma missão médica vital, em que uma vida dependia de sua chegada.
Ao avistar a fila curta no balcão, sentiu um alívio imediato, embora seus dedos ainda tremessem com a pressão do momento.
Quando finalmente se aproximou da atendente, tropeçou em seus próprios pés e a bolsa escorregou de suas mãos. Objetos pessoais — chave, celular, bloquinho — caíram no chão polido com um som seco.
Instintivamente, ajoelhou-se para recolher seus pertences, com o peito apertado por um misto de urgência e desespero.
Só então percebeu que um casal havia se aproximado ao lado. Michael e Dana, nitidamente com pressa semelhante, dirigiam-se ao atendente. Michael falou, direto:
— Duas passagens para Santa Monica, por favor!
Luke, o funcionário do guichê, hesitou por um instante, lançando um olhar incerto a Dr. Carter. — Restam apenas dois assentos — informou, batendo os dedos na mesa com inquietação.
Dr. Carter levantou-se apressada, os itens ainda nas mãos. A voz embargada, porém firme:
— Por favor, é uma emergência. Sou médica, preciso embarcar imediatamente.
Michael sequer deu atenção. Mostrou o cartão de crédito com firmeza e disse:
— Chegamos primeiro. Esses lugares são nossos.
Dana olhou para Dr. Carter, visivelmente tocada, e sugeriu:
— Talvez devêssemos ceder ao menos um lugar?
Michael balançou a cabeça, resoluto:
— Não. Já decidimos essa viagem, e não vamos mudar agora.
A voz de Dr. Carter fraquejou, carregada de emoção:
— Trata-se de salvar uma vida…
Michael respondeu com frieza:
— A vida é difícil para todos. Cada um com seus problemas. Emita os bilhetes, Luke.
Luke fez a reserva. Michael recebeu os cartões de embarque com um sorriso satisfeito.
Dana lançou um olhar solidário à médica, que apenas sussurrou:
— Obrigada.
Virando-se de volta ao atendente, perguntou:
— Há outro voo disponível?
Luke conferiu a tela. — Havia um assento… mas acabou de ser reservado. Posso colocá-la na lista de espera.
Enquanto Michael e Dana caminhavam até a área de embarque, Dana olhou para trás, desapontada:
— Você foi insensível.
Michael, absorto no celular, deu de ombros:
— Não dá pra resolver a vida de todo mundo, Dana. Isso é realismo.
Dana suspirou:
— Você só pensa em si mesmo?
Michael esbarrou em outro casal e reagiu com irritação:
— Presta atenção!
O casal pediu desculpas, e a expressão de Dana ficou ainda mais decepcionada.
A bordo, Dana ficou inquieta. Uma luz piscava sobre suas cabeças, e um ruído estranho ecoou pela cabine. Ela sussurrou:
— Você ouviu isso?
— É besteira. Fica calma — murmurou Michael, virando a página da revista.
— Estamos na fileira 13. Você foi cruel antes. E se isso for carma?
— Que bobagem — respondeu ele, rindo.
De repente, uma forte turbulência sacudiu o avião.
Passageiros gritaram. Uma mala caiu quase acertando Michael.
— Uau, por pouco! — disse ele, achando graça.
Dana encarou-o, chocada:
— Você acha isso engraçado?
A voz do comandante ecoou pelo sistema, pedindo que todos afivelassem os cintos.
Após minutos tensos, o avião estabilizou.
Michael chamou a comissária:
— Quase fui atingido por bagagem. Merecemos uns drinks!
Ela trouxe dois martínis.
Michael brindou:
— À sobrevivência! — e tomou o seu de uma vez. Depois estendeu a mão para o de Dana.
— Não quer?
— Não — disse ela, fria.
Ele tomou o dela também. Logo começou a tossir e engasgar. A azeitona foi para o lugar errado.
Dana levantou-se rapidamente, aplicando a manobra de Heimlich. Com um impulso firme, a azeitona foi expelida.
— Está bem? — ela perguntou, ainda ofegante.
— Sim… Sem azeitonas da próxima vez.
— Você precisa cuidar da sua saúde.
— Uma azeitona não me derruba — disse, arrogante.
Momentos depois, um cheiro de queimado se espalhou na cabine.
— Michael, tem algo pegando fogo — alertou Dana, tensa.
— Deve ser nada — minimizou.
Mas a fumaça apareceu logo em seguida.
Uma comissária tentava apagar um foco de incêndio.
Dana puxou Michael:
— Vamos ajudar!
Ele hesitou, mas logo se envolveu. Conseguiram conter o fogo. Os passageiros aplaudiram.
— Situação sob controle — gabou-se Michael.
— Você ajudou por empatia ou por aplausos? — perguntou Dana, baixinho.
Michael silenciou.
Mais tarde, Dana falou hesitante:
— Recebi uma proposta de trabalho. Em outra cidade.
Michael virou-se bruscamente:
— O quê? E você não contou?
— Não sabia como. Mas depois de hoje… vejo que estamos em caminhos diferentes.
— Você vai me deixar?
— É o emprego dos meus sonhos, Michael.
— E a gente?
— Sempre te apoiei. Agora, você não faz o mesmo.
— Você está escolhendo um trabalho no lugar de nós dois.
— Estou escolhendo a mim mesma.
— Se for… acabou — disse ele, ameaçando.
Dana sentiu o coração pesar. Ficaram em silêncio.
Quando o avião iniciou o pouso, ela disse:
— Hoje, você mostrou que eu preciso de alguém que me compreenda.
— Está terminando comigo?
— Sim — sussurrou.
Michael se levantou, surpreso, e levou a mão ao peito.
— Dana… meu coração…
Dana se assustou:
— Michael?
Mas ele caiu na risada:
— Pegadinha.
— Isso não tem graça! — gritou ela.
Enquanto se afastava, Michael cambaleou e caiu, ofegante.
— Dana…
Uma enfermeira a bordo correu:
— Ele está em taquicardia! Precisa de socorro urgente!
Paramédicos os aguardavam no portão. No hospital, a emergência era intensa.
— Cadê a Dra. Carter? — perguntou um médico.
— Ela perdeu o voo — alguém respondeu.
— Estamos perdendo o paciente — disse o chefe da equipe.
Michael, entre a vida e a morte, pensava em Dana, na briga, no que deixou escapar.
Em um quarto silencioso, Dana estava ao seu lado, segurando sua mão.
— Está estável, mas o estado é grave — disse uma enfermeira.
Michael abriu os olhos:
— O que houve?
— Você teve um infarto. A Dra. Carter te salvou — respondeu Dana.
Michael piscou, surpreso:
— A médica do aeroporto?
Nesse instante, a Dra. Carter entrou.
— Você… — murmurou Michael.
— Consegui vir num voo fretado. Você teve sorte.
— Desculpa… e obrigado.
Ela sorriu:
— Cuide bem do seu coração — físico e emocional.
Após sua saída, Michael virou-se para Dana, com lágrimas nos olhos:
— Fui egoísta. Vejo isso agora.
— Primeiro recupere-se.
— Vou apoiar sua decisão. Você merece ser feliz.
Dana sorriu, apertando sua mão.
E ali, o perdão floresceu. A esperança, enfim, renasceu.







